Nakba e Palestina: 78 anos de colonialismo
Ao completarmos 78 anos desde o marco inicial da Nakba — A Catástrofe — dando continuidade às reflexões que iniciei no ano passado em “77 anos da Nakba: A Catástrofe palestina em curso” — é urgente deslocarmos a análise acadêmica e política da compreensão do fenômeno como um evento histórico isolado, confinado ao biênio 1947-1949, para uma definição sociológica de estrutura permanente. Como bem formulou o antropólogo australiano Patrick Wolfe [1], o colonialismo de povoamento (settler colonialism) não é um evento, mas uma estrutura cuja lógica fundamental é a eliminação do nativo para a apropriação do território. Na Palestina, essa ‘lógica de eliminação’ não permanece confinada ao passado histórico; ela foi institucionalizada por meio de legislações, mecanismos de segregação espacial e estruturas de controle militar que culminaram, mais recentemente, no genocídio em curso na Faixa de Gaza, caracterizado pela destruição sistemática da população palestina e dos fundamentos materiais, culturais, educacionais e espirituais de sua existência coletiva.
A persistência da Nakba manifesta-se naquilo que Lorenzo Veracini [2], professor e historiador de renome internacional, descreve como a busca incessante do colonizador pela sua própria “naturalização” através da invisibilização do colonizado. Para o projeto sionista, a existência do povo palestino — seja na diáspora, nos campos de refugiados ou sob ocupação — constitui uma refutação viva da legitimidade do Estado de Israel como um projeto exclusivista. Portanto, a Nakba de 2026 é a continuação direta da Nakba de 1948, operando sob o mesmo imperativo: a substituição populacional. A historiografia do historiador israelense Ilan Pappé [3], um dos principais expoentes dos “Novos Historiadores”, corrobora esta tese ao demonstrar que o Plano Dalet, executado em 1948, estabeleceu o modus operandi de limpeza étnica que permanece no DNA das instituições militares e civis israelenses até os dias atuais.
Neste contexto, a resistência palestina não é meramente uma reação a políticas governamentais específicas, mas uma luta existencial contra uma estrutura que exige o seu desaparecimento. Rashid Khalidi [4], historiador e intelectual palestino-americano, em sua obra “A Guerra de Cem Anos contra a Palestina”, situa este processo como a última grande luta colonial da era moderna, onde uma potência colonial, apoiada por centros de poder globais, tenta suplantar uma população nativa que se recusa a ser apagada da história. A Nakba, portanto, deve ser lida como um processo cumulativo de despossessão que atinge seu ápice de violência tecnológica e retórica no presente século.
Gaza 2026: domicídio, escolasticídio e a engenharia da inabitabilidade
Em maio de 2026, a Faixa de Gaza apresenta um cenário que desafia as categorias convencionais de crise humanitária, exigindo termos mais precisos como “domicídio” e “escolasticídio”. De acordo com o Relatório de Situação Humanitária do OCHA [5] de 1º de maio de 2026, aproximadamente 85% da infraestrutura residencial de Gaza permanece em ruínas ou inabitável após as sucessivas ondas de bombardeios israelenses iniciadas em outubro de 2023 e prolongadas por incursões “cirúrgicas” ao longo de 2024 e 2025. O domicídio, conforme definido pelo Relator Especial da ONU, Balakrishnan Rajagopal [6], descreve a destruição sistemática do lar como um ataque à dignidade humana e à reprodutibilidade da vida nativa. Para Rajagopal, o lar não é apenas um abrigo físico, mas o repositório da memória familiar e o núcleo da organização social; sua destruição em massa visa desenraizar a população de forma definitiva, impedindo qualquer possibilidade de retorno ou estabilidade.
