A família de Gaza despedaçada por snipers do exército de “israel” vindos dos EUA e da Alemanha

Investigação de cinco meses revela como quatro membros de uma mesma família foram mortos a tiros em um único dia e destaca um padrão em que tropas israelenses têm como alvo civis desarmados.

10/09/2025

A localização de Raab e Graetz foi rastreada a partir de fotos e vídeos feitos por soldados israelenses, mostrando os dois atiradores apontando suas armas através de uma janela e de um buraco na parede. (Reprodução/YouTube)

Por Hoda Osman e Emma Graham-Harrison*

Daniel Raab não demonstra hesitação ao assistir às imagens de Salem Doghmosh, de 19 anos, caindo no chão ao lado de seu irmão em uma rua no norte de Gaza.

“Essa foi minha primeira eliminação”, diz ele. O vídeo, filmado por um drone, dura apenas alguns segundos. O adolescente palestino parece estar desarmado quando é baleado na cabeça.

Raab, ex-jogador universitário de basquete de um subúrbio de Chicago que se tornou sniper israelense, admite que sabia disso. Ele diz que atirou em Salem simplesmente porque o jovem tentou recuperar o corpo de seu amado irmão mais velho, Mohammed.

“É difícil para mim entender por que ele [fez isso] e, para ser honesto, isso não me interessa muito”, afirma Raab em uma entrevista em vídeo postada no X. “Quero dizer, o que havia de tão importante naquele cadáver?”

Uma investigação de cinco meses conduzida pelo Guardian, pela Arab Reporters for Investigative Journalism (ARIJ), pela Paper Trail Media, pela Der Spiegel e pela ZDF identificou seis pessoas baleadas por atiradores israelenses em 22 de novembro de 2023. Por meio de entrevistas com sobreviventes, testemunhas e familiares, além da análise de certidões de óbito, registros médicos e imagens georreferenciadas, revelou-se como uma família do bairro de Tal al-Hawa, na Cidade de Gaza, foi despedaçada em poucas horas por homens que cresceram em Naperville, Illinois (EUA), e em Munique, Alemanha.

Naquele dia, atiradores israelenses mataram quatro membros da família Doghmosh e feriram outros dois. A história deles ilustra padrões de assassinatos cometidos por tropas israelenses, que repetidamente trataram homens desarmados entre 18 e 40 anos em Gaza como alvos.

Familiares dizem que reconheceram Salem Doghmosh, que foi morto a tiros enquanto tentava recuperar o corpo de seu irmão Mohammed. (Reprodução/Youtube)

O massacre de dezenas de milhares de civis é um dos fatores citados por acadêmicos, juristas e organizações de direitos humanos que afirmam que Israel está cometendo genocídio.

“Eles pensam: ‘Ah, não acho que [vão me atirar] porque estou usando roupas civis e não estou carregando uma arma nem nada disso’, mas estavam errados”, disse Raab, que se formou em biologia pela Universidade de Illinois antes de se alistar nas Forças de Defesa de Israel. “É para isso que existem atiradores de elite.”

Após Salem ser baleado, seu pai, Montasser, de 51 anos, correu até o local e tentou recolher os corpos dos filhos para o enterro, mas também foi mortalmente ferido por um franco-atirador.

A necessidade de um funeral digno para os entes queridos é um instinto humano básico, protegido pela lei e explorado pela arte há milênios. Está no coração emocional da Ilíada de Homero, uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram.

Mas, naquele dia, Raab tratou amor e luto como motivo para matar. “Eles simplesmente continuavam vindo para tentar levar aqueles corpos”, disse ele.

O vídeo da morte de Salem, bem como imagens de outros ataques contra palestinos desarmados, foi postado online cinco meses após sua morte, como parte de uma montagem feita por um soldado chamado Shalom Gilbert para comemorar uma missão em Gaza.

