Assentos sanitários, brinquedos e presilhas de cabelo: o bloqueio total de “israel” a Gaza

Um ano após o chamado cessar-fogo, os palestinos ainda têm dificuldade para encontrar itens do cotidiano, enquanto as restrições mantêm bens básicos e não essenciais fora do mercado

05/10/2026

Palestinos seguem com suas atividades diárias sob a chuva na Cidade de Gaza, em 1º de outubro de 2026 (Mohammed M Skaik/JNA Press via Reuters)

Por Maha Hussaini*

Um assento sanitário é tudo o que separa Dima Awad de deixar sua tenda improvisada antes da chegada do inverno.

A mãe palestina de 48 anos alugou uma pequena garagem na parte oeste da Cidade de Gaza e já levou a maior parte de seus pertences para lá.

Mas ela não pode se mudar até encontrar um assento sanitário, algo que se tornou cada vez mais difícil de achar em Gaza.

O item básico está entre uma série de bens essenciais que Israel continua impedindo de entrar no enclave sitiado.

“Paguei o aluguel há cerca de 10 dias e estou procurando um vaso sanitário adequado por um preço acessível há aproximadamente duas semanas”, disse Awad, que hoje vive apenas com seu filho, depois de ter sido separada do marido, que viajou para tratamento médico durante o genocídio.

“Claro que não há como encontrar um assento sanitário novo por um preço acessível agora. Os usados também são inadequados e continuam caros.”

Devido à escassez, os assentos sanitários em Gaza agora custam entre 1.500 e 2.000 shekels (US$ 486-648).

“Fiz tudo o que era possível para sair da tenda, para que não ficássemos encharcados pela água da chuva como aconteceu no ano passado. Mas a garagem que encontrei não tem banheiro, então temos que construir o nosso próprio”, disse Awad ao Middle East Eye.

“Considero o aluguel da garagem acessível depois de todos os outros apartamentos com preços impossíveis que tentei alugar. Custa cerca de 600 shekels (US$ 194) por mês. Mas agora tenho que encontrar um vaso sanitário que custa o dobro do aluguel.”

Uma lista fantasma de itens proibidos

Após impor seu bloqueio à Faixa de Gaza em 2007, Israel proibiu ou restringiu a entrada de numerosos itens, classificando-os como bens de “uso duplo”, que poderiam potencialmente ser utilizados para fins militares.

Entre eles estavam materiais de construção, bombas de água e esgoto, equipamentos elétricos, geradores, equipamentos médicos, cadeiras de rodas, muletas e outros itens necessários para a vida civil básica.

Nos dois primeiros anos do genocídio iniciado em outubro de 2023, Israel fechou as passagens de Gaza e restringiu severamente a entrada de mercadorias comerciais e ajuda humanitária, incluindo alimentos, medicamentos, combustível e outros suprimentos essenciais.

Pelo acordo de cessar-fogo de outubro de 2025, Israel era obrigado a suspender suas restrições e facilitar o fluxo de ajuda humanitária internacional para Gaza.

No entanto, quase um ano depois, amplas restrições permanecem em vigor, inclusive sobre medicamentos, abrigos, materiais de reconstrução e outros itens essenciais e não essenciais.

Uma série de itens civis e humanitários de uso cotidiano continua tendo sua entrada negada por meio do que trabalhadores humanitários descreveram como uma “lista fantasma”.

As restrições não se limitam a bens com usos humanitários ou de reconstrução evidentes. Elas se estendem a objetos aparentemente comuns do dia a dia, como pilhas, isqueiros e brinquedos infantis.

“Tenho um isqueiro que todo o acampamento pega emprestado sempre que precisa acender fogo para cozinhar”, disse Imad Sersawi, um palestino de 45 anos deslocado do bairro de Shujaiya.

“Hoje, quem tem um isqueiro é considerado rico, porque um único isqueiro custa 90 shekels (US$ 29)”, acrescentou.

“Você sequer o encontra facilmente nos mercados porque eles não são autorizados a entrar há meses.”

Itens desaparecendo

Pai de cinco filhos, Sersawi disse que cada vez mais produtos estão desaparecendo dos mercados de Gaza, tornando a vida cotidiana cada vez mais incerta.

