“Tudo mudou com o genocídio”: mulheres e meninas palestinas enfrentam abusos brutais em prisões israelenses
Mais de 700 foram presas desde o início do genocídio em Gaza, suportando condições brutais de fome, isolamento e humilhação
Soldados israelenses mantêm vigilância enquanto palestinos se reúnem no posto de controle de Qalandia, na cidade de Ramallah, na Cisjordânia ocupada, em 20 de fevereiro de 2026 (Jaafar Ashtiyeh/AFP)
Por Victoria Brittain*
Uma vez que você imagine meninas em idade escolar, estudantes universitárias, mães, tias e avós deitadas de bruços em pijamas de prisão — com as mãos amarradas atrás das costas, e soldados pairando sobre elas, espancando-as se se moverem sequer um pouco — você não consegue esquecer a imagem.
Quando você ouve uma prisioneira dizer que não tem “nada além do seu coração”, você imediatamente compreende como a prisão pode destruir vidas.
O Dia dos Prisioneiros Palestinos é marcado todos os anos em 17 de abril para destacar as contínuas violações de direitos humanos — e hoje, as condições estão piores do que nunca. Desde o início do genocídio em Gaza, fome, isolamento, humilhação, revistas íntimas, tortura e medo avassalador tornaram-se realidades constantes para mulheres palestinas em prisões israelenses.
Mais de 700 mulheres palestinas foram presas na Cisjordânia ocupada, em Jerusalém Oriental e em Gaza desde o início do genocídio, no final de 2023, segundo grupos de direitos humanos. Submetidas a invasões noturnas em suas casas ou detenções em postos de controle militares, a maioria sofreu abusos físicos e psicológicos tanto durante quanto após a prisão.
“Tudo é diferente das prisões dos anos 1990. Tudo mudou com o genocídio”, disse a advogada Sahar Francis, baseada em Ramallah e também ex-diretora do grupo de direitos dos prisioneiros Addameer, em um webinar recente intitulado Women, Prison Sumoud.
“Ver pessoas sem palavras, após cinco meses detidas vindas de Gaza, e um nível de abuso, fome e ataques físicos, foi muito, muito chocante”, afirmou. “Nós falhamos com os prisioneiros. Não fomos capazes de protegê-los.”
Cerca de 90 palestinos morreram sob custódia israelense desde outubro de 2023, segundo a Sociedade de Prisioneiros Palestinos. Entre eles estava Walid Khalid Abdullah Ahmed, um garoto de 17 anos.
“O sistema internacional simplesmente não está funcionando… a hipocrisia está em toda parte”, disse Francis. “Nós, advogados, somos a única janela para os detidos. As pessoas sentem que estão perdendo a esperança.”
Ferramentas de controle
Por décadas, o Addameer documentou e chamou atenção para violações em prisões israelenses, com seus relatórios servindo como referência-chave para organizações globais de direitos humanos. Esse trabalho fez com que se tornasse alvo recorrente do exército israelense, que invadiu suas instalações várias vezes desde 2002.
Em 2021, o governo israelense classificou o Addameer e outros cinco grupos palestinos de direitos humanos como organizações “terroristas”, medida que gerou fortes críticas internacionais. No ano passado, o Addameer foi alvo de sanções do Tesouro dos EUA com base em alegados vínculos com “terrorismo”.
Tudo isso faz parte de uma campanha israelense mais ampla de dominação violenta. Segundo a doutora Samah Saleh, socióloga da Universidade Nacional An-Najah, em Nablus, e professora visitante na UCLA, Israel há muito tempo utiliza a fome e a desumanização como ferramentas poderosas de controle.
Para mulheres submetidas à detenção israelense, disse Saleh no webinar, os problemas de saúde continuam mesmo após a libertação. As prisioneiras são privadas de banho e roupas limpas, privadas de sono e subalimentadas, frequentemente recebendo pouco mais que alguns pedaços de pão e algumas colheradas de fruta ou iogurte por dia, enquanto ácaros de sarna se infiltram em sua pele.