Raab disse depois que ele e outro atirador realizaram três dessas execuções, em uma entrevista conduzida de forma enganosa por uma equipe liderada pelo jornalista e ativista palestino Younis Tirawi.

Segundo Tirawi, Raab foi abordado por um falante de hebraico que dizia querer escrever sobre as experiências da unidade e homenagear soldados mortos. Raab recebeu a promessa de anonimato, mas Tirawi publicou trechos da entrevista online, justificando a decisão pelo interesse público, dado o número de civis mortos.

Raab não mencionou o nome de seu parceiro, depois identificado em fotos como Daniel Graetz.

Raab e Graetz não responderam a pedidos de comentário sobre os disparos, enviados ao longo de vários meses por jornalistas que trabalhavam na investigação.

A tragédia da família Doghmosh se desenrolou em um pequeno trecho da rua Moneer al-Rayyes, na Cidade de Gaza, perto do parque Barcelona Garden.

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Moradores sabiam que as forças israelenses estavam na área, mas, na manhã de 22 de novembro de 2023, o som de alguém cortando lenha na rua tranquilizou os vizinhos de que não havia combate ativo por perto. Foi uma falsa sensação de segurança.

Quando Mohammed Doghmosh saiu em direção ao parque com um primo, Raab e Graetz já estavam posicionados.

Os homens faziam parte de uma equipe de atiradores que se autodenominava refaim, ou “fantasma”. Não tinham ligação com uma unidade oficial de forças especiais de elite também conhecida como Refaim.

Muitos integrantes da unidade tinham dupla nacionalidade, e fotos e vídeos de suas operações postados online ajudaram organizações de direitos humanos a alertar promotores na Bélgica e na França sobre suspeitas de crimes de guerra cometidos por seus membros.

A localização de Raab e Graetz foi identificada a partir de fotos e vídeos feitos por soldados israelenses, mostrando os dois atiradores mirando suas armas por uma janela e um buraco na parede. Usando imagens de satélite, a equipe investigativa georreferenciou o local em um edifício de seis andares, a cerca de 400 metros das mortes.

A posição oferecia uma visão clara da rua Moneer al-Rayyes. Um jornalista palestino que trabalhava na investigação visitou os prédios e encontrou mais evidências da presença dos atiradores “fantasmas”: pichações mostrando o número 9 com chifres e cauda de diabo – o logotipo não oficial da equipe.

O repórter, que também entrevistou a família Doghmosh, pediu para não ser identificado porque Israel já matou pelo menos 189 jornalistas em Gaza.

Mohammed, que tinha 26 anos quando foi morto, possuía diploma de ensino médio e sustentava a família recolhendo sucata metálica e plástica para revenda. Salem havia abandonado a escola após o 10º ano e se juntara ao irmão.

Fayza Doghmosh reconheceu seus dois filhos – a camisa verde-oliva de Salem, as roupas pretas de Mohammed – quando lhe mostraram as imagens de Gilbert. Ela chorou incontrolavelmente ao assistir, 18 meses depois de seus meninos terem sido mortos.

Mohammed, que adorava asas de frango e ajudava a mãe a sovar a massa do pão da família todos os dias, foi o primeiro a sair. Ele buscou seu primo Youssef* em sua casa próxima, e os dois homens partiram juntos.

Seus últimos momentos podem ter sido filmados por forças israelenses. A montagem de Gilbert inclui dois vídeos granulados de execuções direcionadas. Youssef diz que se reconhece, caminhando com as mãos nos bolsos ao lado de Mohammed, seu amigo de infância.

Youssef diz que se reconhece, caminhando com as mãos nos bolsos ao lado de Mohammed momentos antes de ser morto a tiros. (Reprodução/ YouTube)

Raab descreve esse vídeo como a “segunda eliminação” de Graetz, em seus primeiros dias em Tal al-Hawa. Graetz, que cresceu em Munique, aparece no vídeo de Gilbert, e sua identidade foi confirmada por tecnologia de reconhecimento facial e entrevistas com ex-colegas de escola.

