Falso think tank dos EUA criado e financiado por “israel” manipula chatbots para negarem genocídio

Em uma tentativa de levar chats de IA a reproduzirem argumentos pró-"israel", o site publicou 124 relatórios, somando mais de 560 mil palavras em nove dias, mostra uma análise do Guardian.

28/08/2026

Foto: Middle East Forum/Shutterstock

Por Jason Wilson*

Um site de mensagens pró-Israel que ostenta o nome de um think tank inexistente publicou mais de meio milhão de palavras em nove dias, utilizando uma plataforma comercial que promete otimizar conteúdos para que chatbots de inteligência artificial os citem.

O site apresenta a posição de Israel sobre temas como a tortura de prisioneiros palestinos, crimes de guerra israelenses e se Israel deliberadamente submeteu os palestinos em Gaza à fome, tudo apresentado como se fosse pesquisa neutra.

A empresa de produção de mídia de Nova York Piro Inc registrou o site neste mês junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (Fara), de 1938, que exige que qualquer pessoa que trabalhe para um governo estrangeiro faça essa divulgação formalmente. O registro identifica o material como distribuído para o governo israelense.

O site publica conteúdo em nome do Hanover Institute for Public Policy, que aparentemente não existe como entidade legal em nenhuma jurisdição, não possui endereço físico, não apresenta funcionários identificados e não traz autoria assinada em nenhum de seus relatórios. Seus próprios termos de uso afirmam ser regidos pelas leis “do Estado no qual o Instituto está estabelecido”, mas não informam qual seria esse Estado.

A existência do site foi noticiada pela primeira vez em 14 de agosto. Desde então, o instituto acrescentou uma página intitulada “Financiamento”, na qual afirma: “Uma versão anterior desta página dizia que o Instituto operava sem financiamento externo, e isso era verdade quando foi escrita.”

O site é apenas uma parte de um esforço mais amplo, financiado com dezenas de milhões de dólares do governo israelense e canalizado por meio de terceiros, entre eles o grupo europeu de publicidade Havas Media, para induzir chatbots a reproduzirem os argumentos de Israel. Um contrato entre a Havas e outra empresa norte-americana envolvida na campanha prevê a “implantação de sites e conteúdos para fornecer resultados de enquadramento GPT em conversas com GPT”.

O Guardian entrou em contato com a Piro Inc, a Havas Media e a agência de publicidade governamental israelense LaPam em busca de comentários. Comentários também foram solicitados por meio do endereço de e-mail divulgado no site do Hanover Institute.

A iniciativa ocorre num momento em que a imagem de Israel na opinião pública dos Estados Unidos entrou em colapso e em que autoridades israelenses passaram a admitir à imprensa que os recursos gastos nas chamadas ações de “hasbara” — a diplomacia pública e propaganda israelense no exterior — foram desperdiçados.

O site

Segundo análise do Guardian, entre 6 e 14 de agosto o Hanover Institute publicou 124 relatórios, totalizando mais de 560 mil palavras, uma média de cerca de 4.500 palavras por texto. Apenas nos dias 12 e 13 de agosto foram produzidos 73 relatórios, somando quase 354 mil palavras em apenas dois dias. Nenhum novo conteúdo foi publicado desde que surgiram as primeiras reportagens sobre o Hanover Institute.

Com exceção de um único caso, todos os 124 títulos do site começam com perguntas semelhantes às que um usuário poderia digitar em um chatbot, incluindo: “O antissionismo é antissemitismo?”, “Israel expulsou palestinos de suas terras?” e “Israel está cometendo genocídio em Gaza?”.

Os relatórios são apresentados de forma quase acadêmica e contêm referências minuciosamente documentadas, citando instituições como o Banco Mundial, agências da ONU, o Escritório Central Palestino de Estatísticas, a Anistia Internacional e o texto da Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio.

Nick Cleveland-Stout, pesquisador associado do Quincy Institute que investigou o site, disse ao Guardian que sua primeira impressão foi positiva.

“Ele consegue se passar por algo muito acadêmico — o design do site, os logotipos, tudo parece muito bem feito. Mas, quanto mais você lê, mais percebe que muita coisa simplesmente não faz sentido.”

