Eleições de meio de mandato nos EUA: progressistas se mobilizam em torno dos ataques do criminoso de guerra Obama a Trump
Deportações em massa, ataques com drones e apoio às guerras genocidas de "israel" não são obstáculos para que liberais apresentem o ex-presidente como uma alternativa moral a Trump.
Obama em sua primeira visita a "israel" como chefe de Estado, sorridente ao lado de Netanyahu. (Foto: Reprodução)
Por Joseph Massad*
O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, está nas campanhas eleitorais para apoiar candidatos do Partido Democrata. Em discursos em Ohio e Michigan, ele condenou o governo Trump por políticas não muito diferentes daquelas que ele próprio adotou quando esteve no poder.
Uma pesquisa da Universidade Harvard sobre a juventude, publicada na semana passada, constatou que dois terços dos jovens eleitores registrados desaprovam o desempenho do Partido Democrata no Congresso, enquanto quase dois terços dos jovens democratas querem o fim da ajuda militar dos EUA a Israel. Ainda assim, democratas e os chamados progressistas estão recorrendo a Obama para conquistar apoio aos seus candidatos, apesar de seu próprio histórico deplorável.
Obama, o “deportador-chefe”, que cruelmente deportou mais de três milhões de imigrantes, agora tem a audácia de denunciar Trump como um agente do “caos e da crueldade, da corrupção e da incompetência”.
Seu governo também encarcerou milhares de mães e crianças que buscavam asilo. Em 2014, retomou a detenção em massa de famílias, ampliando a capacidade de menos de 100 leitos para cerca de 3.700 em 2015. Defendeu a detenção dessas famílias como forma de dissuadir outros migrantes, até que um juiz federal bloqueou essa política.
A questão não é que Trump não seja cruel; é que Obama é cruel sem qualquer piedade.
O fato de liberais e progressistas dos EUA ainda apoiarem esse mesmo Obama como um farol de esperança contra as contínuas atrocidades de Trump revela, mais uma vez, a falência moral e política da esquerda liberal norte-americana.
Crueldade e caos
É verdadeiramente irônico que os chamados progressistas se mobilizem em torno dos ataques do criminoso de guerra Obama contra Trump. Obama acredita ter autoridade moral para condenar a guerra de Trump contra o Irã, que levou à morte de norte-americanos.
As guerras de Obama no Afeganistão e no Iraque custaram a vida de mais de 100 mil afegãos e iraquianos durante seus dois mandatos, além de 2.500 norte-americanos. Ainda assim, ele condena Trump pela morte de 21 soldados norte-americanos na guerra contra o Irã.
Esse é o mesmo Obama que mantinha uma lista semanal de alvos a serem mortos quando presidente, cujos ataques com drones mataram o cidadão norte-americano de 16 anos Abdulrahman al-Awlaki no Iêmen, em 2011.
Ele bombardeou casamentos no Iêmen e no Afeganistão, um funeral no Paquistão e um hospital em Kunduz, além de outros locais civis, matando centenas de pessoas. Em 2015, Obama também autorizou apoio logístico e de inteligência, incluindo reabastecimento aéreo, à guerra contra o Iêmen liderada pela Arábia Saudita.
Quanto ao “caos” que agora deplora, Obama lançou a intervenção militar de 2011 na Líbia, que mergulhou o país em anos de guerra e colapso político.
O descarado Obama agora discursa sobre como o desempenho de Trump no governo tem o cheiro de “palhaçadas e absurdos”.
O que foi absurdo, ridículo e completamente insensato foi Obama aceitar o Prêmio Nobel da Paz, em 2009, por suas guerras contra paquistaneses, afegãos e iraquianos; por seu apoio à derrubada da democracia em Honduras; por sua cumplicidade com ditaduras em todo o mundo árabe e muçulmano; por suas ameaças de uma possível invasão do Irã; e por seu apoio entusiasmado à colônia racista de Israel, construída por colonos.
O fato de Trump também acreditar que merece o prêmio não é nem um pouco hipócrita; hipócrita é, na verdade, o comitê do Prêmio Nobel, por se recusar a concedê-lo a ele.
Dando lições aos árabes
Em seu infame discurso na Universidade do Cairo, em 2009, Obama dirigiu-se a todo o mundo muçulmano como o presidente que já havia garantido a impunidade do governo Bush por seus crimes e que daria continuidade à expansão da “guerra ao terror”, sem jamais fechar Guantánamo.
Ele não fez nenhuma menção às centenas de milhares de pessoas — segundo algumas estimativas, mais de um milhão — já mortas pelas guerras dos EUA, do Iraque ao Afeganistão.
Não expressou qualquer pesar pelos dezenas de milhares de civis árabes, incluindo egípcios, mortos durante as seis décadas de guerras e massacres israelenses contra eles até aquele momento. Tampouco demonstrou solidariedade aos milhões de árabes transformados em refugiados pelos bombardeios bárbaros de Israel, incluindo um milhão de egípcios durante a Guerra de Desgaste.
Obama condenou os palestinos por se recusarem a reconhecer o direito de Israel de ser um Estado “judeu” racista e emitiu orientações racistas aos árabes e muçulmanos.
