Em pleno genocídio de Gaza, Egito assina acordo recorde de US$ 35 bilhões para compra de gás israelense

O gigantesco acordo fará com que o Egito redobre sua dependência energética das exportações de gás israelense, mesmo com o genocídio em Gaza tensionando as relações bilaterais.

13/08/2025

O presidente do Egito, Abdel Fattah El-Sisi, participa da 34ª cúpula da Liga Árabe em Bagdá, em 17 de maio de 2025. (Foto de Hadi Mizban/Pool/AFP via Getty Images)

Por Emma Scolding e Sara Seif Eddien*

Um acordo de gás de US$ 35 bilhões anunciado na quinta-feira fará com que o Egito redobre sua dependência energética dos campos israelenses, como ampliação de um acordo histórico de 2018 entre os dois países.

Pelos termos do acordo, o lado egípcio pagará cerca de US$ 35 milhões a mais por bilhão de metros cúbicos do que pagava no acordo anterior — um aumento de 14,8%, segundo cálculos do Mada Masr.

Ao longo do contrato, que vai até 2040, o Egito importará mais 130 bilhões de metros cúbicos de gás natural do campo Leviatã, em Israel.

O acordo, ainda pendente de expansão essencial da infraestrutura de gasodutos e extração, foi anunciado como parte de uma divulgação a acionistas pela empresa israelense NewMed Energy, parceira no desenvolvimento do campo Leviatã.

O contrato encerra meses de negociações para ampliar o volume de gás israelense canalizado para o Egito, a fim de ajudar o governo a suprir a crescente demanda interna de energia. As conversas prosseguiram em paralelo à guerra genocida de Israel contra a Faixa de Gaza, mesmo com o conflito tensionando as relações bilaterais.

O acordo de 2018 fez com que a empresa egípcia Dolphinus Holdings se comprometesse a pagar US$ 15 bilhões por cerca de 64 bilhões de metros cúbicos de gás natural israelense ao longo de 10 anos para a Delek e a Noble Energy, parceiras na gestão dos campos marítimos Tamar e Leviatã.

O comprador citado pela NewMed no aviso aos acionistas desta quinta-feira é a Blue Ocean Energy, empresa que o Mada Masr revelou, em investigação de 2018, ser uma subsidiária da Dolphinus Holdings. Na época, Dolphinus e Blue Ocean se associaram à East Gas — de maioria acionária dos Serviços Gerais de Inteligência — para importar e revender o gás israelense.

As duas partes vinham negociando há meses o aumento do volume de gás enviado de Israel ao Egito, disseram ao Mada Masr um ex-funcionário do Ministério do Petróleo e uma fonte do governo no início deste ano. As fontes previam que o Egito acabaria cedendo à exigência israelense de um preço mais alto por milhão de unidades térmicas de gás natural, já que o gás canalizado de Israel permanece como a alternativa mais barata para reforçar o abastecimento tão necessário.

No entanto, o aviso de quinta-feira alerta que “não há garantia” de que o contrato será cumprido, dado que há condições pendentes.

Essas condições incluem as expansões previstas do gasoduto Ashdod-Ashkelon e do próprio campo Leviatã.

O acordo para expansão do gasoduto foi assinado em 2021, mas sua conclusão vem sendo repetidamente adiada. Enquanto isso, a ampliação do campo Leviatã aguarda uma decisão final de investimento e um contrato de transmissão com a Israel Natural Gas Lines, órgão estatal responsável pelo gasoduto.

Segundo o aviso, essas condições devem ser atendidas até 30 de setembro de 2025 para que o contrato avance. As partes poderão acionar uma prorrogação de seis meses desse prazo, se necessário.

O acordo surge em meio ao aumento da conta de importação de energia do Egito, para suprir a diferença entre produção doméstica e consumo. Cerca de um terço da demanda total precisa ser coberta com importações adicionais.

Enquanto o país necessita atualmente de 4 a 6 bilhões de pés cúbicos de gás por dia, a produção local caiu para cerca de 4 bilhões de pés cúbicos, segundo dados publicados no início deste ano pela Joint Organizations Data Initiative, coordenada pelo Fórum Internacional de Energia.

Os campos israelenses já estão comprometidos, por acordos anteriores, a exportar cerca de 4,5 bilhões de metros cúbicos de gás por ano ao Egito. Israel interrompeu o fornecimento repetidas vezes desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023.

A interrupção mais recente ocorreu em junho, durante a guerra de 12 dias de Israel contra o Irã, quando a produção no Leviatã foi suspensa devido a temores de que o Irã pudesse atacar a instalação. Essa paralisação deixou indústrias egípcias sem fornecimento de gás.

Durante toda a guerra genocida de Israel em Gaza, o Egito foi criticado por não fazer mais para pôr fim ao sofrimento e à matança dos palestinos. As tensões chegaram a novos patamares nos últimos meses, à medida que a fome orquestrada por Israel em Gaza se agrava, com manifestantes e críticos exigindo que o Egito abra seu lado da passagem de Rafah para permitir a entrada de ajuda.

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O presidente Abdel Fattah El-Sisi tem rejeitado publicamente essas críticas nas últimas semanas. No início desta semana, ele atacou a comunidade internacional por sua inação e classificou como “fracasso” e “palavras estranhas” as alegações de que o Egito participa do cerco e da fome do povo palestino na Faixa de Gaza.

Diante do déficit energético nos últimos dois verões, o Egito adotou medidas emergenciais, incluindo apagões rotativos programados, o que provocou indignação popular devido à duração das quedas de energia — que chegaram a até seis horas seguidas em alguns casos, em meio ao calor escaldante.

O Ministério do Petróleo complementou a matriz energética de óleo combustível pesado (mazute) e gás natural com a importação de gás natural liquefeito a preços elevados — custo que deve chegar a US$ 19 bilhões neste ano, ante US$ 12 bilhões em 2024, segundo relatório do ministério revisado pelo Mada Masr. Essa mudança cara foi adotada para conter o descontentamento público crescente, disseram funcionários do governo ao Mada Masr.

* Este artigo foi originalmente publicado pelo portal Mada Masr e tem introdução do Drop Site News, de onde foi traduzido. Publicado em 09/08/2025.

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