Paralelamente ao domicídio, o conceito de “escolasticídio” — termo cunhado pela professora Karma Nabulsi [7] — tornou-se central para compreender a estratégia colonial em Gaza. Até abril de 2026, relatórios da UNRWA e do Ministério da Educação confirmaram que todas as universidades da Faixa de Gaza foram atingidas, muitas delas totalmente demolidas. O escolasticídio refere-se à erradicação sistemática do sistema educacional e intelectual de uma nação. Ao assassinar acadêmicos, destruir bibliotecas, arquivos históricos e centros de pesquisa, o projeto colonial busca amputar a capacidade de uma sociedade de pensar a si mesma, de produzir conhecimento e de transmitir sua história para as gerações futuras. É um ataque direto ao capital intelectual e à consciência nacional, visando transformar o povo palestino em uma massa desprovida de liderança intelectual e de referências culturais sólidas.
A engenharia da inabitabilidade em Gaza manifesta-se também através do bloqueio total de recursos vitais, transformando a fome e a sede em armas de guerra. A destruição de usinas de dessalinização, redes elétricas e terras agrícolas não é um efeito colateral dos combates, mas uma tática deliberada para forçar o deslocamento populacional. Quando o território é tornado tecnicamente incapaz de sustentar a vida humana, a expulsão “voluntária” torna-se a única alternativa de sobrevivência para os sobreviventes. Assim, o que assistimos em 2026 é a atualização tecnológica dos métodos de 1948: se na primeira Nakba o terror foi o motor do êxodo, na Nakba contemporânea, a destruição total da base material da existência cumpre a mesma função de limpeza étnica.
Sionismo como colonialismo de povoamento: a lógica da eliminação
Para compreender a persistência da Nakba, é necessário situar o sionismo dentro da moldura teórica do colonialismo de povoamento. O intelectual Edward Said [8] observou precocemente que o sionismo foi percebido pelos palestinos não como um movimento de libertação nacional dos judeus, mas como uma invasão colonial clássica que buscava a substituição da população nativa. Diferente do colonialismo de exploração (como o britânico na Índia), onde a metrópole busca extrair recursos e mão de obra do nativo, o colonialismo de povoamento busca a terra e a soberania total, vendo o nativo como um obstáculo a ser removido ou contido.
Conforme analisado por Lorenzo Veracini, as sociedades de povoamento operam sob uma fantasia de “indigenização”, onde o colono busca tornar-se o novo nativo através do apagamento da história pré-existente. Na Palestina, isso se traduz na hebraização (a troca de nomes árabes por nomes hebraicos) de nomes de vilas destruídas, na plantação de florestas sobre ruínas de aldeias palestinas e na construção de uma narrativa histórica que salta milênios para justificar a posse contemporânea, ignorando a continuidade da presença palestina no território. A estrutura colonial, portanto, necessita da negação constante da identidade palestina para validar sua própria existência.
A “lógica de eliminação” de Wolfe manifesta-se aqui na sua forma mais pura: o Estado colonial não busca integrar o nativo, mas segregá-lo em enclaves cada vez menores, desprovidos de continuidade territorial ou soberania política. O sionismo, ao se estruturar como um projeto de exclusividade étnico-religiosa sobre uma terra já habitada, condena-se a uma guerra perpétua contra a presença física e simbólica do povo palestino. Assim, a Nakba não é um erro de percurso, mas a condição necessária para a realização do projeto de povoamento. Portanto, o estado de guerra permanente não é uma falha do sistema sionista, mas uma necessidade funcional para manter a hegemonia de uma população transplantada sobre uma população nativa resiliente. A resistência palestina, neste sentido, é a afirmação da indignidade contra a tentativa de substituição histórica.
A consolidação desta lógica colonial em 2026 é evidente na expansão dos assentamentos judaicos na Cisjordânia, que agora abrigam mais de 800.000 colonos judeus. Isso é a prova material de que o objetivo final permanece a soberania judaica exclusiva sobre todo o território da Palestina entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo.
