A guerra de “israel” contra os lares

De Hebron a Gaza e ao sul do Líbano, "israel" está demolindo casas e, com elas, as esperanças de retorno das famílias.

03/11/2026

Crianças palestinas estão sobre os escombros da escola primária Sha'ab al-Butum, parcialmente demolida em Masafer Yatta [Arquivo: Captura de tela/Al Jazeera]

Por Mohamed Hussein*

“Por volta das 12h30 da noite, os veículos do Exército israelense estavam na Praça al-Jalda”, contou um morador de Hebron à Al Jazeera. “Eles nos disseram para deixar nossas casas. Perguntamos até quando, e disseram que até segunda ordem. Saímos apenas com a roupa do corpo.”

Horas antes, em 23 de outubro, dois soldados israelenses haviam sido mortos por homens palestinos armados em um posto de controle próximo à cidade. Hebron, a maior cidade da Cisjordânia ocupada, está sob cerco israelense desde então, com restrições que se estendem por toda uma província de cerca de 800 mil palestinos.

Um X preto agora marca as casas das quais as famílias foram expulsas à força. Soldados ocuparam outras, transformando-as em postos avançados militares.

Em pouco mais de uma semana, quase 5 mil palestinos foram deslocados, segundo a UNRWA, a agência das Nações Unidas para os refugiados palestinos, que classificou as medidas como punição coletiva, em violação ao direito internacional.

A atual operação se soma a anos de demolições. De 2009 até o início do cerco, em 23 de outubro, as forças israelenses demoliram 2.491 edifícios e deslocaram 3.534 palestinos na província de Hebron, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). Em toda a Área C e em Jerusalém Oriental ocupada, a média mensal de demolições desde 2024 foi pelo menos o dobro daquela registrada nos 15 anos anteriores.

Muitas demolições estão relacionadas ao sistema restritivo de licenças de israel. Os palestinos enfrentam dificuldades para obter licenças de construção emitidas por israel, deixando as estruturas construídas sem essas autorizações vulneráveis à demolição.

Em Masafer Yatta, um conjunto de 13 comunidades nas colinas do sul de Hebron, as autoridades israelenses demoliram cerca de 400 estruturas em 15 anos, deslocando 969 palestinos. Quase metade delas foi demolida desde janeiro de 2025.

Norte da Cisjordânia ocupada

O diretor da UNRWA para a Cisjordânia, Roland Friedrich, afirmou que as cenas em Hebron trazem “ecos alarmantes” do deslocamento em massa no norte da Cisjordânia ocupada no início de 2025, quando as operações militares israelenses esvaziaram os campos de refugiados de Jenin, Tulkarem e Nur Shams.

Mais de 34 mil refugiados palestinos dos campos de Jenin, Tulkarem e Nur Shams continuam deslocados, segundo a UNRWA, mais de um ano depois do início da operação israelense “Muro de Ferro”, em janeiro de 2025. A operação destruiu mais da metade dos edifícios residenciais dos campos.

Os registros de demolições do OCHA capturam apenas uma fração dessa destruição. Entre 2009 e outubro de 2026, a agência registrou 1.399 edifícios demolidos nas províncias de Jenin e Tulkarem, deslocando 4.139 pessoas. Esses registros acompanham principalmente demolições realizadas por falta de licenças ou como punição, e não os edifícios destruídos durante incursões militares.

Uma investigação do grupo de pesquisa Forensic Architecture encontrou evidências de destruição deliberada e sistemática. Os pesquisadores verificaram mais de 200 incidentes envolvendo a destruição de edifícios e ruas em quatro campos de refugiados, por meio do uso de tratores blindados, demolições controladas e ataques aéreos. Eles constataram que ruas foram alargadas através de casas e jardins para criar rotas para veículos militares. O grupo concluiu que israel estava aplicando na Cisjordânia ocupada táticas semelhantes às que havia utilizado em Gaza.

Em fevereiro de 2025, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, afirmou que Tulkarem e Jenin passariam a se parecer com Jabalia e Shujayea, duas das áreas mais devastadas de Gaza.

As incursões não pararam. Na semana passada, as forças israelenses detiveram quatro palestinos em Tulkarem e, na aldeia de Burin, ao sul de Nablus, as tropas converteram várias casas em quartéis militares, como fizeram em Hebron.

Perto de Jenin, o Exército ordenou que os moradores de uma aldeia inteira partissem permanentemente. “Tenho ovelhas e vacas. Toda a nossa vida está ligada a esta terra”, disse o agricultor Jabri Yahya. “No ano passado, arrancaram nossas oliveiras e, neste ano, querem nos obrigar a partir. Não sabemos para onde ir.”

Faixa de Gaza

Em Gaza, a destruição ocorre em uma escala muito maior. Até 16 de junho de 2026, estima-se que 201.290 estruturas tenham sido danificadas ou destruídas, cerca de 82% de todas as estruturas da Faixa, segundo o Centro de Satélites das Nações Unidas (UNOSAT).

Muitas famílias agora se abrigam em tendas, estruturas improvisadas ou edifícios danificados, frequentemente sem acesso confiável à água ou ao saneamento.

Mais um inverno traz novos riscos. Mohammed al-Jamal, de 60 anos, foi deslocado várias vezes desde que fugiu de sua casa no bairro de Shujayea, na Cidade de Gaza. Agora, divide uma tenda desgastada na praia com cerca de 30 membros de sua família ampliada, remendando-a antes de cada tempestade porque não tem condições de comprar uma lona nova. “Estamos vivendo na rua, não em casas que nos protejam”, afirmou.

Em toda a Faixa, os bairros dos quais as famílias fugiram foram reduzidos a escombros. Imagens de satélite do Google Maps atualizadas em setembro mostram a dimensão da destruição em toda a Faixa de Gaza sitiada, mais de três anos após o início da guerra genocida de israel.

Arraste os controles deslizantes abaixo para comparar os bairros antes e depois.

Sul do Líbano

No sul do Líbano, uma avaliação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), realizada em julho de 2026 com base em imagens de satélite de 16 de junho, identificou 31.259 edifícios danificados ou destruídos, principalmente ao sul do rio Litani.

A Organização Internacional para as Migrações (OIM) registrou o deslocamento de 333.144 pessoas em todo o Líbano até 9 de setembro.

Apesar do cessar-fogo entre israel e o Líbano, as forças israelenses continuam ocupando partes do sul, e as demolições deixaram muitos moradores sem saber se poderão retornar.

Em Hebron, Jenin, Gaza e no sul do Líbano, a destruição faz mais do que deslocar pessoas. Ela não lhes deixa nada para onde voltar.

Em Hebron, o alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, alertou que as “ameaças de esvaziar e apagar bairros inteiros” levantam “sérias preocupações de limpeza étnica” e pediu que todos os deslocados tenham permissão para voltar para casa.

Para muitas famílias, a questão já não é quando voltarão para casa, mas se ainda haverá uma casa para a qual possam retornar.

* Membro da equipe de jornalismo de dados e projetos interativos da Al Jazeera. Combina análise de dados, mapeamento geoespacial, design 3D, ilustração e narrativa visual, com foco especial em conflitos, deslocamentos populacionais e crises humanitárias. Reportagem publicada na Al Jazeera em 01/11/2026.

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