Mostra da artista plástica Lígia Borba reúne esculturas e desenhos inspirados em Gaza
Exposição ocorre até o dia 29 de maio na Galeria Ybakatu, em Curitiba
Série "Carneiros", representando a infraestrutura destruída em Gaza. (Foto: Henrique Assis)
Segundo uma avaliação divulgada em abril pela ONU, União Europeia e Banco Mundial, mais de 370 mil unidades habitacionais foram destruídas ou danificadas pelo genocídio cometido por “israel” em Gaza desde outubro de 2023. O relatório estima que cerca de 60% da população perdeu suas casas e que aproximadamente 1,9 milhão de pessoas foram deslocadas, muitas várias vezes.
Outra avaliação da ONU publicada em fevereiro afirmou que, entre outubro de 2023 e outubro de 2025, 92% das moradias de Gaza haviam sido destruídas ou danificadas, mais de 90% da população havia sido deslocada e mais de 86% do território estava sob ordens de evacuação ou incorporado a zonas militarizadas israelenses.
A agência de satélites da ONU, a UNOSAT, calculou em outubro de 2025 que cerca de 320.622 unidades habitacionais já tinham sofrido danos, com aumento contínuo da destruição principalmente na Cidade de Gaza e no norte do enclave.
A ONU estima que quase todas as escolas de Gaza foram destruídas ou danificadas. Até abril, aproximadamente 90% das instalações educacionais haviam sido atingidas pela guerra.
Prédios de Gaza destruídos pelos bombardeios israelenses. (Foto: AFP)
Além disso, mais de 50% dos hospitais de Gaza estão inoperantes ou parcialmente destruídos. O jornal francês Le Monde relatou em abril que apenas 16 dos 38 hospitais permaneciam parcialmente operacionais. Equipamentos essenciais, como aparelhos de ressonância magnética, teriam sido completamente destruídos.
A infraestrutura hídrica e sanitária também sofreu danos massivos devido ao genocídio. A ONU informou em janeiro que 70% da produção de água da Cidade de Gaza estava interrompida devido a danos e dificuldades de reparo, sistemas de esgoto, estações de bombeamento e redes elétricas foram amplamente destruídos e o acesso à água potável permanece extremamente precário em grande parte do território.
A destruição gerou uma quantidade gigantesca de entulho. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) calcula cerca de 61 milhões de toneladas de escombros em Gaza. Segundo o PNUD, a remoção total dos escombros pode levar até sete anos; os custos de reconstrução podem ultrapassar US$ 71 bilhões; a devastação física direta já foi estimada em US$ 35,2 bilhões, além de US$ 22,7 bilhões em perdas econômicas e sociais.
Equipes locais e da ONU vêm reutilizando concreto triturado dos prédios destruídos para reconstruir estradas e acessos a hospitais, cozinhas comunitárias e abrigos.
Foto: Divulgação
Quem entrar na Galeria Ybakatu, no Bairro Batel, próximo ao centro de Curitiba, até o dia 29 deste mês, enxergará a destruição de Gaza nas esculturas de Lígia Borba.
Na mostra “Nem tudo é ficção”, a artista plástica expõe obras recentes que representam prédios e construções deformados, como aqueles atingidos pelos pesados bombardeios de “israel”, fazendo o público que já viu imagens da destruição em Gaza lembrar do horror de destroços, fuligem, andares vazados sem janelas nos apartamentos e salas, estruturas desmoronando – enquanto seus habitantes e frequentadores já não estão mais lá, desapareceram.
Em uma conversa com o crítico Jhon Voese e o público na galeria, no final de abril, Lígia revelou a sua motivação e o impacto emocional ao produzir o seu trabalho.
“Quando eu comecei o trabalho com as estruturas geométricas, eu fui meio que tomada emocionalmente pelo que estava acontecendo em Gaza. Essa procura de limpeza de forma, de estruturas muito evidentes, estava naquele lugar bombardeado. Era o que me saltava aos olhos”, explicou. “As casas, os prédios que foram bombardeados e demolidos, permaneciam estruturalmente, só que não tinham mais o humano ali, não tinham mais o ser. Não tinham mais as paredes, não eram mais um lar, não eram mais a casa de ninguém.”
Lígia expõe uma série de esculturas e desenhos e, como diz, “os desenhos são esculturas desenhadas e as esculturas são desenhos que vêm e vão do espaço tridimensional”. Os desenhos torcidos e as esculturas contorcidas foram batizados por ela de “carneiros”.
“O termo carneira, no feminino, me veio de uma memória muito distante, de quando eu era pequena. Era uma palavra que a minha avó, Iracema, usava quando se referia às covas no cemitério”, declara a artista ao site da Fepal. “Procurei, então, no dicionário Houaiss, e achei dois verbetes. O primeiro, carneiro, e algumas derivações dele, do animal. E o segundo, com o sentido das covas, mas no masculino. Eu nomeei a série toda de esculturas e de desenhos com essa palavra tão singular, com sentidos que me parecem de um anacronismo revelador.”
Assim, a série, representando as ruínas de Gaza, alude à cova coletiva de mais de 70 mil palestinos – números admitidos por “israel” e subnotificados, que provavelmente chegariam a 150 mil, conforme os critérios de cálculo da revista científica The Lancet. Os trabalhos da série começaram a ser produzidos pouco após o início do genocídio, diz Lígia.
Apesar da tristeza causada pela máquina de extermínio sionista, expressa na destruição representada pela obra da artista, ela mantém a esperança de ver Gaza ser reconstruída ao observar a resiliência do povo palestino. “Imagino Gaza reconstruída quando vejo fotos do que foi antes da destruição, mas principalmente quando vejo alguns momentos de alegria, música tocada e cantada pelos sobreviventes, casamentos e nascimentos que continuam acontecendo”, afirma ela, que já sonhou algumas vezes que estava em Gaza, perdida, sem achar o caminho de casa, e que tem o desejo de conhecer a Palestina.
Lígia Borba nasceu em Brusque (SC) em 1952 e vive em Curitiba desde 1971. Dedicou-se ao ensino das artes nas universidades paranaenses de 1975 até 2005 e tem uma produção artística contínua, sobretudo com escultura e desenho, com exposições individuais e coletivas há mais de 50 anos. Seus trabalhos aparecem em coleções privadas e acervos públicos, como no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, o Museu Municipal de Arte (MuMA) de Curitiba e o Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia (MuBE), em São Paulo.
Serviço:
O quê? Mostra “Nem tudo é ficção”
Quem? Lígia Borba
Quando? De 11/04 a 29/05
Onde? Galeria Ybakatu (Av. Vicente Machado, 1056 – Batel, Curitiba/PR)
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