The Lancet publica chamado ao boicote contra Associação Médica de “israel” por cumplicidade no genocídio
"Enquanto os habitantes de Gaza eram submetidos à fome e privados de acesso à água e a suprimentos médicos, a IMA permaneceu em silêncio”
Homens feridos durante a detenção israelense são fotografados após sua libertação no Hospital al-Najjar, em Rafah, no sul da Faixa de Gaza, em 24 de dezembro de 2023 (AFP/Said Khatib).
Organizações de saúde do mundo todo estão convocando um boicote à Associação Médica de “israel” (IMA) devido às sucessivas violações da ética médica e do direito internacional humanitário no genocídio em Gaza.
O Movimento pela Saúde dos Povos (PHM), o Artsen voor Gaza (Médicos por Gaza) e o Conselho Consultivo de Saúde da Voz Judaica pela Paz defendem que a IMA seja suspensa da Associação Médica Mundial (WMA) por sua incapacidade de se manifestar contra o genocídio dos palestinos, a destruição da infraestrutura de saúde e a tortura e o assassinato de profissionais de saúde em Gaza.
A revista The Lancet, a mais prestigiada publicação científica da área, repercutiu a notícia no último final de semana, amplificando a denúncia e o chamado.
Leslie London, professor emérito de Saúde Pública da Universidade da Cidade do Cabo e membro do PHM África do Sul, declarou à The Lancet que a IMA “tem sido cúmplice do tratamento indescritível imposto aos palestinos durante esta guerra”.
Ela “nunca reconheceu as evidências do ataque deliberado a instalações de saúde e profissionais de saúde em Gaza, nem as condições cruéis, desumanas e degradantes sob as quais os detidos palestinos são mantidos em prisões e centros de detenção israelenses”, continuou. “Enquanto os habitantes de Gaza eram submetidos à fome e privados de acesso à água e a suprimentos médicos, a IMA permaneceu em silêncio”.
Apenas quando a Associação Médica Britânica suspendeu seus vínculos com a IMA devido à crise em Gaza, em junho de 2025, a IMA “fez alguns apelos muito tímidos para que suprimentos médicos fossem autorizados a entrar”, afirma London. Juliette Mattijsen, copresidente do PHM Europa e médica nos Países Baixos, afirma que a IMA “não está cumprindo seu juramento médico; ou seja, defender os profissionais da saúde e os colegas que estão sendo assassinados e detidos”.
Confirmando seu alinhamento total ao regime genocida israelense, a IMA alegou à The Lancet que “a petição ignora qualquer papel do Hamas na destruição do sistema de saúde de Gaza, como sua estratégia deliberada de se esconder sob e dentro de hospitais e de utilizar hospitais como centros de comando militar e depósitos de munição”.
A IMA acrescenta que ela e “seus membros deixaram claro em numerosas ocasiões que defendem a ética médica universal”.
No entanto, a The Lancet não identificou quaisquer declarações nas quais a IMA tenha condenado publicamente os ataques israelenses ao sistema de saúde de Gaza, criticado a conduta de “israel” na ofensiva militar, pedido um cessar-fogo ou respondido aos relatórios da ONU sobre genocídio contra os palestinos.
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A campanha do PHM pretende que a suspensão da IMA seja incluída na pauta da Assembleia Geral da WMA em outubro. Sua petição conta com mais de 1.150 signatários entre profissionais e organizações da área da saúde. A WMA, até o momento, tem se oposto à exclusão da IMA, elogiando-a como “uma firme defensora da ética e das políticas da WMA”.
Derek Summerfield, professor clínico sênior honorário do King’s College London, que assinou a petição do PHM, afirmou que a IMA “violou todas as regras da WMA existentes”. Em outubro de 2025, a Associação Médica Sul-Africana suspendeu seus vínculos com a IMA e pediu a suspensão da entidade da WMA devido à “conduta da IMA no contexto da ética médica internacional e das obrigações humanitárias” na crise de Gaza.
Médicos e torturadores
Durante o genocídio, muitos palestinos que foram sequestrados em Gaza e confinados nas masmorras israelenses denunciaram a participação de médicos nas torturas e maus-tratos contra os presos.
O jovem Adel Sobeih, de 21 anos, foi detido em março de 2024 enquanto estava em um leito hospitalar, tratando-se após ser uma das vítimas do Massacre da Farinha realizado pelas forças israelenses em fevereiro daquele ano contra palestinos famintos que procuravam comida. Após invasão dos soldados ao Hospital al-Shifa, ele foi levado para a prisão de Sde Teiman, onde foi torturado.
Na clínica de Sde Teiman, um “médico me deu um tapa e murmurou algo em hebraico”, disse ao portal The Electronic Intifada. O ferimento de Adel foi tratado, e disseram que ele seria levado ao hospital. “Quando acordei no hospital, um médico me disse que amputariam minha perna. Assinei um formulário sob pressão concordando com a cirurgia e renunciando ao direito a transfusão de sangue”, afirmou.
Após a operação — que resultou na amputação da perna acima da coxa — zombaram dele. “Disseram: ‘Levamos sua perna’ e riram. No mesmo dia, fui transferido de volta para Sde Teiman.”
