“A Palestina faz parte da minha história”: conheça Yasser Yassine, candidato a deputado estadual em Goiás

Filho de palestino de Bil'in, delegado Yasser Yassine afirma que a causa palestina não é apenas uma bandeira eleitoral, mas parte de sua trajetória familiar marcada pela Nakba, pela diáspora e pela luta por dignidade e direitos humanos

09/09/2026

Yasser Yassine, filho da diáspora palestina no Brasil. (Foto: Reprodução)

Enquanto Gaza enfrenta uma das mais graves tragédias da história humana já documentada, com dezenas de milhares de mortos e destruição em massa graças ao genocídio cometido por “israel”, a questão palestina também encontra eco nas histórias de descendentes que vivem a milhares de quilômetros de distância. Em Goiás, o delegado Yasser Yassine, candidato do PT a deputado estadual, é um desses casos. Filho de palestino, ele afirma que a Palestina não entrou em sua vida pela política, mas pela própria história de sua família.

Com 12 anos de carreira na Polícia Civil de Goiás, Yassine construiu sua trajetória profissional na área da segurança pública. Antes de se tornar delegado, atuou como advogado criminalista, professor universitário e servidor do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. Também foi candidato à Prefeitura de Formosa (GO) e atualmente cursa MBA em Gestão de Segurança Pública na Universidade de Brasília (UnB) e mestrado em Segurança Pública na Universidade Federal de Goiás (UFG).

Mas, para além da carreira profissional, existe uma história familiar que atravessa gerações e remete diretamente à Palestina. Seu pai nasceu em Bil’in, vila próxima a Ramallah, na Cisjordânia ocupada. A família paterna de Yassine era originária de Daniyal, localidade destruída durante a Nakba de 1948, quando mais de 750 mil palestinos foram expulsos ou forçados a fugir de suas terras para dar lugar à criação artificial do chamado “Estado” de “israel”.

Em entrevista à Fepal, o candidato relata que seu avô deixou a Palestina em 1955, separando-se da esposa e dos seis filhos para tentar reconstruir a vida no Brasil. “Quando eu falo da Palestina, não é uma questão abstrata ou política. É a história da minha própria família: de separação, de desapropriação, de migração e de reconstrução da vida no Brasil”, afirma.

Décadas depois, a história da diáspora palestina continuaria moldando a identidade familiar. O pai de Yassine chegou ao Brasil aos 18 anos para reencontrar o próprio pai, de quem guardava apenas a lembrança da despedida na infância. Parte da família estabeleceu-se em Brasília e em cidades goianas, integrando uma comunidade palestina que contribuiu para o desenvolvimento econômico, social e cultural da região.

Embora nunca tenha visitado a Palestina, Yassine diz sentir a terra de seus antepassados como parte inseparável de sua identidade. “A Palestina faz parte da minha história”, afirma. As memórias transmitidas pelo pai sobre Bil’in, Ramallah, Jerusalém e Belém, bem como as histórias da avó Aysha, que cultivava oliveiras e produzia azeite, constituíram sua principal conexão com a terra palestina.

Essa relação também foi construída por meio da vida comunitária. Crescido em Planaltina, no Distrito Federal, ele frequentava desde criança a associação palestina local, participava das festas da comunidade, assistia às apresentações de dabke, acompanhava o pai à mesquita e convivia com tradições preservadas pela diáspora. “Minha relação com a Palestina foi construída também nessas coisas simples da infância: na comida, nas festas, na música, na dança, na mesquita e, principalmente, nas histórias que meu pai contava”, recorda.

Para Yassine, a ocupação israelense não afeta apenas territórios. Ela interfere diretamente nas relações humanas e familiares. Ao explicar por que nunca conheceu a avó, tios e primos que permaneceram na Palestina, ele observa que “a ocupação e as políticas de segregação não separam apenas territórios. Elas separam famílias”. A afirmação ganha ainda mais peso diante da atual realidade palestina, marcada por checkpoints, bloqueios, restrições de circulação e pelo aprofundamento da crise humanitária em Gaza e na Cisjordânia.