Por exemplo, as informações apresentadas pelo site do Hanover Institute são persistentemente estruturadas para mitigar críticas a Israel. Onde organizações de direitos humanos concluíram que Israel está cometendo genocídio ou apartheid, os relatórios observam pontualmente que nenhum tribunal emitiu um veredito sobre a alegação – uma formulação que aparece em 20 dos 124 relatórios, segundo a contagem do The Guardian.
Dados sobre vítimas e ajuda humanitária são atribuídos a “uma das partes envolvidas nos eventos”, uma ressalva usada em 55 relatórios e aplicada tanto às contagens de Israel quanto às palestinas. A impressão deixada ao leitor é que quase nada sobre Gaza pode ser estabelecido com certeza.
Um estudo – uma análise de 2022 sobre comentários antissemitas nas páginas do Facebook de veículos de imprensa britânicos, franceses e alemães – é citado 454 vezes em 88 dos 124 relatórios, inclusive em páginas sobre tópicos aparentemente não relacionados, como o registro de terras nos territórios ocupados, a influência do AIPAC na cobertura da imprensa norte-americana, o número de mortos em Gaza, as expulsões de 1948 e o bloqueio a Gaza.
Cleveland-Stout notou o efeito cumulativo dessa inclusão. “Quase todo artigo conclui dizendo: ‘bem, apenas falar sobre isso pode contribuir para o antissemitismo’”, disse ele. “E então eles inserem o estudo sobre os comentários do Facebook na Grã-Bretanha.”

Construindo para as máquinas

A análise do Guardian constatou que, inicialmente, o site continha um tipo de arquivo que informa aos sistemas de IA o que um site contém e como ele deve ser lido (um arquivo llms.txt), mas que não descrevia o Hanover Institute em absoluto.

Tratava-se do arquivo padrão da Res, uma “plataforma de conteúdo nativa para IA que ajuda equipes B2B [business-to-business] a serem citadas pelo ChatGPT, Perplexity, Claude e Gemini”, vendendo aquilo que o setor chama de otimização para motores generativos.

O Guardian arquivou o arquivo em 13 de agosto. Desde então, ele foi substituído por uma versão personalizada, escrita especificamente para leitores automatizados, e o nome da Res desapareceu completamente do site.

O fundador da Res, Hai Tran, registrou-se junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos em 22 de julho como subcontratado da Piro na conta israelense, identificando-se como “estrategista digital”. Tran disse ao Politico que sua função havia sido devidamente divulgada nesse registro.

O Guardian procurou a Res para obter comentários.

O próprio site da Piro anuncia um serviço chamado “AI Story Optimization” (“Otimização de Narrativas para IA”), por meio do qual a empresa promete “produzir conteúdo projetado para a forma como os LLMs avaliam credibilidade”, publicando esse material “em seu site ou em propriedades confiáveis de terceiros que nós construímos”.

Cleveland-Stout afirmou que o alvo mais importante não era a possibilidade de usuários encontrarem o site em buscas em tempo real, mas sim os dados de treinamento.

“Existem basicamente duas maneiras de fazer isso”, explicou. A primeira consiste em publicar sites e esperar que os chatbots os citem. A segunda — “a mais preocupante e potencialmente mais eficaz” — é fazer com que o material entre em repositórios como o Common Crawl, que fornecem os dados de treinamento subjacentes utilizados por modelos comerciais.

“Quando ele reproduz narrativas nas quais foi treinado, o chatbot nem sequer cita as fontes”, disse. “Você não conseguirá verificar os fatos.”

A rede mais antiga já percorreu esse caminho. Os sete sites administrados pela Clock Tower X — empresa dirigida pelo ex-gerente da campanha de Donald Trump e diretor digital Brad Parscale — apareceram 294 vezes no índice de julho do Common Crawl, o repositório que fornece dados de treinamento para desenvolvedores comerciais de IA.

“israel” está pagando milhões para treinar chatbots de IA sobre como falar de Gaza. E está funcionando.

O Hanover Institute ainda não aparece ali, porque seus relatórios foram publicados após o encerramento daquela coleta. Mas ele está no início da mesma cadeia de processamento.

Todas as páginas do site do Hanover exibem, no rodapé, uma declaração informando que o conteúdo é produzido por um agente estrangeiro.

