Advogado de Vorcaro atua como lobista sionista e integra entidade que pagou “excursão genocida” de André Mendonça a “israel”
O advogado criminalista Daniel Bialski parece ser uma figura bastante ocupada. Em suas redes sociais, Bialski se apresenta como “Judeu, brasileiro, advogado e corintiano”. Em uma breve pesquisa no Google, o primeiro resultado que aparece é a seguinte reportagem do G1, de 04 de agosto de 2026: Daniel Vorcaro contrata Daniel Bialski para tentar delação. A reportagem nos conta que Bialski, abre aspas, “assume a defesa do ex-banqueiro com a missão de restabelecer as conversas para um eventual acordo de colaboração premiada com as autoridades” e relembra o leitor que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça é o relator do caso.
Faz sentido que Daniel Vorcaro aposte suas fichas na contratação de Daniel Bialski para negociar uma delação premiada. O prestigiado criminalista já advogou para a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, para ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro, para o prefeito de São Paulo Ricardo Nunes, para a ex-deputada federal Carla Zambelli, para os ex-ministros da gestão Bolsonaro Onyx Lorenzoni e Milton Ribeiro, e até para o técnico de futebol Cuca no caso de estupro de uma menina de 13 anos na Suíça nos anos 1980.
Em uma entrevista ao Estúdio i, da Globo News, em 11 de agosto, Bialski afirmou que Vorcaro queria “falar e colaborar” e reportagens ao longo de agosto descrevem as tentativas do criminalista de agendar uma reunião com André Mendonça com “objetivo de tentar reabrir as tratativas [de delação premiada] que foram fechadas na PF e na PGR”. No dia 27 de agosto, o ex-banqueiro do Master prestou depoimento ao gabinete de Mendonça sem a presença da Polícia Federal, passando a atacar integrantes do governo Lula, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, buscando atrair Mendonça para negociar uma delação premiada. A mudança de postura é atribuída à entrada de Daniel Bialski na defesa de Vorcaro e o que se sucede é a deflagração de uma das maiores crises da história do STF quando Mendonça retira o sigilo de relatório da Polícia Federal (PF) sugerindo conversas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro.
Muito se especula sobre possíveis motivações do “terrivelmente evangélico” Mendonça na série de decisões que tomou desde que decidiu incendiar a República brasileira às vésperas das eleições. De uma possível fidelidade ao bolsonarismo que o levou à corte suprema do país, passando por objetivos messiânicos e projeto de poder, a uma eventual manipulação das eleições, possivelmente como parte de uma agenda de interferência estrangeira no Brasil, mas seria leviano deste autor acusar um ministro do STF de coisas tão graves. Vamos nos ater, portanto, ao que é público.
Um ministro “terrivelmente sionista”
O “terrivelmente evangélico” André Mendonça parece ser também “terrivelmente sionista” e foi o único ministro do STF a participar da “excursão genocida” para “israel” para magistrados brasileiros com tudo pago pela CONIB, a Confederação Israelita do Brasil, e a agência de lobby sionista estrangeira Stand With Us em 23 de janeiro de 2024. A excursão foi classificada por juristas brasileiros como “grave violação dos deveres funcionais” cuja finalidade seria “garantir que a magistratura se curve aos interesses do Estado colonial de Israel, que vem perpetrando crimes internacionais na Palestina” em pedido de afastamento dirigido ao Conselho Nacional de Justiça dos membros do poder judiciário, como Mendonça, que aceitaram a viagem com tudo pago pelo lobby sionista.
Mendonça, que aparentemente avaliou não haver conflito de interesse em aceitar uma viagem com tudo pago pela CONIB enquanto julgava ação de uma federada da entidade, voltou “cheio de opiniões” sobre o genocídio em Gaza e sobre a posição do governo brasileiro diante do extermínio de palestinos promovido por “israel” e EUA. Em um culto religioso na Igreja Presbiteriana de Pinheiro em 18 de fevereiro de 2024, Mendonça narrou sua experiência em “israel” e criticou a posição do Brasil de apoiar a petição da África do Sul na Corte Internacional de Justiça acusando “israel” de genocídio e, no que pode ser entendido como uma indireta a Lula, afirmou que “o erro maior é apoiar um grupo terrorista que mata crianças, jovens e idosos gratuitamente. Eu e você, como cristãos, somos chamados a tomar posição em tudo na vida.”
A CONIB se apresenta como entidade de caráter representativo da comunidade judaica no Brasil, mas na prática atua como agência de lobby sionista no país, patrocinando viagens de magistrados, como Mendonça, políticos e jornalistas para “israel”, influenciando o debate público através da imprensa, atacando as ações do governo e da diplomacia brasileira diante do genocídio e fazendo lobby para aprovação de leis para perseguir críticos de “israel” no Brasil. Seu presidente, Claudio Lottenberg, atualmente licenciado por ter sido indicado por Flávio Bolsonaro como ministro da Saúde em um eventual governo, liderou nos últimos três anos uma cruzada contra Lula, tentando intimidar e constranger o presidente brasileiro por seu posicionamento contra o genocídio cometido por “israel” em Gaza. Atualmente, a CONIB é presidida interinamente pelo advogado Ary Bergher, mais conhecido pelo episódio em que teria agredido uma senhora judia de 88 anos que protestava contra Jair Bolsonaro na porta do Clube Hebraica no Rio de Janeiro em 2017 com os termos: “SUA LADRA, FILHA DA PUTA, VOU TE MATAR!”. Na ocasião, Bolsonaro afirmou em palestra no Clube Hebraica que foi a uma comunidade quilombola e que “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada, eu acho que nem para procriador servem mais”.
