Exército israelense mata criança de 3 anos a tiros em Gaza e abandona o corpo à beira da estrada

As balas atingiram o olho de Rayan Abu al-Ajeen, arrancando-o, e saíram pela parte de trás de sua cabeça. Após assassinarem a criança, os soldados mantiveram seu pai ferido detido junto ao corpo por horas antes de abandoná-los à beira de uma estrada

23/06/2026

Palestinos caminham entre os escombros de edifícios residenciais destruídos durante a guerra, no campo de refugiados de Jabalia, no norte da Faixa de Gaza, em 12 de junho de 2026 (Reuters/Mahmoud Issa).

Por Fayha Shalash*

Baha Abu al-Ajeen, 32 anos, é agricultor e costuma ir regularmente às suas terras na área de Wadi al-Salqa, cerca de 150 metros da Linha Amarela que Israel estabeleceu para demarcar a posição de suas forças dentro da Faixa de Gaza após a guerra genocida de outubro de 2023.

Às 18h de domingo, Baha saiu de casa em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, como de costume, levando seu filho de três anos, Rayan, e seu cunhado, Khaled Abu Gharaba, para verificar suas terras agrícolas. No entanto, a viagem terminou em tragédia.

A família Abu al-Ajeen acusa o exército israelense de sequestrar seu filho e seu pai e de atirar contra eles sem qualquer justificativa, resultando na morte da criança e no ferimento do pai.

Nawaf Abu al-Ajeen, patriarca da família e parente de Baha, disse ao Middle East Eye que os três ficaram chocados ao ver soldados israelenses posicionados dentro de uma casa na área. Os soldados abriram fogo diretamente e sem qualquer aviso.

As balas atingiram imediatamente o olho de Rayan, arrancando-o, e saíram pela parte de trás de sua cabeça, disse al-Ajeen. Outra bala atingiu seu pai na perna.

Segundo al-Ajeen, os soldados deixaram os familiares sangrando sem fornecer qualquer tratamento médico e, em seguida, prenderam os três e os transportaram em veículos militares para a base militar de Kissufim.

“A criança morreu instantaneamente após ser baleada na cabeça enquanto estava nos braços do pai. Baha foi deixado sangrando sem qualquer assistência médica; eles simplesmente amarraram um pedaço de pano em sua coxa e não fizeram mais nada”, afirmou.

Baha permaneceu detido, segurando o corpo do filho nos braços durante todo o tempo, junto com Khaled, que também estava preso. Depois, à meia-noite, os soldados abandonaram Baha, ferido, e seu filho morto na Rua Salah al-Din.

“Soubemos por testemunhas oculares que soldados haviam abandonado um homem ferido e seu filho na Rua Salah al-Din. Esperávamos que fossem Baha e Rayan, então fomos até lá e encontramos a criança morta por um ferimento de bala no olho e Baha ferido na perna”, explicou Nawaf.

Eles foram levados ao Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, onde Rayan foi oficialmente declarado morto. Constatou-se que Baha havia sido baleado na perna, e os médicos do hospital instalaram um dispositivo para estabilizar a fratura. Ele continua hospitalizado.

“Enterramos a criança na tarde de segunda-feira e levamos seu corpo para sua mãe enlutada, que ainda está em um estado terrível, incapaz de acreditar no que aconteceu. Um dia comum transformou-se em um inferno vivo que jamais esqueceremos”, disse ele.

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Khaled continua detido, sem que haja qualquer informação sobre seu paradeiro ou condição.

O exército israelense alegou no domingo à noite que havia disparado contra integrantes de uma célula armada que tentava se aproximar da Linha Amarela.

Khalil al-Daqran, porta-voz do Hospital dos Mártires de Al-Aqsa, em Deir al-Balah, disse ao MEE que a sala de emergência recebeu um homem e o corpo de seu filho de três anos após a meia-noite.

“A bala atravessou a cabeça da criança, e ela chegou já sem vida, horas depois. O pai está em condição estável, com um ferimento na perna, e está recebendo tratamento”, acrescentou.

Crimes de guerra

O Escritório de Direitos Humanos da ONU afirmou, em um relatório divulgado em maio, que aproximadamente um terço dos palestinos mortos por Israel desde a entrada em vigor do acordo de cessar-fogo em outubro foi morto em áreas próximas à linha de cessar-fogo com o Hamas, levantando preocupações de que as forças israelenses estejam atirando contra civis simplesmente por se aproximarem da região.

O órgão explicou que “tais ações constituiriam homicídios ilegais e, portanto, crimes de guerra”.

Ajith Sungay, diretor do Escritório de Direitos Humanos da ONU no território palestino ocupado, descreveu esse padrão como “perturbador”.

“Os civis não parecem ter representado qualquer ameaça à vida dos soldados israelenses, inclusive em alguns casos em que parecem ter sido alvejados enquanto realizavam atividades cotidianas, ou após se aproximarem ou cruzarem o que é conhecido como a ‘linha amarela’ israelense”, acrescentou em um comunicado à imprensa.

Dados da ONU indicam que 453 pessoas foram mortas desde o cessar-fogo até 5 de fevereiro, incluindo 152 palestinos — 102 homens, 15 mulheres, 24 meninos e 11 meninas — nas proximidades da Linha Amarela.

Alaa Skafi, diretor da Associação Al-Dameer para os Direitos Humanos em Gaza, disse ao MEE que 65% da Faixa de Gaza está atualmente classificada por Israel como zonas “amarela” e “vermelha”.

Qualquer pessoa que se aproxime dessas áreas ou da Linha Amarela é alvo de disparos ou presa sob o pretexto de estar se aproximando de posições do exército israelense, embora não represente ameaça alguma aos soldados, afirmou ele.

“Os civis são alvejados por franco-atiradores, projéteis de tanques ou drones”, explicou.

Embora Israel coloque blocos de concreto amarelos em áreas próximas ao que é conhecido como Linha Salah al-Din, que divide a Faixa de Gaza entre leste e oeste, ele desloca esses blocos diariamente para o oeste e depois atira contra civis sob o pretexto de que eles estão se aproximando deles.

“Israel utiliza justificativas prontas para legitimar a morte de civis perto da Linha Amarela e emprega novos métodos de matar, seja por meio de soldados ou de integrantes de grupos armados afiliados a ele”, concluiu Skafi.

Desde a assinatura do acordo de cessar-fogo, em 11 de outubro, entre Israel e o Hamas, o exército israelense matou 992 palestinos e feriu 3.144, segundo dados divulgados na segunda-feira passada pelo Ministério da Saúde palestino.

* Faya Shalash é uma jornalista palestina baseada em Ramallah, na Cisjordânia Ocupada, de onde reportou para o Middle East Eye. Matéria publicada em 16/06/2026.

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