Por dentro do braço propagandístico do exército israelense
Campanhas de guerra psicológica, vazamentos seletivos, acesso exclusivo a repórteres chapa-branca: soldados e jornalistas revelam como a Unidade do Porta-Voz das FDI controla o discurso público e promove a narrativa de "israel" no exterior.
Rafael Rozenszajn, major e porta-voz do exército israelense para o público de língua portuguesa. (Foto: Reprodução)
Por Illy Pe’ery*
Em outubro de 2023, Gili foi convocada para o serviço de reserva na Unidade do Porta-Voz das FDI e designada para o Comando Norte. Nos dias que se seguiram aos ataques do Hamas, enquanto a atenção pública em Israel estava voltada para a devastação no sul, o Hezbollah começou a lançar foguetes e mísseis antitanque em direção ao norte de Israel.
“Estávamos trabalhando em turnos de 12 horas em uma sala de operações subterrânea, enquanto soldados em postos avançados estavam apavorados, mas não podíamos transmitir que o norte estava em chamas”, relembrou. “Minimizamos a frente norte para evitar causar pânico público, embora houvesse lançamentos constantes. As pessoas não estavam morrendo como no sul, mas lembro de sentir que estávamos criando uma imagem imprecisa: mostramos muito mais força do que vulnerabilidade.”
A experiência deixou Gili, que pediu para usar um pseudônimo, questionando o próprio sistema ao qual havia servido por anos. “Sempre foi fácil repetir que ‘as FDI estão preparadas para qualquer cenário’”, continuou. “Quem éramos nós para questionar isso? Mas, na realidade, era besteira.
“Você pode ver isso agora com o Irã também: o foco está quase inteiramente no poder avassalador do exército, e pouco além disso”, explicou. “Isso não me tranquiliza quando me dizem o quão duramente as FDI estão atacando ou sobre a superioridade aérea sobre Teerã. No fim das contas, mísseis balísticos ainda estão sendo disparados contra nós, e não há rotina normal. Existem sistemas de defesa aérea, mas para cada 10 interceptações bem-sucedidas, também há impactos diretos.”
Questionada sobre em quem acredita hoje, Gili respondeu sem hesitar: “Ninguém. Nem no que o Porta-Voz das FDI diz, nem nos correspondentes militares. Eles são porta-vozes.”
Falando ao veículo investigativo israelense The Hottest Place in Hell, soldados da Unidade do Porta-Voz das FDI e correspondentes militares de publicações israelenses apontaram um padrão sistemático: uma obsessiva tentativa de controlar o discurso público, tratamento preferencial para jornalistas “convenientes” enquanto marginalizam e punem os críticos e, acima de tudo, uma cultura organizacional de engano.
Durante os primeiros 14 meses da guerra de Israel em Gaza, a Unidade do Porta-Voz das FDI também conduziu uma campanha encoberta de operações psicológicas destinada a moldar a opinião pública em Israel e no exterior, como revelou recentemente o The Hottest Place in Hell. Paralelamente a esses esforços de influência, a unidade foi encarregada de processar e distribuir imagens do ataque do Hamas de 7 de outubro às comunidades israelenses próximas a Gaza.
Segundo os testemunhos, soldados coletaram grandes volumes de material visual — incluindo imagens filmadas por militantes do Hamas — e o reformataram para circulação rápida em plataformas de mídia social.
Esse processo culminou em “Bearing Witness to the October 7 Massacre”, ou o que ficou conhecido em Israel como o “vídeo das atrocidades”: uma compilação de 47 minutos de imagens brutas produzida sob a supervisão do major (res.) Yuval Horowitz, chefe da divisão de campanhas.
“Era como o Velho Oeste — não havia censura”, disse um soldado que serviu na unidade e trabalhou no filme. “Fomos inundados com material e vimos tudo. Eu estava em choque, mas ao mesmo tempo havia pressão para distribuir o máximo possível — era como numa [campanha publicitária de] redes sociais: o que funciona? O que não funciona? O que chama atenção?”
“O Porta-Voz das FDI mente”, disse um correspondente militar sênior ao The Hottest Place in Hell. “Às vezes é sobre manipular dados, mas, no fim, é o público que é pego de surpresa.