“Um dia você encontra algo; no dia seguinte ele é proibido e desaparece por Deus sabe quanto tempo. Algumas coisas não são autorizadas a entrar há anos”, disse.

“Por exemplo, não compro brinquedos para meus filhos desde o início do genocídio. Antes do acordo de cessar-fogo, eles choravam e pediam brinquedos, e eu os repreendia por não entenderem a situação e pedirem coisas indisponíveis”, explicou.

“Eu costumava dizer a eles que, quando a guerra acabasse, compraria brinquedos.”

Mas mesmo após o acordo de cessar-fogo, Israel continuou impedindo a entrada de brinquedos em Gaza.

Hoje, as lojas de brinquedos vendem o que restou do período anterior à guerra por preços exorbitantes.

“Não posso comprar uma pequena bola de borracha por 100 shekels [US$ 32]. Esse valor alimentaria toda a família por dois dias”, continuou Sersawi.

“As pessoas fora de Gaza podem dizer que faltam necessidades básicas e que estamos nos concentrando nessas coisas secundárias. Mas a realidade é que estamos sendo privados tanto do essencial quanto do não essencial.”

O sistema que regula essas restrições continua opaco.

Israel não publica uma lista abrangente e atualizada de itens de uso duplo desde 2017, enquanto centenas de produtos foram adicionados às restrições sem serem divulgados publicamente.

Na prática, organizações humanitárias e comerciantes têm sido obrigados a lidar com um sistema em que mercadorias podem ser rejeitadas porque não se enquadram na categoria humanitária ou são consideradas de “uso duplo”.

‘Transformando as coisas mais simples em uma luta’

Objetos cotidianos que normalmente seriam considerados banais também se tornaram difíceis de encontrar.

Baidaa Othman, jornalista palestina, precisou viajar por duas províncias para encontrar uma presilha tipo garra para cabelo, acabando por pagar cerca de dez vezes seu preço original.

“Agora não se trata apenas de conseguir obter as necessidades básicas. Chegamos a um ponto em que, quando você quer comprar algo muito simples, precisa fazer esforços extraordinários para encontrá-lo”, disse Othman ao MEE.

“Atualmente, até as coisas mais simples, tão básicas quanto uma presilha de cabelo, tornaram-se difíceis de encontrar. Além de todas as necessidades básicas indisponíveis em Gaza, agora até os objetos cotidianos nos quais ninguém normalmente pensaria duas vezes se tornaram indisponíveis.”

Em um vídeo no Instagram, Sojood Hasan, fisioterapeuta palestina em Gaza, destacou como as restrições às presilhas de cabelo refletem uma perda mais ampla das escolhas cotidianas para as mulheres da Faixa.

“Ninguém entra em colapso porque falta uma presilha de cabelo. Mas a sensação de que sua vida não está em suas mãos pode desgastá-la”, disse a jovem.

Para Othman, que é originalmente da Cidade de Gaza e continua deslocada em Deir al-Balah, no centro de Gaza, depois que sua casa foi destruída, a necessidade de um item tão comum é inseparável das realidades diárias do deslocamento.

“Além do deslocamento e de todas as dificuldades que enfrentamos, incluindo ter que cozinhar com lenha, é natural que as mulheres queiram prender o cabelo para mantê-lo longe do rosto e do pescoço no calor. Portanto, isso já não é mais um item secundário”, afirmou.

Uma presilha que antes custava cerca de quatro shekels (US$ 1,30) lhe custou 45 shekels (US$ 14,50).

“A ocupação israelense sabe exatamente o que está fazendo”, disse Othman.

“Isto não é algo aleatório; é uma política de transformar até as coisas mais simples em uma luta para os habitantes de Gaza.”

* Maha Hussaini é uma jornalista premiada e ativista de direitos humanos baseada em Gaza. Maha iniciou sua carreira jornalística cobrindo a invasão militar de “israel” à Faixa de Gaza em julho de 2014. Em 2020, recebeu o prestigioso Prêmio Martin Adler por seu trabalho como jornalista freelancer. Reportagem publicada no Middle East Eye em 05/10/2026.

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