Aspectos do vídeo levantam dúvidas sobre se ele realmente mostra esse disparo. Especialistas em armamento que o examinaram se dividiram sobre se o projétil visível em alguns quadros era uma bala de rifle de precisão. As imagens mostram um homem atingido pelas costas, enquanto Youssef afirma que Mohammed foi baleado de frente.

Mas, se o que Raab e os parentes de Mohammed dizem for verdade, Graetz parece ter matado Mohammed simplesmente por estar no lugar errado, na hora errada. Nenhum dos dois carregava arma.

Em novembro de 2023, as forças israelenses que operavam na área decidiram que aquele trecho da rua Moneer al-Rayyes estava proibido para civis, sem informar os palestinos. Raab o descreveu como uma “zona de combate” onde qualquer homem em idade militar estava “marcado para morrer”.

Palestinos caminham entre os escombros de prédios destruídos no distrito de Tal al-Hawa, na Cidade de Gaza, em 26 de novembro de 2023, no terceiro dia de uma trégua. (Omar El-Qattaa/AFP/Getty Images)

Estabelecer um “perímetro de segurança” invisível e depois atirar em civis que o atravessam tornou-se prática comum em Gaza, segundo testemunhos de soldados israelenses.

Quando perguntado como sua equipe decidia se atirava em palestinos desarmados, Raab disse: “É uma questão de distância. Há uma linha que nós definimos. Eles não sabem onde está essa linha, mas nós sabemos.”

O Instituto Fraunhofer de Tecnologia da Informação Segura examinou os vídeos contendo as declarações mais críticas e não encontrou “nenhuma indicação” de que o conteúdo tivesse sido adulterado.

Depois que Mohammed foi morto, Youssef correu para avisar seus irmãos, selando inadvertidamente o destino de Salem. Raab descreve em vídeo como atirou no adolescente quando ele tentou recolher o corpo de Mohammed.

A recuperação de corpos está protegida pelo direito internacional. Os próprios regulamentos militares de Israel também determinam que pessoas que recolhem corpos não são alvos legítimos, segundo ex-soldados e Asa Kasher, coautor do código de ética das Forças de Defesa de Israel.

“Se você vê alguém recolhendo um corpo ou ajudando um ferido, isso é uma operação de resgate, deve ser respeitada”, disse Kasher. “Alguém assim não deve ser baleado.”

A próxima vítima foi o pai de Salem e Mohammed, Montasser. “Meus meninos”, foi tudo o que conseguiu dizer ao vê-los mortos na rua. Ele tentou se aproximar deles e foi baleado.

Em seguida, os atiradores miraram em um primo, Khalil*, que correu para ajudar Montasser. “Eu tinha dado uns oito a dez passos carregando-o quando fui baleado e pareceu que meu braço tinha sido arrancado”, disse Khalil, que conseguiu cambalear para fora do alcance antes de perder a consciência.

Os dois homens foram levados ao hospital, mas Montasser morreu no dia seguinte. A família decidiu que não podia arriscar mais perdas, e os corpos dos irmãos permaneceram na rua até o início do cessar-fogo em 24 de novembro.

“Qualquer um que chegasse perto era baleado”, disse Khalil. Ele ainda sofre com os danos das balas que atingiram seu torso logo abaixo da axila, com tanta força que inicialmente pensou que seu braço havia sido decepado. “Se eu ando um pouco, fico cansado. Se eu trabalho, fico cansado.”

Não há vídeo do disparo contra ele, mas Raab descreve alguém de sua equipe atingindo um palestino perto dos corpos dos irmãos, causando um grave ferimento no braço. “Realmente arrancou o braço dele, e presumimos que ele não sobreviveria”, disse.

Os ataques correspondem a um padrão descrito por um ex-reservista israelense, que disse ao Guardian que soldados com quem serviu em Gaza repetidamente atiraram em palestinos desarmados que tentavam recolher corpos.