Cleveland-Stout submeteu essa informação ao Perplexity, que, segundo ele, respondeu que os usuários poderiam visitar o site e julgar por si mesmos sua confiabilidade.

“Mas quantas pessoas realmente fazem isso?”, questionou.

Os testes realizados pelo Guardian com chatbots, no momento da reportagem, mostraram que o escrutínio sobre o conteúdo do Hanover Institute já havia começado a influenciar as respostas dos sistemas.

Quando solicitado a indicar novas pesquisas publicadas pelo Hanover Institute, o chatbot do ChatGPT apresentou links para quatro relatórios, mas também alertou que o instituto era alvo de “controvérsia significativa sobre quem o financia e por que ele existe”, resumindo e vinculando reportagens do Quincy Institute sobre o caso.

A cadeia

Segundo os registros da Fara, a Piro possui contratos que somam US$ 1 milhão distribuídos em duas ordens de serviço. Esse valor, porém, é pequeno em comparação aos gastos totais da campanha da qual faz parte.

Tanto a Piro quanto a Clock Tower X atuam como subcontratadas da Havas Media Germany GmbH, empresa sediada em Frankfurt, controlada por meio da divisão espanhola da Havas e, em última instância, pela Havas NV, listada na bolsa de Amsterdã.

A Havas aparece como intermediária nos registros de agentes estrangeiros de cinco empresas norte-americanas: Clock Tower X, Piro, Targeted Communications Global, Bridges Partners e Davis Media NY.

Documentos do Departamento de Justiça registram pagamentos da Havas à Clock Tower X no valor de US$ 15 milhões, em seis parcelas entre 24 de outubro de 2025 e 3 de março de 2026, além de US$ 9.892.335 pagos à Targeted Communications Global entre outubro e dezembro de 2025.

Sete dias após o primeiro desses pagamentos, em 31 de outubro de 2025, a subsidiária norte-americana da própria Havas encerrou seu registro como agente do governo israelense.

Enquanto manteve esse registro, a empresa era obrigada a detalhar os recursos recebidos. Seu relatório referente aos seis meses anteriores a 31 de outubro de 2023 registra US$ 2.951.745 recebidos de sua empresa-irmã alemã para a conta israelense.

Quando a entidade alemã passou a pagar diretamente os contratados norte-americanos, a Havas deixou de divulgar essas informações, já que um principal estrangeiro não possui obrigação de prestar esse tipo de informação.

Na prática, isso significou que a campanha mais ampla deixou de ser imediatamente visível nos registros públicos, aparecendo apenas por meio dos registros fragmentados dos contratados individuais.

Em Israel, documentos de contratação pública mostram que a agência governamental de publicidade LaPam concedeu contratos à Havas sem licitação competitiva: US$ 39 milhões, US$ 29 milhões e US$ 17,5 milhões ao longo de 2019, além de US$ 58,3 milhões em março de 2023 para planejamento e compra de mídia no exterior.

Esse contrato expirou em 15 de março de 2024.

Uma busca nos registros públicos da LaPam até 5 de agosto de 2026, bem como no cadastro de licitações, não encontrou nenhuma nova contratação da Havas que cobrisse o período em que a empresa estava pagando US$ 24,9 milhões a firmas norte-americanas.

O dinheiro não foi empregado apenas em esforços para influenciar chatbots.

Os registros da Targeted Communications Global revelam uma campanha em redes sociais chamada Freedom Not Terror. Um vídeo de 30 segundos da campanha, publicado de forma não listada no YouTube em outubro de 2025, acumulou 28,1 milhões de visualizações.

Sua conta no TikTok possui 425 seguidores.

O site da campanha traz a frase: “Pago pela LAPAM”.

Nenhum conteúdo novo foi publicado desde dezembro de 2025.

O Guardian procurou a Targeted Communications Global para comentar o assunto.

O refúgio de todos os fracassos

Em Israel, autoridades passaram a manifestar dúvidas tanto sobre a campanha para influenciar a opinião pública norte-americana por meio da manipulação de sistemas de IA quanto sobre a diplomacia pública em geral.

Em julho, autoridades israelenses disseram ao Ynet que a estratégia havia fracassado. Uma delas afirmou que o governo “gastou muito dinheiro, mas a situação apenas piorou”.