“No início da ‘Operação Leão Rugidor’”, continuou, referindo-se à atual guerra com o Irã, “as FDI afirmaram ter destruído 70% dos lançadores de mísseis do Irã. Verificamos e rapidamente percebemos que não era preciso — às vezes atingiam entradas de túneis, não os lançadores em si, ou os lançadores continuavam disparando apesar de terem sido ‘destruídos’. Nos grandes veículos, ninguém questiona. Mas quando a guerra terminar e foguetes ainda estiverem sendo disparados, o público não vai entender como.”
Após quase dois anos e meio de guerra contínua, a confiança do público israelense na narrativa do exército parece estar se desgastando. Entre sirenes, cada vez mais israelenses perguntam: estamos realmente alcançando o que nos dizem que estamos? E, se sim, por que ainda estamos correndo para abrigos?
A criação de uma operação de influência oculta
Em 29 de outubro de 2023, um grupo intitulado “Fact Check – Daily Content” apareceu no WhatsApp. Sua descrição em inglês apresentava a iniciativa como um esforço educacional neutro: “uma organização sem fins lucrativos que trabalha para fornecer aos estudantes informações e fatos sobre a guerra em andamento entre Israel e a organização terrorista Hamas.”
Duas semanas depois, em 12 de novembro, um canal no YouTube chamado “Fact Check” foi criado usando uma conta baseada nos EUA, novamente se apresentando como uma “organização de notícias sem fins lucrativos”. Um perfil no Instagram com a mesma marca surgiu no dia seguinte.
Na realidade, como revelou recentemente o The Hottest Place in Hell, foi a Unidade do Porta-Voz das FDI que lançou e operou esses canais. Essa campanha de propaganda funcionou de outubro de 2023 a dezembro de 2024 sob o disfarce de uma iniciativa midiática independente e sem fins lucrativos, apresentada como um veículo de “checagem de fatos”. Durante esse período, produziu e disseminou dezenas de vídeos promovendo narrativas militares israelenses sem revelar sua origem.
Nenhum dos canais conseguiu atrair uma grande base de inscritos. No entanto, a operação recrutou dezenas de influenciadores israelenses e pró-Israel internacionais para amplificar mensagens coordenadas pelos militares, incluindo Noa Tishby e Sarai Givaty, além de outras figuras de comunidades judaicas no exterior. O conteúdo foi distribuído via WhatsApp, YouTube e Instagram, alcançando milhões de espectadores.
Os vídeos promoviam uma série de argumentos alinhados de perto com a mensagem oficial israelense. Entre eles, alegações de que judeus não podem ser considerados colonizadores na Palestina devido aos seus laços históricos com o reino bíblico de Judá, enquanto “árabes” seriam os verdadeiros “colonizadores da terra”; afirmações de que as ações de Israel em Gaza não constituem genocídio; e defesas contra acusações de crimes de guerra contra Israel na Corte Internacional de Justiça.
“Os canais [no YouTube, WhatsApp e Instagram] tinham como alvo audiências estrangeiras e se apresentavam como objetivos e não afiliados a Israel”, disse um soldado envolvido na produção dos vídeos ao The Hottest Place in Hell. “Mas tudo foi criado dentro da nossa unidade e claramente promovia a narrativa israelense.
“A divisão de campanhas é a área mais moralmente cinzenta dentro da Unidade do Porta-Voz das FDI”, continuou. “No início, parecia urgente mostrar ao mundo o que havíamos passado. Mas isso mudou muito rapidamente. Gaza estava sendo arrasada, e a narrativa que podia ter se sustentado nas primeiras semanas começou a desmoronar. Quando fui dispensado, senti uma profunda repulsa por ter feito parte disso.”
A investigação sugere que essa não foi uma iniciativa isolada, mas parte de um padrão mais amplo de operações psicológicas conduzidas pela Unidade do Porta-Voz das FDI.
Em maio de 2021, durante o que o exército israelense chamou de “Operação Guardião das Muralhas”, a divisão de campanhas lançou uma iniciativa nas redes sociais sob a hashtag #GazaRegrets, destinada a aumentar o apoio às ações militares em Gaza entre o público israelense. Como parte do projeto, soldados operavam contas falsas que compartilhavam imagens de ataques aéreos israelenses em Gaza junto com a hashtag, enquanto interagiam com contas de apoiadores do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e de outros políticos de direita — tudo sem revelar sua ligação com o exército.