E o que Daniel Bialski, o advogado de Vorcaro, tem a ver com tudo isso? Bem, Bialski é dirigente e advogado da CONIB.
Advogado, lobista e cabo eleitoral
No site do escritório de Bialski, ele afirma ser “atualmente assessor da Presidência, Advogado e foi de 2021-2023 Vice Presidente da Confederação Israelita do Brasil – CONIB”. Ainda na própria biografia disponível no site, Bialski diz que “Já realizou diversas viagens à Israel, visando mostrar a realidade do País para expoentes da comunidade Brasileira; E, depois do perverso ataque do dia 7 de outubro de 2023 participou de missões com pessoas do Poder Judiciário, Executivo e Legislativo, bem como jornalistas e influencers, todos do Brasil, para que pudessem sentir e ver com os próprios olhos os horrorores do terrorismo e os desafios da sociedade israelense; Essas viagens, 6 por enquanto, além de especialmente emocionantes fizeram com que estas pessoas que ali estiveram retornassem ao Brasil e passassem a exercer a defesa intransigente de nós, judeus e sionistas, inclusive nos defendendo e criando leis, estaduais e federais, de combate ao terrorismo, antissemitismo e racismo…”.
Apesar de não constar em registros públicos consultados a participação de Bialski na delegação da CONIB que pagou a viagem de Mendonça e outros membros do Poder Judiciário a “israel”, Bialski se gaba de ter “participado de missões com pessoas do Poder Judiciário” e publicou em suas redes sociais fotos em “excursão genocida” com jornalistas brasileiros em data próxima à viagem de Mendonça. Em suas redes sociais é possível também encontrar publicações com desinformação sobre o genocídio em Gaza, desumanização de palestinos, celebração de campanhas intimidatórias contra críticos de “israel” no Brasil, ataques a Lula por denunciar o genocídio e apoio a políticos ligados ao bolsonarismo, como este vídeo em que pede votos ao seu cliente e então candidato à Prefeitura de São Paulo, Ricardo Nunes.
Bialski também aparece em fotos de ações de lobby promovidas pela CONIB, a exemplo deste registro com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na ocasião da adoção da definição de “antissemitismo” de organização sionista estrangeira, cuja utilização em projetos de lei foi classificada pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos como “inconstitucional”, “com flagrantes restrições ao direito fundamental da liberdade de expressão” e que “introduz conceitos distorcidos de antissemitismo para perseguir e condenar quem se manifesta contrário às políticas do Estado de Israel”. Em 2026, o governo Tarcísio e Secretaria da Educação do Estado de São Paulo passaram a orientar adoção de material de ONG pró-Israel nas escolas paulistas.
O mesmo Tarcísio, por sinal, que foi visitar Netanyahu em pleno genocídio e é figurinha carimbada nos eventos da CONIB. Aliás, não foi Tarcísio, junto com Jair Bolsonaro, que recebeu doação de campanha milionária em 2022 de Fabiano Zettel, cunhado e braço direito de Vorcaro, e que, de acordo com o próprio ex-controlador do Master em proposta de delação premiada, essas doações seriam propina negociada com Kassab?
A guerra híbrida contra o Brasil?
As conexões entre os personagens citados aqui vão muito além do que este humilde artigo é capaz de documentar, a exemplo do fato de que o presidente licenciado da CONIB e virtual ministro da Saúde de Flávio Bolsonaro, Cláudio Lottenberg, acumula também a presidência do conselho da Biomm, a farmacêutica que tinha como maior acionista o fundo Cartago de investimento, de Daniel Vorcaro, que chegou a ter mais de 25% de participação na farmacêutica. O Banco Master também liberou empréstimos que totalizaram R$ 336 milhões a sócios e conselheiros da Biomm. Também mereceria mais tempo e investigação a curiosa relação entre Bialski e seus clientes Ricardo Nunes e Claudio Castro. Assim como Tarcísio, tanto Castro quanto Nunes adotaram, por decreto, a mesma definição de “antissemitismo” de organização sionista estrangeira com articulação lobista da CONIB nas esferas municipal e estadual. No caso do Rio de Janeiro, o próprio site da CONIB atribui essa articulação a Daniel Bialski.
