Gaza está sendo infestada por ratos

Desde a invasão israelense, em 7 de outubro, Gaza está sendo infestada por ratos, que espalham doenças sobre os escombros

15/06/2025

Palestinos deslocados vivem em tendas em um acampamento montado em um aterro no bairro de al-Yarmouk, na Cidade de Gaza, em 22 de março. Omar Ashtawy/APAimages

Por Ismael Abdel Raouf*

Em dezembro passado, sentei com meu irmão de 12 anos, Louay, no corredor do Hospital Nasser, em Khan Younis, esperando. O hospital estava lotado com dezenas de pessoas, incluindo crianças. Algumas estavam lá para pedir remédios, outras tentavam ver um médico.

Meu irmão estava em péssimas condições.

Mais de uma semana antes, vários ratos pequenos invadiram nossa tenda. Montamos a tenda sobre os escombros da nossa casa em Khan Younis, e ela não oferece muita barreira entre quem está dentro e as pragas do lado de fora.

Os ratos subiram sobre meus três irmãos mais novos, incluindo Louay. Pela manhã, meus pais notaram vestígios da presença dos ratos nos nossos colchões, cobertores, roupas e até na comida.

Eles tiveram que descartar lentilhas, arroz e ervilhas por medo de contaminação. Naquele dia, caminhei até o ponto de distribuição de água a uma hora de distância e voltei com três galões de água só para lavar nossos cobertores.

Minha mãe também deu banho nos meus três irmãos pequenos, tentando evitar qualquer doença. Mas, ao longo da semana, Louay desenvolveu uma erupção cutânea. Essa erupção se espalhou, e os pontos vermelhos viraram feridas que cobriam seu corpo.

Antes de ir ao hospital, fui a uma tenda médica próxima, onde um médico receitou um antibiótico para Louay, mas não tínhamos como conseguir o remédio. Ele não estava disponível em lugar nenhum. Até os suprimentos médicos mais básicos são bloqueados pela ocupação, com apenas pequenos carregamentos permitidos quando Israel concede autorização.

Não tivemos outra escolha senão passar azeite de oliva nas lesões do meu irmão, na esperança de aliviar a coceira e o inchaço. Mas não funcionou. Louay não conseguia dormir direito à noite por causa da coceira constante e dolorosa.

Antibióticos que salvam vidas

Tentamos novamente encontrar antibióticos durante cinco dias e finalmente conseguimos alguns em uma farmácia em Deir al-Balah, a um custo altíssimo — o preço dos antibióticos havia dobrado para 30 dólares desde antes da guerra.

Louay começou a tomá-los, mas sua condição só piorou. Ele estava coberto por grandes manchas vermelhas da cabeça aos pés, e tínhamos medo do que poderia acontecer com ele.

Foi então que meus pais pediram que eu o levasse ao hospital.

O médico do Hospital Nasser ficou alarmado com o estado de Louay. Determinou que provavelmente era uma reação alérgica aos ratos, mas que tinha evoluído para um tipo de infecção bacteriana. Ele disse que não tinha visto um caso assim durante todo este genocídio.

Louay estava em agonia.

Ele foi internado no hospital para receber soro intravenoso como medida básica, mas o médico disse que eles não tinham a medicação necessária no momento por causa do bloqueio, e que aquilo era o melhor que podiam fazer.

Nosso quarto tinha cinco leitos de outros pacientes, separados por cortinas. Eu tinha medo de perder meu irmão, e passei as noites com ele ali.

O reinado dos ratos

As pragas têm sido um problema em Gaza desde os primeiros meses do genocídio, quando o lixo começou a se acumular em aterros próximos aos campos onde as pessoas foram forçadas a viver. Agora que nossas casas estão destruídas, e grandes montes de escombros são mais comuns do que estruturas de pé, ratos e outros roedores têm ainda mais domínio sobre nossos frágeis ambientes de vida.

Segundo as Nações Unidas, “a presença de roedores, incluindo ratos, pode aumentar o risco de disseminação de doenças infecciosas que o sistema de saúde em Gaza pode não estar em condições de tratar”.

Foi apenas por causa do cessar-fogo em janeiro de 2025 que Louay pôde receber o medicamento de que precisava. Sua erupção começou a desaparecer e ele foi voltando ao normal aos poucos. Se não tivéssemos recebido o remédio durante essa breve trégua, meu irmão poderia ter morrido.

Mas agora que o cessar-fogo acabou oficialmente, e nenhum suprimento humanitário ou médico está sendo autorizado a entrar na Faixa, meu primo Yousef, de 15 anos, se viu em um estado semelhante ao de Louay.

Yousef e seus pais foram deslocados de sua casa em Beit Lahiya para uma tenda no bairro de al-Yarmouk, na Cidade de Gaza, não muito longe de um aterro.

Na primeira noite que passaram na tenda, a família acordou com ratos andando sobre eles, e um deles mordeu Yousef.

O pai de Yousef, meu tio Hamdan, tentou encontrar um abrigo melhor para a família, mas todas as escolas, hospitais e ruas estavam cheias de tendas. Eles compraram armadilhas para ratos e as colocaram em vários pontos dentro e fora da tenda.

Yousef acabou tendo que ir ao hospital para avaliar a mordida no pé. O médico disse que, se o tratamento fosse adiado, Yousef poderia morrer.

Os únicos medicamentos disponíveis para Yousef eram antibióticos vencidos. Seu pai os encontrou em uma farmácia, e mesmo com o aviso do farmacêutico de que os medicamentos vencidos poderiam causar danos aos órgãos, a única outra opção era deixar a mordida sem tratamento.

Sua recuperação tem sido extremamente dolorosa, mas somos sortudos por ele ainda estar vivo.

* Escritor residente em Gaza. Publicado em 23/05/2025 no portal The Electronic Intifada.

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