Uma antiga figura de alto escalão do aparato de diplomacia pública israelense declarou ao mesmo jornal que a iniciativa era “uma fraude terrível na escala de Pollard” — referência a Jonathan Pollard, o analista norte-americano preso por espionar para Israel em 1987, episódio que marcou um dos momentos mais delicados das relações entre Israel e Washington.

Falando à emissora pública Kan sobre Brad Parscale, outro funcionário comentou:

“Ele deveria melhorar a situação. Nós lhe pagamos muito dinheiro. Mas o que ele fez com isso?”

Ao assumir o cargo, o ministro das Relações Exteriores Gideon Sa’ar destinou US$ 181,6 milhões (545 milhões de shekels) para a diplomacia pública internacional e, posteriormente, aprovou mais US$ 666,3 milhões (2 bilhões de shekels) para os anos de 2026 e 2027.

A reportagem do Ynet afirma que o controle desses recursos passou para o diretor-geral do ministério, Eden Bartel, e para Eran Shayovitch, um assessor externo contratado pelo ministro.

Shayovitch é citado no registro da Piro como um dos dois funcionários israelenses com os quais a empresa mantém contato direto.

As pesquisas de opinião pública nos Estados Unidos ajudam a explicar a frustração das autoridades israelenses.

O instituto Gallup constatou em fevereiro que, pela primeira vez, os norte-americanos demonstravam mais simpatia pelos palestinos do que pelos israelenses. Apenas 36% declararam apoiar Israel.

Já uma pesquisa do Pew Research Center, realizada em abril, registrou que 60% dos norte-americanos tinham uma opinião desfavorável sobre Israel — aumento de quase 20 pontos percentuais em relação a 2022. A mudança mais acentuada ocorreu entre os jovens.

Uma pesquisa AP-NORC publicada em 7 de julho mostrou que 31% dos norte-americanos consideram que as ações militares israelenses em Gaza constituem genocídio.

Entre os eleitores democratas, esse índice sobe para 52%.

A mesma pesquisa constatou que 58% dos democratas consideram que os Estados Unidos apoiam Israel excessivamente, contra 45% registrados em janeiro de 2024.

Cleveland-Stout afirmou duvidar que qualquer campanha de diplomacia pública seja capaz de superar a oposição crescente às políticas israelenses.

“Há uma falta de reflexão sobre o fato de que são as próprias políticas que estão levando muitos norte-americanos a questionar seu apoio a Israel”, disse.

“Eles encaram um problema político como se fosse um problema de marketing.”

Ele citou o falecido político israelense Yossi Sarid, que, um ano antes de morrer, em 2015, brincou em uma entrevista:

“A hasbara é sempre o refúgio de todos os fracassos. Tudo vai muito bem — apenas a hasbara é péssima. Se a hasbara fosse boa, então todos perceberiam a situação ideal.”

Entretanto, segundo Cleveland-Stout, uma questão diferente é saber se a campanha funciona para Israel em seus próprios objetivos políticos.

“Parscale está tendo sucesso em influenciar chatbots, e o Hanover Institute está tendo e continuará tendo sucesso em influenciar as respostas dadas pelos chatbots”, afirmou.

“Mas eles não estão mudando as pesquisas de opinião, que é o que realmente importa para Israel.”

Sua preocupação mais ampla é o que esse experimento demonstra sobre o futuro da inteligência artificial.

“Sejam governos estrangeiros, empresas ou até mesmo um sujeito que possui uma sorveteria — o condicionamento de LLMs, o envenenamento de modelos, ou qualquer nome que se queira dar a isso, faz parte da nova realidade em que vivemos.”

Embora nem o governo israelense nem as empresas envolvidas tenham respondido ao Guardian, o Ministério das Relações Exteriores de Israel declarou que o Estado não realiza “operações de influência” nos Estados Unidos e que é “extremamente cuidadoso em cumprir as disposições da legislação norte-americana”.

Por sua vez, Daniel Rosenberg, cofundador da Piro, afirmou que a empresa foi contratada “para colocar fatos precisos e devidamente documentados no domínio público e para combater a desinformação sobre Israel com informações verificáveis”.

* Jornalista investigativo baseado em Portland, Oregon (EUA). Reportagem publicada no The Guardian em 26/08/2026.

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