Questionado sobre a situação atual da Palestina, o candidato manifesta preocupação com as tentativas de criminalização de ativistas pró-Palestina em diversos países e defende o respeito ao direito internacional. Também destaca a necessidade de ampliar o debate sobre os direitos dos palestinos e o combate ao racismo, à xenofobia e à islamofobia. “A Palestina não é uma bandeira que escolhi para uma eleição. É parte de quem eu sou”, resume.

Leia a íntegra da entrevista de Yassine para o site da Fepal:

Conta um pouco sobre as suas origens familiares. De onde era o seu pai? Quando ele veio para o Brasil?

Meu pai é palestino, de Bil-in, próximo a Ramallah. A história da nossa família foi profundamente marcada pela Nakba e pela ocupação ilegal da Palestina. A família do meu avô era de Daniyal, cidade que foi dizimada em 1948.

Meu avô decidiu emigrar para o Brasil em 1955, deixando na Palestina a esposa e seis filhos. Meu pai tinha apenas cinco anos.

Minha avó ficou na Palestina, trabalhando no campo. Meu avô veio de navio, desembarcou em São Paulo e seguiu para Mato Grosso, onde recomeçou a vida como mascate e depois abriu seu próprio negócio.

Quando meu pai completou 18 anos, meu avô mandou as passagens para que ele viesse ao Brasil e o conhecesse. Do meu avô, meu pai guardava praticamente só a lembrança da partida. Ele veio para Mato Grosso e, mais tarde, para Brasília, onde reconstruiu sua vida. Outros familiares do meu pai se instalaram em Goiás.

Então, quando eu falo da Palestina, não é uma questão abstrata ou política. É a história da minha própria família: de separação, de desapropriação, de migração e de reconstrução da vida no Brasil.

Você já foi à Palestina?

Ainda não. É uma ausência que sinto muito, pois a Palestina faz parte da minha história.

Tenho muita vontade de conhecer os lugares dos quais ouvi falar desde pequeno. Meu pai nasceu e cresceu em Bil-in, mas ele sempre fala de Daniyal, onde nasceu e viveu minha bisavó. Por sorte, ela faleceu antes da destruição de Daniyal.

Em Bil’in, minha avó, Aysha, cultivava oliveiras e produzia o próprio azeite, uma tradição profundamente ligada à terra e à cultura palestinas. Meu pai se lembra em detalhes de como ela fazia o azeite.

Eu gostaria muito de ter conhecido minha avó Aysha, mas não tive essa oportunidade. A ocupação e as políticas de segregação não separam apenas territórios. Elas separam famílias. É isso que as pessoas não entendem. No meu caso, fui privado de conhecer minha avó, meus tios e meus primos.

Então, eu, como muitos descendentes de palestinos, conheço a Palestina pela memória do meu pai. Ele conta sobre a infância em Bil’in, o caminho que fazia a pé para estudar em Kafr Ni’ma e suas viagens pela região. Conheceu Ramallah, Jerusalém, Belém, Aqaba e Petra. Era uma liberdade de circulação que a geração dele conheceu e que se perdeu com a ocupação de 1967.

Hoje, a realidade é outra. Checkpoints, barreiras e restrições à circulação fragmentam o território e limitam até mesmo os deslocamentos mais cotidianos. Para muitos palestinos, visitar parentes, estudar, trabalhar, ir a outra cidade ou viajar para o exterior não é uma opção. A liberdade que aparece nas histórias da juventude do meu pai é justamente uma das coisas que as novas gerações palestinas não puderam herdar.

Você atua ativamente na diáspora, na comunidade palestina no Brasil?

Sim. Tenho uma relação próxima com a comunidade palestina, especialmente em Goiás e no Distrito Federal. É uma relação que vem da minha família, da minha infância e da convivência com a comunidade.