Após uma investigação do Haaretz que expôs a campanha, o exército reconheceu seu envolvimento e a descreveu como um “erro”. No entanto, as descobertas do The Hottest Place in Hell indicam que métodos semelhantes continuaram a ser empregados nos anos seguintes.
A abordagem de “cenoura e chicote” do exército
A Unidade do Porta-Voz das FDI serve como principal porta de entrada do público para o exército, mediada pela imprensa. Para obter informações, verificar detalhes ou entrevistar autoridades militares, jornalistas precisam passar pela unidade — o que lhe confere um poder que, segundo jornalistas e soldados ouvidos pelo The Hottest Place in Hell, é frequentemente abusado para distorcer a cobertura midiática e, por extensão, a percepção do público israelense sobre o exército.
Roni se alistou no exército israelense em 2019 e serviu nessa unidade. Como muitos outros, foi convocada novamente como reservista após 7 de outubro, alternando entre funções que incluíam responder a perguntas de jornalistas e distribuir orientações de mensagem. “Era quase viciante”, relembrou. “A escala da responsabilidade me envolveu profundamente. Eu estava disponível 24 horas por dia — [recebendo] ligações constantes. Sentia que estava fazendo algo enorme.”
A unidade é dividida em vários ramos distribuídos por divisões e departamentos do exército. Porta-vozes de campo — oficiais geralmente com patente de capitão ou major — são incorporados a comandos e brigadas e são responsáveis por responder a solicitações da mídia.
Por exemplo, se um jornalista solicita informações sobre um incidente na Cisjordânia, o quartel-general encaminha o pedido à equipe de porta-vozes do Comando Central, que reúne detalhes das unidades relevantes e formula uma resposta oficial. Porta-vozes de campo também são encarregados de identificar “histórias” dentro das unidades que possam ser oferecidas à mídia, funcionando essencialmente como um braço de relações públicas.
No entanto, o papel mais conhecido da unidade é sua função voltada para a mídia, com departamentos especializados em televisão, imprensa, digital e rádio. Quando jornalistas buscam uma resposta para suas matérias, geralmente entram em contato com o departamento correspondente à sua plataforma — exceto por um grupo seleto de 16 repórteres israelenses que pertencem à chamada “célula de correspondentes”.
Uma repórter da Rádio do Exército israelense, 11 de novembro de 2019. (Moshe Shai/Flash90)
“Membros da célula recebem briefings exclusivos, conferências, linhas diretas e eventos especiais”, explicou Roni. “Havia repórteres e veículos que não eram admitidos por anos, e outros eram rebaixados para departamentos menos prestigiados — digamos, do setor nacional de rádio para o de veículos locais — porque eram críticos das FDI. Eu não estava no nível em que essas decisões eram tomadas, mas muitas vezes tudo se resumia à atitude do repórter em relação a nós — é um sistema de dar e receber.”
Um jornalista disse ao The Hottest Place in Hell que sua cobertura às vezes teve um custo profissional. “Eu era muito crítico das FDI, e eles não gostavam disso. Pessoas dentro do exército me disseram que minha crítica era excessiva, até mesmo pessoas dentro da Unidade do Porta-Voz”, afirmou. Ele foi boicotado pela unidade por anos, até que sua publicação pressionou e forçou o exército a admiti-lo na célula.
“Quando entrei na célula de correspondentes, percebi que isso não era o fim — há ‘castas’ dentro do grupo, [com] priorização clara de repórteres menos críticos”, continuou. “Correspondentes de televisão são favorecidos, especialmente os vistos como alinhados à narrativa das FDI. Dá para ver a hierarquia: por exemplo, durante briefings por Zoom, alguns repórteres proeminentes nem participam, mas ainda assim publicam a informação, o que significa que a receberam com antecedência.”
“O Porta-Voz das FDI opera usando uma abordagem de cenoura e chicote”, disse outro correspondente militar sênior, sob anonimato. “Se você os critica, é punido.”
