Gaza é um espelho que reflete a vergonha absoluta do mundo

Netanyahu foi autorizado a transformar alimentos em alavancagem e a tratar o alívio de uma população sitiada como um prêmio a ser trocado. Isso não é apenas imoral ou ilegal, é obsceno.

27/07/2025

Uma menina palestina reage ao pedir comida em uma cozinha de caridade, em meio a uma crise de fome, na Cidade de Gaza, 7 de julho de 2025 (Reuters)

Por Soumaya Ghannoushi*

Razan Abu Zaher morreu de fome.

Ela tinha quatro anos.

Morreu no chão de um hospital em ruínas, suas costelas minúsculas subindo e descendo como asas frágeis demais para levantar voo. Seu corpo já não tinha mais gordura para queimar. Seus olhos estavam fundos. Sua voz — antes um sussurro de riso — há muito havia desaparecido.

Ela não morreu rápido. Morreu devagar.

Morreu sob o olhar da mãe, que implorava para que aguentasse. Sob o olhar de um médico que já não tinha seringas, nem soro, nem palavras. E sob o olhar de um mundo que assistiu — e depois se virou.

Sua morte não foi uma tragédia. Foi uma sentença, escrita não às pressas, mas como política de Estado.

Razan não está sozinha. É uma entre milhares.

Entre março e junho — já em plena vigência do bloqueio total — a agência da ONU para refugiados palestinos, a Unrwa, examinou mais de 74.000 crianças em Gaza. Mais de 5.500 foram diagnosticadas com desnutrição aguda severa. Mais de 800 estavam em estado crítico.

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Isso meses depois de a comida ser declarada uma ameaça. Depois de a farinha virar contrabando e o leite virar lembrança, agora crianças morrem nos braços de seus pais.

Mães seguram bebês que já não choram mais.

Pais cavam sepulturas com as próprias mãos, sussurrando canções de ninar na poeira.

Gaza foi sitiada pela fome, pela morte, pela traição árabe e pela perfídia internacional.

Os que não morrem sob bombas estão morrendo de fome — ou de doenças.

E ao fundo: tiros. Porque nem a fome é segura em Gaza.

Fome como arma

Isso não é uma fome comum. É fome armada. O estrangulamento deliberado de um povo — não com corda, mas com burocracia.

Não apenas com bombas, mas com sabotagem logística.

Israel bombardeia padarias, ataca comboios de ajuda, destrói plantações e bloqueia remessas de alimentos com precisão cirúrgica.

Faz Gaza passar fome com a mesma precisão com que a mata.

Sim, a história já conheceu a fome como arma, mas o que acontece em Gaza não tem precedentes.

Nunca na história recente uma população civil foi trancada em uma faixa de terra cercada — privada de comida, água e combustível — enquanto é bombardeada por ar, terra e mar.

Isso não é um cerco. É o primeiro extermínio televisionado do mundo.

Um campo de concentração sob ataque aéreo constante.

Na Bósnia, a fome era usada para quebrar a vontade. No campo de extermínio de Omarska, 700 dos 6.000 presos morreram de fome e tortura.

Em Srebrenica, a comida foi negada deliberadamente. Um soldado servo-bósnio admitiu: “Percebemos que não eram armas sendo contrabandeadas para Srebrenica o que nos devia preocupar, mas comida.”

Antes da Bósnia, o Plano de Fome nazista visava exterminar judeus e civis soviéticos. Sete milhões morreram — não como dano colateral, mas por desígnio.

Como observa o sociólogo Martin Shaw, Israel está seguindo o padrão do genocídio nazista, descrito por Raphael Lemkin em seu livro Axis Rule in Occupied Europe (1944): “Uma luta diária, literalmente, por pão e pela sobrevivência física”, que “prejudicaria a capacidade de pensar em termos gerais e nacionais”.

Isso não é apenas um ataque a corpos. É uma guerra contra a consciência.

Jornalistas famintos

Uma fome destinada não apenas a matar, mas a esmagar a capacidade de pensar, de organizar, de ter esperança.

Até os jornalistas estão famintos.

Correspondentes da Al Jazeera expuseram sua própria fome: “Trazemos as notícias enquanto estamos com fome. Não comemos um só pedaço de comida desde ontem.”

Quando o observador se torna vítima, quando a fome engole o narrador, a história já passou do estágio de crise — chegou à catástrofe.

Ainda assim, os palestinos continuam a fazer fila por comida — plenamente conscientes do risco mortal.

Eles caminham rumo ao que se tornaram armadilhas de extermínio por fome da Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), locais orquestrados pelo exército israelense.

Vão atrás de um saco de farinha — e voltam como cadáveres.

No domingo, 115 palestinos foram mortos a tiros enquanto buscavam ajuda. Noventa e dois estavam tentando conseguir comida.

Dezenove eram crianças.