A pesquisadora Dalal Bajes, acadêmica visitante na UC Berkeley e especialista na experiência carcerária de mulheres palestinas, afirmou no webinar que a detenção “retira tudo”. Seu trabalho destaca o declínio dramático das condições desde o início do genocídio, em meio à normalização da “detenção prolongada incomunicável, negação de acesso legal [e] ameaças de estupro”.
Em um caso documentado por Bajes, a escritora Lama Khatir — que também esteve presa em 2018-19 — descreveu “um regime completamente diferente” durante sua prisão posterior após 7 de outubro de 2023.
“Já não vivíamos o tempo; apenas fixávamos o olhar no vazio”, disse Khatir em um relato publicado pelo Instituto de Mídia da Al Jazeera. Em seu resumo do caso, Bajes observou que a ausência de livros, papéis, notícias ou rotina “transformou o tempo em uma força opressiva”.
Vigilância digital
Segundo Bajes, entre 1948 e 1967, cerca de 100 mil palestinos foram presos por autoridades israelenses. O ritmo aumentou drasticamente nas décadas seguintes, com cerca de um milhão presos entre 1967 e 2021, incluindo mais de 16 mil mulheres.
Até o mês passado, 72 mulheres palestinas estavam detidas em prisões israelenses, principalmente na prisão de Damon, no norte, segundo um relatório do Addameer e outros grupos de direitos dos prisioneiros. A maioria foi presa na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém.
Dessas prisioneiras, três eram menores de idade e 32 eram mães, que juntas tinham 130 filhos, observou o relatório. Além disso, 17 mulheres estavam em detenção administrativa, sem acusação ou julgamento. Cinco prisioneiras cumpriam penas, a mais longa de 16 anos, enquanto muitas outras aguardavam julgamento.
O relatório destacou que 18 prisioneiras estavam doentes, incluindo três com câncer. Mais de uma dúzia das que aguardavam julgamento foram presas por “incitação”, acusação que inclui atividades online como republicar conteúdo ou compartilhar opiniões pessoais. O mundo digital tornou-se, assim, um espaço rigidamente policiado de vigilância e perseguição, com autoridades israelenses visando jornalistas, ativistas e defensores de direitos humanos.
Depoimentos do relatório revelam condições sombrias, com uma prisioneira descrevendo sua transferência para a prisão de Hasharon: “Uma soldada… me levou para uma pequena cela de isolamento suja, que não tinha nada além de um colchão no chão, sem cobertor ou travesseiro, e um banheiro muito pequeno. Fiquei lá sozinha por quatro dias sem ninguém falar comigo. Trouxeram comida fria e ruim, e durante esses quatro dias eu não comi.”
Algumas mulheres são presas para pressionar parentes homens. Uma delas contou aos pesquisadores que foi “interrogada continuamente por 18 dias” e depois levada para ver seu pai, que encontrou sentado em uma cadeira de interrogatório com as mãos amarradas atrás das costas.
“Quando entrei, eles retiraram a venda dos meus olhos, e minhas mãos estavam amarradas à frente. Meu pai começou a chorar muito quando me viu”, disse ela. “Corri em direção a ele e o abracei mesmo estando amarrada. Ele continuava me beijando e dizendo palavras de conforto… Ele parecia extremamente exausto.”
Com as visitas familiares negadas desde o início do genocídio, apenas raras visitas de advogados servem como ligação com o mundo exterior para essas prisioneiras.
Essa situação exige um clamor público urgente. O mundo não deve permitir a normalização dessa desumanização de mulheres, de meninas em idade escolar a avós, nas prisões de Israel.
* Victoria Brittain trabalhou por muitos anos no The Guardian e viveu e trabalhou em Washington, Saigon, Argel, Nairóbi, além de ter feito reportagens em diversos países da África, Ásia e Oriente Médio. É autora de vários livros sobre a África e coautora do livro de memórias de Guantánamo de Moazzam Begg, Enemy Combatant, autora e coautora de duas peças documentais sobre Guantánamo, e de Shadow Lives, sobre as mulheres esquecidas da guerra ao terror. Seu livro mais recente é Love and Resistance, sobre os filmes de Mai Masri. Reportagem publicada no Middle East Eye em 17/04/2026.
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