Yaniv Kubovich, correspondente militar do Haaretz, esteve por trás de várias grandes reportagens durante a guerra. Falando ao The Hottest Place in Hell, disse que, quando buscava respostas do Porta-Voz das FDI, o objetivo principal da unidade era bloquear a publicação — não fornecer informações precisas.
“Eu os procurava com tudo o que tinha, mas eles estavam focados apenas em me fazer desistir da matéria e evitar uma resposta”, disse. “Após 7 de outubro, com todo o trauma que experimentou, as FDI estão fazendo tudo o que podem para suprimir reportagens que exponham falhas, questões éticas ou deficiências de comando, em vez de examinar o que realmente aconteceu. Nesse sentido, voltaram à mesma arrogância de antes: a crença de que ninguém pode criticá-las através da imprensa.”
Kubovich, membro de longa data da célula de correspondentes, descreveu-a principalmente como uma ferramenta de controle. “A relação entre o Porta-Voz das FDI e a célula de correspondentes é absurda. A dependência é absoluta”, disse. “Isso permite que eles decidam quando falamos e com quem.
“Estamos em guerra há tanto tempo, e encontramos o chefe do Estado-Maior talvez duas vezes. Desde que [o chefe do Estado-Maior Eyal] Zamir assumiu o cargo, não nos reunimos nem uma vez com o comandante do Comando Sul — apesar de ser a frente mais crítica. Ele não se encontra com repórteres críticos porque isso pode prejudicar o moral.”
Vazamentos seletivos e acesso exclusivo
Durante seu serviço, Roni ajudou a decidir se e como responder aos jornalistas. “Quando optávamos por não responder, muitas vezes era a relatórios muito problemáticos, mas também a jornalistas com quem preferíamos não nos envolver”, disse. Outra prática envolvia vazamentos seletivos — ou, como Roni colocou, garantir que “certos materiais fossem publicados por um veículo e não por outro”.
Esse foi o caso em dezembro de 2024, quando, por duas semanas, a Unidade do Porta-Voz das FDI se recusou a explicar como ativistas do Uri Tsafon — um grupo israelense que promove o assentamento do sul do Líbano — cruzaram para o território libanês sem impedimentos. Após inicialmente negar que qualquer civil tivesse atravessado a fronteira, a unidade mudou de posição e vazou a informação para Doron Kadosh, correspondente militar da Rádio do Exército israelense. Kadosh então promoveu o enquadramento do exército sobre o incidente como um “incidente grave que estava sendo investigado”, acrescentando que “várias operações foram realizadas para bloquear passagens na cerca”.
“Repórteres militares que não comem da mão do Porta-Voz das FDI passam fome”, disse Roni. “É preciso muito esforço para encontrar fontes fora do sistema, e isso nos dava muita vantagem.” Essa dinâmica vai além do acesso a briefings ou respostas oficiais. Como observou Roni, essas relações de “dar e receber” se traduzem em poder, prestígio e incentivos financeiros.
“No fim das contas, trabalhamos por audiência”, disse um jornalista, sob anonimato, ao The Hottest Place in Hell. “Quando algo acontece, a célula de correspondentes é informada primeiro — eles são os primeiros a publicar. Se você não faz parte desse grupo e não for suficientemente ágil como jornalista e publicar 10 minutos depois dos outros, você é irrelevante.”
Na prática, a Unidade do Porta-Voz utiliza a confiança pública depositada nela não apenas para gerenciar informações, mas para influenciar a competição comercial entre veículos de mídia. “A unidade dá uma certa história ao Canal 12 porque eles têm audiência, mas como também lhes deram histórias anteriores, criam interferência na concorrência”, observou o jornalista.
“Isso arrasta todo o sistema para um ciclo”, disse outro jornalista. “Tivemos debates internos sobre se valia a pena confrontar a unidade. Mas, no fim, os proprietários veem concorrentes conseguindo as matérias e querem o mesmo. Tudo se resume a controlar jornalistas e suprimir críticas.”
O Porta-Voz das FDI se recusou a comentar.
* Illy Pe’ery é repórter investigativo e editor associado da revista online israelense independente The Hottest Place in Hell. Reportagem publicada na +972 Magazine em 08/04/2026.
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