Seu compromisso com um Israel racista superava até mesmo o de seu vice-presidente, Joe Biden. Ele procurou ensinar aos árabes uma lição sobre a história dos judeus europeus e os exortou a valorizar o Holocausto cometido por cristãos europeus contra judeus europeus, e não a Nakba em curso, cometida por colonos judeus europeus contra os árabes.
Obama, de maneira imoral, acusou o povo árabe de negar o Holocausto por questionar o colonialismo de assentamento dos judeus europeus na Palestina:
“Seis milhões de judeus foram mortos — mais do que toda a população judaica de Israel hoje. Negar esse fato não tem fundamento, é ignorante e odioso. Ameaçar Israel com a destruição — ou repetir estereótipos vis sobre os judeus — é profundamente errado e serve apenas para evocar na mente dos israelenses essa lembrança tão dolorosa, ao mesmo tempo que impede a paz que os povos desta região merecem.”
Ele lembrou ainda à sua plateia no Cairo que o vínculo dos Estados Unidos com Israel é “inquebrável”. Em vez de exigir que Israel interrompesse sua violência desenfreada, o ultrassionista Obama insistiu que “os palestinos devem abandonar a violência. A resistência por meio da violência e da morte é errada e não tem sucesso”.
Ele proibiu os palestinos e outros árabes de sequer tentarem destruir as estruturas racistas sobre as quais se fundamenta o domínio de Israel. Advertiu os povos árabes de que qualquer tentativa de destruir a base racista do Estado israelense seria vista como equivalente a um “Holocausto”.
Um ano depois, da tribuna das Nações Unidas, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos chegou ao ponto de exortar os palestinos, assim como os países árabes e muçulmanos, a reconhecer o direito de Israel de ser um Estado judeu racista, insistindo que “a existência de Israel não deve ser objeto de debate. Israel é um Estado soberano e a pátria histórica do povo judeu”.
Presentes a Israel
Em fevereiro de 2011, Obama foi responsável pelo único veto dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU durante seu primeiro mandato, derrubando uma resolução que condenava os assentamentos israelenses e que havia recebido o apoio dos outros 14 membros.
Obama também ameaçou vetar o pedido de adesão da Palestina à ONU, em 2011, e cortou o financiamento dos EUA à Unesco quando a organização admitiu a Palestina como membro.
Em meio à guerra de Israel contra Gaza, em 2014, que matou 2.251 palestinos, seu Pentágono reabasteceu o Exército israelense com munições de morteiro, granadas e mísseis Hellfire.
Foram os anos de apoio incondicional de Obama, culminando em seu presente de despedida a Israel, no valor de US$ 38 bilhões em ajuda norte-americana ao longo de dez anos fiscais, de 2019 a 2028 — o maior pacote de ajuda militar dos EUA a Israel até então —, que ajudaram o país a perpetrar o genocídio em Gaza, em curso desde 2023.
Ainda assim, o candidato democrata ao Senado por Michigan, Abdulrahman “Abdul” El-Sayed, que afirma se opor ao genocídio israelense em curso e ao que chama de “socialismo corporativo” dos EUA, abraçou entusiasticamente Obama, que armou e financiou o genocídio israelense e o viabilizou por meio de sua retórica sionista.
Durante seu mandato, Obama também protagonizou o exemplo mais evidente de “socialismo corporativo”: o resgate financeiro do corrupto sistema bancário norte-americano com meio trilhão de dólares dos contribuintes.
Um mês antes, El-Sayed havia feito campanha por Detroit ao lado da candidata derrotada à Presidência Kamala Harris, que, como vice-presidente, continuou a apoiar sem reservas o genocídio de Israel em Gaza e seu projeto expansionista.
Nada disso é novidade. Já vimos esse desempenho vergonhoso quando Obama e os liberais e “esquerdistas” norte-americanos fizeram campanha por outros criminosos de guerra, Hillary Clinton, em 2016, e Joe Biden, em 2020, apresentando-os como o “mal menor”.
Nenhum crime cometido por presidentes democratas, por mais horrendo que seja, jamais impediria os liberais norte-americanos de apoiá-los.
Ao se preparar para assumir o cargo, Obama pediu aos norte-americanos que “olhassem para a frente, em vez de olhar para trás”, quando se recusou a processar autoridades do governo Bush por tortura.
Hoje, os democratas recorrem justamente a seus antigos líderes para preservar as políticas que os jovens eleitores querem que eles abandonem.
O fato de esses mesmos liberais quererem que apoiemos os candidatos desse mesmo partido demonstra a natureza impenitente da agenda política liberal nos EUA. Ao tentarem manter seu controle sobre o partido, podem estar garantindo sua desintegração, o que deveria ser um acontecimento bem-vindo para todos os norte-americanos.
* Joseph Massad é professor de política árabe moderna e história intelectual na Universidade Columbia, em Nova York. É autor de diversos livros e artigos acadêmicos e jornalísticos. Entre seus livros estão Colonial Effects: The Making of National Identity in Jordan; Desiring Arabs; The Persistence of the Palestinian Question: Essays on Zionism and the Palestinians e, mais recentemente, Islam in Liberalism. Seus livros e artigos foram traduzidos para uma dúzia de idiomas. Artigo publicado no Middle East Eye em 30/10/2026.
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