“É algo que eu mesmo vi”, disse ele, acrescentando que esses assassinatos muitas vezes vinham depois que um primeiro civil desarmado era atingido por cruzar um “perímetro de segurança” invisível.

“Uma vez que ele foi declarado inimigo antes de ser baleado, então a suposição é que todos que vão resgatá-lo são seus cúmplices”, acrescentou o ex-reservista, que se recusou a voltar a Gaza alegando que a guerra havia se tornado “imoral”.

Mohammed, Salem e Montasser não foram os únicos membros da família baleados perto do parque Barcelona Garden naquele dia de novembro.

Mohammed Farid, 47 anos, primo distante dos irmãos Doghmosh, morava na rua Moneer al-Rayyes. Ele havia evacuado sua família para um prédio menos exposto no início de novembro, mas queria verificar se sua casa tinha sido danificada. No caminho de volta, encontrou outro primo, Jamal*, que fazia a mesma checagem, e seguiram juntos.

Ao chegarem à esquina da rua de Jamal, a poucos metros de sua casa, Farid foi baleado. A esposa de Jamal, Amal*, assistiu horrorizada enquanto Farid caía no chão e seu próprio marido corria para se abrigar.

No vídeo de Gilbert, há um terceiro clipe mostrando uma execução, que Raab também atribui ao trabalho de seu parceiro, Graetz.

Testemunhas, incluindo familiares, afirmam que esta filmagem mostra Mohammed Farid momentos antes de ser morto a tiros. (Reprodução/YouTube

As imagens mostram dois homens caminhando de costas para a câmera por uma rua cheia de escombros. Nenhum parece carregar arma. Um disparo soa, um homem cai no chão e o outro corre para sair da linha de fogo.

Testemunhas, incluindo a família imediata de Farid e seu primo Jamal, identificam a vítima como Farid, citando seu característico lenço no estilo durag. Ele foi levado ao hospital, mas declarado morto em menos de meia hora.

Raab afirma que atiradores israelenses mataram oito pessoas em dois dias perto do parque Barcelona Garden. Seis delas provavelmente eram da família Doghmosh. Mohammed e Salem, seu pai Montasser e Mohammed Farid foram mortos, e dois primos ficaram feridos. Também havia dois corpos não identificados na área naquele momento, segundo testemunhas e sobreviventes.

No total, Raab diz que sua “equipe” havia matado 105 pessoas até o fim de sua missão em Gaza. “Isso é realmente impressionante”, disse ele sobre o número.

O exército israelense não respondeu a perguntas específicas sobre os assassinatos da família Doghmosh ou sobre as regras de engajamento, incluindo os disparos contra civis que recolhiam corpos. Um porta-voz disse que suas forças operaram “em estrita conformidade com suas regras de engajamento e com o direito internacional, tomando precauções viáveis para mitigar danos a civis”.

O direito internacional protege indivíduos desarmados e a recuperação de corpos. Os disparos na rua Moneer al-Rayyes parecem violar essa norma, disseram especialistas. “As evidências disponíveis apontam para um crime de guerra”, afirmou Tom Dannenbaum, professor de direito internacional na escola de direito de Stanford.

Quase dois anos após os disparos, os sobreviventes da família Doghmosh têm mais esperança na justiça divina do que nos tribunais humanos. Fayza lembra-se de estar de pé diante de sua casa quando trouxeram os corpos de seus dois filhos até ela. Sobre Raab, ela diz: “Mesmo que eu o perdoe, Deus não o fará.”

* Os nomes de sobreviventes e testemunhas foram alterados por questões de segurança.

* Hoda Osman é uma jornalista investigativa radicada em Nova York e vice-diretora da Arabic Reporters for Investigative Journalism. Emma Graham-Harrison é a correspondente chefe do Guardian no Oriente Médio, com sede em Jerusalém. Reportagem publicada no The Guardian em 09/09/2025.

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