O Regime de Apartheid na Cisjordânia e Jerusalém Oriental
A realidade em 2026 na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental consolidou o que organizações como Anistia Internacional [9] e Human Rights Watch [10] já haviam classificado como o crime de Apartheid. O território palestino foi fragmentado em uma constelação fragmentada de enclaves isolados (Bantustões), cercados por muros, postos de controle militares e estradas exclusivas para colonos. Este sistema de dominação institucionalizada é desenhado para garantir a supremacia de um grupo racial sobre outro, através de dois sistemas legais distintos operando no mesmo espaço geográfico.
Em Jerusalém Oriental, a política de “equilíbrio demográfico” atingiu níveis críticos. Através da revogação de direitos de residência, demolições de casas sob pretextos administrativos e o isolamento da cidade do seu entorno palestino, Israel busca transformar a Cidade Santa em uma metrópole de maioria judaica absoluta. O relatório da OCHA de abril de 2026 destaca que o custo de vida e a pressão tributária sobre os palestinos de Jerusalém são ferramentas deliberadas de “transferência silenciosa”, forçando os jovens a buscar moradia além do Muro de Separação, perdendo assim seu direito de viver na cidade de seus antepassados.
Na Cisjordânia, a violência dos colonos, agora plenamente integrada e protegida pelas Forças de Defesa de Israel (IDF), serve como o braço paramilitar da expansão estatal. O confisco de fontes de água e a destruição de oliveiras centenárias não são atos isolados de vandalismo, mas uma estratégia econômica para inviabilizar a agricultura palestina e forçar a dependência do mercado israelense. O Apartheid palestino é, portanto, uma matriz de controle que combina vigilância biométrica de alta tecnologia com métodos arcaicos de despossessão de terras, criando uma prisão a céu aberto onde a liberdade de movimento é um privilégio racial, não um direito humano.
Memória e Jornalismo como Resistência: O Poder do Sumud
Diante da tentativa de apagamento, a preservação da memória e a prática do jornalismo tornaram-se formas vitais de Sumud (firmeza inabalável). Edward Said enfatizava a importância da “permissão para narrar” — o direito do colonizado de contar sua própria história sem a mediação do olhar colonial. Em 2026, a batalha pela narrativa é travada em tempo real nas redes sociais e por jornalistas palestinos que, apesar de serem alvos deliberados, continuam a documentar a realidade da ocupação. O sacrifício de profissionais como Shireen Abu Akleh e as dezenas de jornalistas mortos em Gaza entre 2023 e 2026 simboliza a periculosidade da verdade para o regime de ocupação.
A memória da Nakba é transmitida através das gerações não como um trauma paralisante, mas como um projeto político de retorno. As chaves das casas perdidas em 1948, guardadas por famílias em campos de refugiados no Líbano, Síria, Jordânia e na própria Palestina, são símbolos potentes dessa recusa ao esquecimento. O jornalismo palestino contemporâneo, ao conectar o sofrimento atual em Jenin com a história de Haifa ou Jaffa, reconstrói a unidade nacional que o colonialismo tentou fragmentar. A resistência cultural, através da literatura, do cinema e das artes visuais, atua como um contra-arquivo que desafia a hegemonia da propaganda estatal israelense.
O Sumud não é apenas resistência passiva; é a manutenção ativa da vida social, cultural e política sob condições de opressão extrema. É a abertura de escolas improvisadas em tendas de refugiados, a reconstrução de clínicas destruídas e a persistência em cultivar a terra sob a mira de fuzis. Esta resiliência é o que impede a “conclusão” da Nakba. Enquanto houver um palestino que se identifique como tal e que reivindique seu vínculo com a terra, o projeto de eliminação do colonialismo de povoamento terá falhado em seu propósito existencial.
Conclusão: O Direito ao Retorno e a Solução de um Estado Democrático
Aos 78 anos da Nakba, torna-se evidente que as soluções baseadas na partilha territorial (a “Solução de Dois Estados”) foram tornadas fisicamente impossíveis pela expansão colonial israelense. A realidade atual é a de um único Estado de facto entre o rio e o mar, mas um Estado que opera sob um regime de Apartheid. O caminho para uma paz justa e duradoura exige, portanto, a transição para um único Estado democrático e laico, onde todos os seus habitantes gozem de plenos direitos civis, políticos e humanos, independentemente de sua origem étnica ou religiosa.