“A negligência era intencional — assim como a política de fome. Isso afetou gravemente nossa saúde física. Perdi 20 quilos em seis meses”, denunciou outra prisioneira, a jornalista Asmaa Harish, que ficou seis meses sob confinamento.
“Quando sentíamos dor, se recusavam a nos levar à clínica”, disse Asmaa. “Só nos davam paracetamol. Em seis meses, consegui ver um médico apenas uma vez. Éramos 97 detidas, entre 17 e 70 anos”, completou.
Ainda segundo ela, “havia grávidas entre nós, mas não recebiam nenhum cuidado especial, nem mesmo alimentação adequada. Uma delas desenvolveu diabetes gestacional e não recebeu tratamento algum.”
Consultas médicas exigiam ordem judicial e podiam demorar semanas. Mesmo quando aprovadas, a ida à clínica ocorria com os olhos vendados e algemadas. Os médicos só se comunicavam em hebraico e realizavam os exames na presença de guardas.
Mas não é de hoje que os médicos israelenses atuam em total cumplicidade com os carcereiros e torturadores. Osama Abu al-Asal foi detido em 2003 e libertado apenas em 2025. “Entrei saudável e saí com doenças crônicas”, disse ao The Electronic Intifada.
Apenas três anos após ser preso, sua saúde começou a se deteriorar devido às condições. “Comecei a sentir dores e desconfortos inexplicáveis”, contou. “Era difícil conseguir ver um médico. E, quando finalmente conseguia, só me davam um comprimido de Acamol, sem nenhum exame adequado.”
Em 2017, Osama teve fortes dores no peito e foi transferido para o Centro Médico Soroka. Lá foi diagnosticado com hipertensão crônica e, mais tarde, passou por cirurgia cardíaca. Ele foi privado de medicamentos para o coração ou qualquer tratamento para a hipertensão. Um ano depois, foi diagnosticado com diabetes. O médico informou que ele provavelmente já tinha a doença há algum tempo — algo que passou despercebido pela falta de exames regulares.
“Comecei a precisar de injeções de insulina, mas a administração da prisão me dava apenas uma dose por dia, em vez das três necessárias”, contou. “Eles não querem que você melhore. Só não querem que você morra.”
Após 7 de outubro, a situação piorou drasticamente.
“Todos os medicamentos foram retirados, até mesmo dos pacientes crônicos. Exames médicos foram interrompidos. Fomos deliberadamente deixados com fome. Não podíamos tomar banho e a água foi cortada. Nossa higiene piorou, e muitos presos desenvolveram doenças de pele, fraqueza e tontura.”
Osama perdeu 22 quilos após outubro de 2023 e contraiu sarna.
Algumas das testemunhas da cumplicidade dos médicos israelenses são os próprios médicos palestinos, que também foram encarcerados nos campos de concentração.
O médico palestino Saleh Eleiwa, detido em novembro de 2023 e libertado em abril de 2024, afirmou ao The Guardian: “éramos submetidos a espancamentos diários, negavam-nos acesso a tratamento médico e medicamentos necessários. Até mesmo detentos com doenças crônicas que eram levados para ver um médico frequentemente eram espancados pelos próprios médicos.”
Outro médico, o Dr. Ahmad Mhanna, que foi torturado na prisão de Naqab, denunciou à mesma reportagem que “os cuidados médicos eram inexistentes”. “Se eu tivesse febre à noite, eles se recusavam a me dar um analgésico”, disse.
O cirurgião Issam Abu Ajwa, que ficou oito meses confinado, afirmou: “pegamos sarna porque não nos lavávamos ou trocávamos de roupas há seis meses. O corpo parecia estar queimando, mas eles não nos davam tratamento.” O também cirurgião Khaled Serr, alegou ter sofrido “fraturas ósseas no lado direito [do corpo], o que me afetou muito durante os primeiros três ou quatro meses de detenção”. “Nunca recebi nenhum cuidado médico”, completou.
Por sua vez, o pediatra Said Maarouf foi sequestrado em dezembro de 2023 e libertado em fevereiro de 2024. “Desde o início, fomos torturados. Por 45 dias, fui submetido a grande opressão e passei fome no campo de detenção de Sde Teiman. Nesse ponto, eu estava exausto e doente. Eles não nos deram nenhum tratamento médico. Perdi 25 quilos. Eu não conseguia ficar em pé, comer ou me mover”, declarou ao Guardian.
O ortopedista Bassam Miqdad passou sete meses em prisões israelenses. “Havia enfermeiras e médicos israelenses lá, mas eles nem olhavam para você”, relatou. “Vi pessoas com membros fraturados, e os guardas as puxavam. Eles perguntavam: ‘Onde dói?’ e então batiam naquela lesão.”
Praticamente todos os prisioneiros palestinos que conseguem contato com o mundo exterior denunciam a falta de cuidados médicos, ou mesmo a participação deliberada de médicos israelenses em sessões de tortura. Diversas organizações humanitárias também ecoaram essas denúncias, destacando as sistemáticas violações ao direito internacional e à ética médica.
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