“As formas mais cruéis de tortura”: palestinos libertados descrevem os horrores das prisões israelenses
Homens que estiveram confinados na prisão de Nafha dizem ter sido brutalmente espancados, amarrados de mãos e pés, insultados verbalmente, deixados contrair doenças de pele e fungos, e submetidos a música alta por até dois dias seguidos
“Não havia atendimento médico. Tentávamos tratar nossos ferimentos com desinfetante de chão, mas isso só piorava. Os colchões eram imundos, o ambiente era insalubre, nossa imunidade fraca e a comida contaminada”, diz Mohammed al-Asaliya. (Foto: Amjed Tantesh)
Por Seham Tantesh e William Christou*
Antes de libertá-lo, os guardas israelenses decidiram dar a Naseem al-Radee um “presente de despedida”. Amarraram suas mãos, colocaram-no no chão e o espancaram sem piedade — despedindo-se da mesma forma que o haviam recebido: com socos.
A primeira visão de Gaza em quase dois anos foi turva; um chute no olho o deixou com a visão embaçada dois dias depois. Problemas de visão se somaram à longa lista de males que ele adquiriu durante os 22 meses que passou em uma prisão israelense.
O funcionário público de 33 anos, morador de Beit Lahiya, foi preso por soldados israelenses em 9 de dezembro de 2023, em uma escola transformada em abrigo para deslocados em Gaza. Passou mais de 22 meses em cativeiro em centros de detenção israelenses — incluindo 100 dias em uma cela subterrânea — antes de ser libertado, junto com outros 1.700 detentos palestinos, de volta a Gaza, na segunda-feira (13).
Como os demais libertados, Radee jamais foi acusado de qualquer crime. E, como muitos outros, sua detenção foi marcada por tortura, negligência médica e fome às mãos dos guardas israelenses.
Seu relato faz parte do que o grupo israelense de direitos humanos B’Tselem descreve como uma política de abuso contra prisioneiros palestinos nas prisões e centros de detenção de Israel.
O serviço prisional e o exército israelense não responderam imediatamente ao pedido de comentário, mas, no passado, ambos afirmaram que as condições carcerárias estão em conformidade com o direito internacional.
“As condições na prisão eram extremamente severas — tínhamos as mãos e os pés amarrados e éramos submetidos às formas mais cruéis de tortura”, disse Radee, referindo-se ao período em que esteve preso na penitenciária de Nafha, no deserto do Neguev, o último local em que ficou antes da libertação.
Os espancamentos, segundo ele, não eram exceção, mas parte de um regime de abuso sistemático e planejado.
“Usavam gás lacrimogêneo e balas de borracha para nos intimidar, além de abusos verbais e insultos constantes. Havia um sistema rígido de repressão: o portão eletrônico da ala se abria quando os soldados entravam, e eles vinham com cães, gritando ‘de bruços, de bruços’, e começavam a nos espancar sem piedade”, contou.
As celas estavam superlotadas, com 14 pessoas amontoadas em um espaço projetado, aparentemente, para cinco. As condições insalubres levaram-no a contrair doenças de pele e fungos que não foram tratadas adequadamente pela equipe médica da prisão.
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Mohammed al-Asaliya, estudante universitário de 22 anos libertado da prisão de Nafha na segunda-feira, contraiu sarna durante o período de detenção.
“Não havia atendimento médico. Tentávamos tratar nossos ferimentos com desinfetante de chão, mas isso só piorava. Os colchões eram imundos, o ambiente era insalubre, nossa imunidade fraca e a comida contaminada”, disse Asaliya, que foi preso em 20 de dezembro de 2023, numa escola em Jabaliya.
“Havia uma área chamada ‘a discoteca’, onde tocavam música alta sem parar por dois dias seguidos. Era um dos métodos de tortura mais dolorosos e notórios. Também nos penduravam nas paredes, nos borrifavam com ar frio e água, e às vezes jogavam pimenta em pó nos detentos”, relatou Asaliya.
Ambos os homens perderam grande parte do peso corporal durante a detenção. Radee entrou na prisão pesando 93 kg e saiu com 60 kg. Asaliya pesava 75 kg no momento da prisão e chegou a 42 kg em determinado ponto do cativeiro.
Autoridades médicas palestinas disseram que muitos dos detentos libertados na segunda-feira chegaram em péssimo estado físico.
“Os sinais de espancamento e tortura eram claramente visíveis nos corpos dos prisioneiros — hematomas, fraturas, ferimentos, marcas de arrasto no chão e marcas de amarras que prenderam suas mãos com força”, disse Eyad Qaddih, diretor de relações públicas do hospital Nasser, no sul de Gaza, que recebeu os detentos na segunda-feira.
Segundo ele, muitos dos recém-libertados tiveram de ser levados à sala de emergência devido ao estado crítico de saúde. Além das lesões causadas pelos espancamentos, observou que os prisioneiros aparentavam não ter se alimentado por longos períodos.
De acordo com o Comitê Público Contra a Tortura em Israel (PCATI), cerca de 2.800 palestinos de Gaza continuam detidos em prisões e centros de detenção israelenses sem qualquer acusação formal.
O encarceramento em massa de palestinos de Gaza sem devido processo foi permitido por mudanças feitas na legislação israelense após o 7 de outubro de 2023. Em dezembro, o parlamento israelense alterou a “Lei dos Combatentes Ilegais” para permitir detenções administrativas sem acusação sempre que um oficial tiver “motivos razoáveis para acreditar” que a pessoa é um combatente ilegal. Essas detenções podem ser prorrogadas indefinidamente.
Advogados israelenses afirmam que o encarceramento em massa de palestinos coincide com uma degradação drástica das condições de detenção — e que isso se tornou uma política de Estado.
“De modo geral, a quantidade e a intensidade das torturas e abusos nas prisões e campos militares israelenses dispararam desde 7 de outubro. Vemos isso como parte da política conduzida por autoridades israelenses como Itamar Ben-Gvir e outros”, afirmou Tal Steiner, diretora executiva do PCATI.
Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de extrema direita, vangloriou-se de fornecer o “mínimo de comida possível”. “Estou aqui para garantir que os ‘terroristas’ recebam o mínimo do mínimo”, escreveu ele em uma publicação nas redes sociais em julho.
Apesar dos abusos intensos sofridos nas prisões, foi em Gaza que muitos dos detentos sentiram ter enfrentado a pior das torturas.
Ao ser libertado, Radee tentou ligar para sua esposa, mas descobriu que o telefone dela estava fora de serviço. Em seguida, soube que sua esposa e todos os seus filhos, exceto um, haviam sido mortos em Gaza durante sua detenção.
“Fiquei muito feliz por ter sido libertado, porque a data coincidiu com o terceiro aniversário da minha filha mais nova, Saba, no dia 13 de outubro. Eu havia planejado fazer para ela o melhor presente, para compensar o aniversário anterior, que não pudemos celebrar porque a guerra havia começado”, disse Radee.
“Tentei encontrar alguma alegria por ter sido libertado nesse dia, mas, infelizmente, Saba se foi com minha família — e a minha alegria foi com ela”, concluiu.
* Seham Tantesh é um repórter baseado em Gaza. William Christou é correspondente baseado em Beirute e investiga questões de direitos humanos e migrações; ele escreveu de Jerusalém. Reportagem publicada no The Guardian em 14/10/2025.
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