Desde 27 de maio, mais de 1.000 palestinos foram mortos e quase 5.000 ficaram feridos em pontos de distribuição geridos pela GHF — onde forças israelenses atiram contra civis famintos.

Um pai — esquelético, em lágrimas, segurando o corpo ensanguentado do filho — foi filmado após serem baleados enquanto esperavam por farinha.

Ele não gritou.

Apenas embalava o menino nos braços, com os tiros ao fundo, sussurrando seu nome — porque era tudo o que lhe restava.

Isso não é uma crise humanitária. É extermínio pela fome. E o mundo ainda insiste que isso é guerra.

Quem são os culpados?

Isso não é guerra. É aniquilação — coreografada, prolongada e permitida.

Quem são os culpados?

Israel lança as bombas e sela os portões. Os Estados Unidos pagam pelas armas e o protegem com vetos.

Mas o laço — o aperto da vida — é mantido por outros também.

Vamos falar da Europa.

Tão orgulhosa de seu Iluminismo. Tão rápida em invocar o “Nunca Mais”. Tão silenciosa quando os corpos são palestinos.

A União Europeia é o maior parceiro comercial de Israel.

Assinou um acordo que prometia que os direitos humanos eram condição para o comércio. Essa promessa hoje é um túmulo.

Sua própria revisão constatou que Israel está em violação. E o que a Europa fez? Nada.

Para mascarar sua cumplicidade, a UE alegou ter feito um acordo humanitário com Israel. Um suposto avanço. Mas não passou de encenação.

Nenhuma ajuda chegou. Nenhum cerco foi suspenso.

Foi uma cortina de fumaça — um gesto destinado apenas a cegar o público, a ganhar tempo enquanto crianças morriam de fome.

Como declarou a Anistia Internacional: “Uma traição cruel e ilegal à lei, à consciência e à própria Europa.”

Isso será lembrado — não como política, mas como cumplicidade. Não como neutralidade, mas como parceria no crime.

E os regimes árabes?

Estão mais próximos. Falam em fraternidade e sangue compartilhado, mas agora são carcereiros, algozes e cúmplices.

Comecemos pelo presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi — o general que virou presidente por meio de um golpe apoiado por Israel. Governa o Egito com gás lacrimogêneo e prisões. Mas, mais gravemente, no Sinai, construiu uma zona tampão para trancar Gaza.

A passagem de Rafah está fechada. Caminhões de ajuda apodrecem sob o sol. Médicos são impedidos de entrar. Crianças estão morrendo — não por falta de ajuda, mas porque ela é bloqueada. Ativistas internacionais são detidos, interrogados e deportados.

Um flash de keffiyeh palestino é crime.

Isso não é segurança. É servidão.

E há também a Jordânia — um reino que vende seu patrimônio com uma mão, e prende seus cidadãos com a outra.

Prendeu professores, estudantes, líderes tribais — por agitarem bandeiras, montarem tendas, organizarem ajuda. Dizem que é para combater a Irmandade Muçulmana.

Na verdade, é para esmagar a Palestina.

O que Sisi faz com postos de controle, a Jordânia faz com tribunais.

Solidariedade virou crime. Submissão, virtude.

Esse é o manual do ditador: obedeça ao Ocidente, acomode Israel.

Depois, tranque seu povo — e faça o que quiser.

Não são espectadores.

São cúmplices — da fome, do cerco, do massacre.

A vergonha nua do mundo

E através de tudo isso — o assassinato lento, a pantomima diplomática — nos disseram para esperar. Para confiar nas negociações.

Mas que tipo de mundo transforma o ato de alimentar crianças famintas em objeto de debate?

Que tipo de diplomacia transforma o pão em moeda de troca?

Foi isso que permitiram ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu fazer — transformar comida em barganha, tratar o alívio de uma população sitiada como um prêmio a ser negociado.

Não foi apenas imoral. Foi ilegal. Foi obsceno.

O acesso humanitário não é um favor a ser concedido. É um dever vinculado pela lei.

Adiar, debater ou reter esse acesso por ganho político é transformar a fome em arma — e a diplomacia em cúmplice de crimes de guerra.

O que acontece em Gaza não apenas viola a lei — a destrói.

Rasga todos os princípios da humanidade, todos os tratados que afirmam defendê-la.

O mundo não apenas falhou com Gaza. Abandonou-a. E ao fazê-lo, expôs a si mesmo.

Gaza não é apenas um campo de extermínio.

Ela é um espelho — e, em seu reflexo, vemos nossa vergonha absoluta, nua e crua.

* Escritora britânica-tunisiana e especialista em política do Oriente Médio. Seu trabalho jornalístico foi publicado no The Guardian, The Independent, Corriere della Sera, aljazeera.net e Al Quds. Artigo publicado em 21/07/2025 no Middle East Eye.

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