As (muitas e curiosas) conexões entre membros da CONIB, articulação de lobby sionista no Brasil, Mendonça, bolsonarismo e “israel” não são suficientes por si só para estabelecer uma relação causal ou de coordenação entre todos esses atores, tampouco nos permitem ignorar que o sionismo opera transversalmente em todas as pontas dos espectros político-ideológicos e espaços de poder, porém, demonstram a existência de relações políticas, financeiras e institucionais que justificam escrutínio público, sobretudo quando envolvem autoridades de Estado, financiamento privado de viagens, articulação legislativa e a crise jurídico-política no país. Este artigo, portanto, apenas oferece ao leitor uma série de informações públicas e documentadas sobre personagens envolvidos nos desdobramentos recentes do escândalo do Banco Master, da crise no STF e na atuação do lobby sionista no Brasil.
Guerras híbridas não são travadas à luz dos olhos do debate público, mas sim nos corredores do poder através de redes transnacionais de influência, lobby político, think tanks, redes político-religiosas, patrocínio de viagens de entes públicos e formadores de opinião, explorando fraturas institucionais, descredibilizando instituições, impulsionando narrativas cruzadas nas redes sociais e imprensa, e manipulando a opinião pública para reorganizar — ou sequestrar — a percepção política de parcelas do eleitorado. Apesar de não ser um tema muito recorrente na imprensa comercial — a mesma que higieniza e atua para fabricar consentimento para o extermínio de palestinos por “israel” e EUA em Gaza —, a existência, articulação e modus operandi de redes transnacionais de influência, bem como a circulação de atores político-jurídicos brasileiros entre elas, deveria ser objeto de maior escrutínio público a fim de compreender o que pode estar em curso no Brasil.
Os EUA interferiram em eleições recentes na América Latina e afirmaram que seu “domínio” sobre o continente latino-americano “nunca mais será questionado”. Enquanto isso, recai sobre Flávio Bolsonaro a acusação/suspeita de que sua campanha poderia ter recebido financiamento estrangeiro, um crime eleitoral, oriundo da Rockbridge Network, uma rede de influência de bilionários estadunidenses financiadores da extrema-direita cofundada pelo vice-presidente dos EUA, JD Vance. O governo Trump não esconde sua preferência por um novo governo bolsonarista no Brasil alinhado aos interesses da extrema-direita global. Mais do que isso, o Brasil é a principal peça no projeto de hegemonia dos EUA sobre a América Latina e no estabelecimento de seu Lebensraum no que chama de “Hemisfério ocidental”.
“israel”, por sua vez, é ainda mais explícito em seu apoio a Flávio Bolsonaro, com direito à participação de Netanyahu na convenção do PL que lançou a candidatura do “irmãozão do Vorcaro” à presidência da República. Flávio Bolsonaro não esconde sua admiração por Trump e Netanyahu e já prometeu subordinar o Brasil aos interesses dos genocidas israelenses. Na realidade, a relação entre sionismo e bolsonarismo não é meramente casual ou apenas ideológica e episódios de interferência israelense na política e no judiciário brasileiros não são “especulação”, mas sim uma realidade material documentada, a exemplo do conjunto de ações israelenses para interferir, em conluio com a família Bolsonaro, na atuação do Poder Judiciário brasileiro e obstruir a Justiça no caso do soldado israelense e criminoso de guerra Yuval Vagdani, que estava de “férias” no Brasil e foi alvo de inquérito instaurado por determinação da Justiça Federal brasileira por crimes de guerra no genocídio em Gaza. Além de estar amplamente documentado na imprensa brasileira e em publicações de Eduardo Bolsonaro à época, o próprio ministro israelense para “assuntos da ‘diáspora’” [sic], Amichai Chikli, se gabou de não só ludibriar a Justiça brasileira e influenciar a opinião pública para retirar o criminoso de guerra israelense do Brasil em episódio grosseiro de violação da nossa soberania, mas também de ter “constrangido Lula” como “apoiador do Hezbollah” em ação triangulada com membros da família Bolsonaro.
A crise política aprofundada por decisões do “terrivelmente sionista” André Mendonça — às vésperas da eleição e curiosamente no dia em que se votaria o fim da escala 6×1 — não atinge apenas uma ou outra figura da República, mas coloca em xeque a própria credibilidade da democracia, do Estado brasileiro e de suas instituições. O resultado está posto: cenário de convulsão social turbinado por uma retórica religioso-messiânica que o próprio Mendonça fez questão de alimentar na sequência de sua ofensiva institucional. Um prato cheio para atores estrangeiros que se utilizam de mecanismos semelhantes para interferir em países soberanos, subverter sistemas democráticos, implementar dispositivos de vigilância, controle e dominação, explorar riquezas e até executar genocídios.
A soberania brasileira está em jogo e, às vésperas da eleição que definirá o futuro do país, não é possível ignorar personagens, relações e motivações que atravessam a crise em curso. Menos ainda ignorar a possível participação de atores internos e externos interessados no colapso da democracia brasileira. A resposta do Estado brasileiro passa por rejeitar toda forma de interferência estrangeira e investigar com transparência e celeridade, sem blindagem, não apenas os personagens que ocupam as manchetes, mas também as redes de influência, fluxos financeiros, organizações de lobby e estruturas transnacionais que hostis aos interesses do Brasil.