O pilar central desta solução é o reconhecimento e a implementação do Direito ao Retorno dos refugiados palestinos, conforme estabelecido na Resolução 194 [10] da Assembleia Geral da ONU. Sem a reparação histórica da injustiça de 1948, qualquer acordo será apenas uma trégua temporária. A descolonização da Palestina implica não apenas a retirada militar, mas o desmantelamento das estruturas jurídicas e ideológicas de supremacia que sustentam o sionismo. Como argumenta a intelectualidade palestina contemporânea, a libertação da Palestina é também uma libertação para os judeus israelenses do papel de opressores coloniais, permitindo a construção de uma sociedade baseada na igualdade ampla, geral e irrestrita.
A luta ininterrupta pela libertação, que chega a 2026 com uma resiliência que assombra o mundo, demonstra que a Nakba não conseguiu quebrar a vontade nacional palestina. A solidariedade internacional, o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) e as recentes decisões de tribunais internacionais sinalizam que o custo da manutenção do Apartheid está se tornando insustentável. A libertação da Palestina é a grande causa moral do nosso tempo, e sua realização é a única garantia de que a Nakba, finalmente, deixará de ser uma estrutura presente para se tornar um capítulo superado da história humana.
Referências
1. WOLFE, Patrick. Settler colonialism and the elimination of the native. Journal of Genocide Research, 2006.
https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/14623520601056240
2. VERACINI, Lorenzo. Settler Colonialism: A Theoretical Overview. Palgrave Macmillan, 2010.
https://www.are.na/block/26145560
- 3. PAPPÉ, Ilan. The Ethnic Cleansing of Palestine. Oneworld Publications, 2006.
https://yplus.ps/wp-content/uploads/2021/01/Pappe-Ilan-The-Ethnic-Cleansing-of-Palestine.pdf
4. KHALIDI, Rashid. The Hundred Years War on Palestine: A History of Settler Colonialism and Resistance, 1917–2017. Metropolitan Books, 2020.
https://www.kalamullah.com/Books/The_Hundred_Years_War_on_Palestine_-_Rashid_Khalidi.pdf
- 5. OCHA (United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs). Humanitarian Situation Report – Occupied Palestinian Territory, 1 May 2026.
https://www.un.org/unispal/document/ocha-humanitarian-situation-report-1-may-2026/
6. RAJAGOPAL, Balakrishnan. El derecho a una vivienda adecuada durante os conflitos violentos: Nota del Secretario General. Asamblea General de las Naciones Unidas, 77º período de sesiones, Documento A/77/190, 19 de julio de 2022.
https://docs.un.org/es/A/77/190
7. NABULSI, Karma. International actions against SCHOLASTICIDE, 2024. https://static1.squarespace.com/static/68f9b9a36157f81a30aaf517/t/6901dd0240c00f1ad6c7db22/1761729794654/SAWP+Toolkit.pdf
8. SAID, Edward. The Question of Palestine. Vintage Books, 1979.
https://yplus.ps/wp-content/uploads/2021/01/Said-Edward-The-Question-of-Palestine.pdf
9. AMNESTY INTERNATIONAL. Israel’s Apartheid against Palestinians: A Look into Decades of Oppression and Domination. 2022.
https://www.amnesty.org/en/latest/campaigns/2022/02/israels-apartheid-against-palestinians/
10. HUMAN RIGHTS WATCH. A Threshold Crossed: Israeli Authorities and the Crimes of Apartheid and Persecution. 2021.
11. UNITED NATIONS. General Assembly Resolution 194 (III). 1948.
https://www.un.org/unispal/document/auto-insert-177019/