Documento interno mostra que a União Europeia buscou proteger “israel” de sanções
Apesar das demagogias, bloco europeu é o maior parceiro comercial do regime genocida, alimentando sua máquina de exterminar palestinos
Manifestantes exigem ação da UE contra Israel. (Foto: David Cronin)
Por David Cronin*
Um documento interno revela que funcionários da União Europeia se empenharam consideravelmente para assegurar a Israel que continuariam cooperando com o país durante a guerra genocida contra Gaza.
Apesar das frequentes declarações sobre como “linhas vermelhas” não devem ser cruzadas, a UE até agora recuou de sancionar coletivamente o Estado israelense, enquanto este massacra e leva a fome aos palestinos.
A determinação em preservar uma abordagem de “negócios como sempre” fica evidente em um documento de setembro de 2024, obtido por meio de um pedido de acesso à informação.
Altos funcionários de Bruxelas se reuniram naquele mês com Dror Bin, chefe da Autoridade de Inovação de Israel. Notas de instrução preparadas para a reunião exaltavam a parceria da UE com Israel em pesquisa científica como “excelente e benéfica para ambas as partes”.
O documento deixa claro que a Comissão Europeia – o braço executivo da UE – desejava preservar e até fortalecer essa parceria.
Para a UE, é “extremamente importante” trabalhar com Israel, pois este possui uma “capacidade de inovação de alto nível”, afirma o documento. Com 5,44% do produto interno bruto, o gasto de Israel em pesquisa e inovação é consideravelmente superior à média de 2,26% da UE nos seus 27 países.
Em vez de conter detalhes específicos sobre o genocídio em Gaza, o documento limitou-se a mencionar “o atual conflito no Oriente Médio”.
Grupos de solidariedade à Palestina e numerosos acadêmicos pediram que Israel fosse expulso do Horizonte Europa, o programa de pesquisa científica da UE. Ainda assim, o documento ressaltou que a Comissão Europeia se opunha a esses pedidos.
Encerrar a participação no programa “apenas com base na nacionalidade deve ser considerado como uma rescisão imprópria” e “equivalente a discriminação”, afirma o documento (veja aqui).
O argumento aqui apresentado revela o viés pró-Israel das instituições da UE.
O genocídio em Gaza envolve racismo em sua forma mais crua. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, repetidamente o enquadrou como uma guerra da “civilização contra a barbárie”. Em certo momento, ele invocou a Bíblia para aparentemente ameaçar toda uma população com aniquilação.
Embora os palestinos sejam vistos como “animais humanos” que podem ser massacrados em massa, a UE tem se empenhado em retratar Israel – o Estado que executa o genocídio – como uma possível vítima de discriminação.
“Imensa pressão”
A formulação usada pela UE se assemelha bastante à linguagem presente em um apelo feito pela Associação dos Reitores de Universidades de Israel alguns meses antes.
Em junho do ano passado, essa associação classificou os pedidos para excluir Israel das atividades de pesquisa da UE como “tratamento discriminatório”.
A associação enviou dois apelos naquele mês a Iliana Ivanova, então comissária da UE responsável pela pesquisa científica. Uma das cartas afirmava que “os coordenadores de projetos da UE têm sido úteis ao resistir aos pedidos de exclusão de participantes israelenses do financiamento da UE, mas estão sob imensa pressão e precisam de orientação”.
A “imensa pressão” refere-se quase certamente à enorme indignação pública diante dos horrores infligidos por Israel a Gaza.
Em resposta a essa pressão, a Comissão Europeia finalmente propôs, em 27 de julho deste ano, que Israel fosse “parcialmente” suspenso da cooperação em pesquisa.
A proposta – rejeitada pela Alemanha, maior aliada de Israel entre os governos da UE – teria se aplicado a pequenas empresas que produzem tecnologia com possível aplicação militar.
Pelas regras atuais, todos os projetos de pesquisa financiados pela UE são nominalmente limitados a uso civil.
A Comissão Europeia, no entanto, vem avaliando ampliar seu programa de pesquisa para que o desenvolvimento de armas possa ser financiado.
O documento preparado para a já mencionada reunião entre funcionários de Bruxelas e a Autoridade de Inovação de Israel observa que essa ampliação foi abordada durante uma conversa anterior com diplomatas representantes do governo Netanyahu.
Durante essa conversa anterior – realizada em abril de 2024 – os israelenses expressaram preferências sobre como a pesquisa da UE com possível dimensão militar deveria ser conduzida, e ficou acordado que haveria novas consultas sobre o assunto.
Há apenas uma forma possível de interpretar essa informação: a União Europeia vem discutindo o desenvolvimento futuro de armas com Israel, num momento em que esse Estado conduz uma guerra de extermínio.
Após o novo anúncio de Netanyahu de que está expandindo a guerra contra Gaza, o chanceler alemão Friedrich Merz proibiu o fornecimento de armas a Israel se elas forem destinadas ao uso em Gaza.
A proibição de Merz não diminui a responsabilidade do establishment político de Berlim. Os EUA e a Alemanha foram os dois maiores exportadores de armas para Israel antes do genocídio e ambos mantiveram o fluxo de armamentos desde outubro de 2023.
Também não se deve esquecer que Merz recentemente elogiou Israel por fazer o “trabalho sujo” do Ocidente. Embora sua observação estivesse focada no Irã, os ataques a esse país não podem ser dissociados das décadas de subjugação que Israel impôs aos palestinos.
Toda a violência de Israel pode ser considerada como trabalho sujo. Trabalho sujo no qual a Europa tem sido conivente há décadas.
* Reportagem publicada no portal The Electronic Intifada em 12/08/2025.
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