Cresci em Planaltina-DF, onde havia uma comunidade palestina muito presente. Nos fins de semana, íamos à Jamaya, como chamávamos a associação palestina, onde as famílias se encontravam, conversavam, faziam festas e dançavam dabke. Às sextas-feiras, eu também acompanhava meu pai à mesquita e, nas festas da comunidade, a comida palestina estava sempre presente.

E essa cultura continuava em casa. Meu pai sempre cozinhou comida árabe para nós. Então minha relação com a Palestina foi construída também nessas coisas simples da infância: na comida, nas festas, na música, na dança, na mesquita e, principalmente, nas histórias que meu pai contava.

Com o tempo, parte dessa comunidade se dispersou. Muitos foram embora, alguns para outros países. Mas alguns continuam em Planaltina, Sobradinho e em cidades de Goiás, como Goianápolis e Jataí. É uma comunidade da qual faço parte desde criança, muito antes de pensar em política.

O que pensa sobre a abordagem das autoridades brasileiras em relação aos refugiados palestinos, aos ativistas pró-Palestina e sua cooperação com “israel”?

Não podemos ignorar que hoje há uma preocupação real com a criminalização e a perseguição de organizações, ativistas e vozes da sociedade civil palestina em vários países. No Brasil, houve recentemente uma tentativa de aprovar uma legislação que poderia, na prática, criminalizar os ativistas pró-Palestina.

Sobre a questão dos refugiados, o Brasil não concedeu visto humanitário aos palestinos após 7 de outubro. A situação é dramática em Gaza e piora a cada dia na Cisjordânia. É preciso avaliar como o Brasil poderia oferecer apoio sem estimular uma política que pudesse configurar a limpeza étnica dos palestinos. A expulsão ou o deslocamento sistemático de um grupo étnico, racial ou religioso, sem garantia de retorno, constitui limpeza étnica no direito internacional.

De toda forma, o Brasil foi um dos países que deslocaram aviões para trazer brasileiros-palestinos de Gaza. E o Brasil tem sido reconhecido por sua postura favorável ao respeito ao direito internacional no caso da Palestina.

Como a Palestina se encaixa na sua campanha eleitoral?

A Palestina não entrou na minha campanha como pauta eleitoral. Ela entrou na minha vida muito antes de eu pensar em ser candidato. Sou filho de palestino e cresci com a história de uma família que foi separada, teve de deixar sua terra e reconstruir parte da vida no Brasil.

Essa história ajudou a formar os valores que hoje levo para a política: dignidade, justiça, direitos humanos e proteção das pessoas. Ninguém deve ser tratado como inferior por causa da sua origem, da sua religião ou de onde nasceu.

Então, a Palestina não é uma bandeira que escolhi para uma eleição. É parte de quem eu sou e de uma convicção muito simples: todo ser humano merece viver com liberdade, respeito e dignidade.

Caso eleito, quais seriam suas prioridades na política geral e no tema da Palestina?

Minha prioridade como deputado estadual será a segurança pública, com inteligência e prevenção; a educação; a proteção das comunidades mais vulneráveis; e a valorização dos servidores públicos. Como delegado de polícia, defendo que ninguém deve viver com medo, nem na rua, nem em casa.

Estou bem atento à preocupação da mãe, que teme que seu filho seja recrutado pelo crime. Às pessoas LGBTQIA+ e às mulheres, que temem ser agredidas por causa do preconceito ou de ideologias extremistas de direita que inferiorizam os outros. Às pessoas idosas, que têm medo de atender um número desconhecido por causa dos golpes.

Como filho de um palestino, eu sei exatamente o perigo das ideologias extremistas que buscam diminuir o outro para justificar abusos.

Em relação à Palestina, quero olhar especialmente para a comunidade árabe que vive em Goiás, valorizando sua cultura, sua história e sua contribuição para o nosso estado. Também quero atuar no combate ao racismo, à xenofobia, à islamofobia e a qualquer forma de discriminação.

No fundo, tudo isso faz parte da mesma ideia de segurança que eu defendo: proteger as pessoas e garantir que todas possam viver com respeito e dignidade. Como sempre digo, o cuidado é nossa maior segurança.

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