“israel” já manobra para governar Gaza através de gangues anti-palestinas
Grupo financiado e coordenado pela ocupação e ligado à Fundação Humanitária de Gaza busca controlar partes da Faixa de Gaza e já tem esboços de plano de governo que "normaliza" as relações com "israel"
Foto publicada no TikTok por um membro das Forças Populares em 5 de agosto de 2025. (Reprodução/TikTok)
Enquanto se discute quem governará Gaza após a propalada saída de “israel”, em meio às negociações mediadas por Donald Trump, Tel Aviv já molda uma nova realidade no terreno para manter o seu regime de ocupação ilegal.
Nas últimas semanas, várias gangues declararam lealdade a Yasser Abu Shabab, o chefe de uma antiga quadrilha de saqueadores que agora se apresenta como futuro governo de Gaza.
Uma investigação da Sky News descobriu que sua gangue está recebendo alimentos da Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apesar da alegada imparcialidade da organização, que é financiada pelos Estados Unidos e pelo Mossad.
Em entrevistas à rede de TV britânica, um dos principais comandantes de Abu Shabab e um soldado israelense que serve na fronteira de Gaza detalharam como “israel” permite que eles contrabandeiem dinheiro, armas e carros para dentro da Faixa de Gaza.
Já é sabido que o apoio de Tel Aviv a esses grupos tem como objetivo “dividir para conquistar”, garantindo que o regime de ocupação seja mantido sobre Gaza, agora por procuração. E as gangues declaram isso abertamente.
Dinheiro, carros e cigarros
Em meio aos campos de escombros do sul de Gaza, há 50 hectares de vielas rurais e luxuosas vilas. Diferente do resto de Gaza, os moradores locais têm fartura de alimentos.
Foram erguidas instalações médicas, uma escola e até uma mesquita nos últimos meses. Nas redes sociais, residentes exibem maços de dinheiro, smartphones novos e motos importadas.
Esse pequeno bairro é a sede das “Forças Populares”, a antiga quadrilha de Abu Shabab que agora, teleguiada por “israel”, busca tomar o controle da Faixa de Gaza. O golpe é antigo: dá-se uma denominação respeitável para aparentar apoio popular à empreitada, ao passo que tal organização não tem o menor vínculo nem apoio popular e é criada artificialmente pelo inimigo precisamente para esmagar o povo de Gaza.
Em entrevista à Sky News, um alto comandante das “Forças Populares” afirmou que cerca de 1.500 pessoas vivem na base, incluindo de 500 a 700 gângsteres. Hassan Abu Shabab, parente e amigo de infância de Yasser, disse que o recrutamento de novas gangues nas últimas semanas elevou o número de combatentes do grupo em Gaza para cerca de 3.000.
A base fica em um ponto estratégico — ao longo da rota por onde passam os caminhões de ajuda que entram em Gaza pela passagem de Kerem Shalom, um trecho que funcionários humanitários apelidaram de “Beco dos Saqueadores”.
Um relatório interno da ONU, datado de novembro de 2024, identificou Abu Shabab e sua quadrilha como “os principais responsáveis pelo saque sistemático e em larga escala dos comboios”.
Um vídeo mostra membros do grupo descarregando sacos de farinha do Programa Mundial de Alimentos de um caminhão em seu acampamento.
O documento da ONU identificou como principal fonte de renda do grupo o contrabando de cigarros — um dos muitos produtos oficialmente proibidos por “israel” de entrar em Gaza. O preço de um único cigarro chegou, em certos momentos, a 20 dólares.
Um trabalhador humanitário que atuou em Gaza até o início deste ano afirmou ter visto sua equipe negociando com Abu Shabab para garantir a passagem segura dos comboios. “Abu Shabab se fortaleceu com o contrabando de cigarros”, disse. “Num ambiente tão restrito, surgem inevitavelmente figuras como ele.”
Hassan reconhece que o grupo saqueou caminhões e contrabandeou cigarros. Ele justificou o roubo afirmando que a gangue só mirava veículos comerciais que acreditavam estar abastecendo o Hamas. Mas o Hamas é justamente o governo de Gaza, eleito pelo povo de Gaza. Logo, a gangue estava saqueando o que estava indo para o governo de Gaza. Devido a isso, Abu Shabab foi declarado foragido pelo governo de Gaza.
Hassan afirmou à reportagem que foi após confrontos entre a gangue e o Hamas que “israel” começou a coordenar com Abu Shabab o envio de dinheiro, comida, armas e veículos para sustentar sua luta contra o governo de Gaza.
Segundo ele, esses suprimentos vêm de membros da tribo beduína Tarabin, à qual pertencem Abu Shabab e seus tenentes, em “israel”, Egito e Jordânia. Para que os suprimentos entrem em Gaza, os pedidos são enviados a um “escritório de coordenação” administrado pela Autoridade Palestina, que então negocia com “israel” e outros países árabes para garantir a entrada.
“Esse escritório é basicamente uma sala de comunicações […] com a segurança egípcia, a segurança nacional israelense e a segurança jordaniana”, disse Hassan, acrescentando que o mecanismo foi criado especificamente para as “Forças Populares”. “Ele nos fornece armas, dinheiro e tudo o que nosso povo e nossas forças precisam.”
Hassan afirmou ainda que os alimentos são fornecidos gratuitamente por vários “doadores”, incluindo a Fundação Humanitária de Gaza, fachada do Mossad e da CIA, e são entregues ao acampamento por comerciantes. As “Forças Populares” ficam com parte da comida e distribuem o restante em Rafah.
A Sky News encontrou vídeos mostrando pallets de alimentos da Fundação no acampamento de Abu Shabab.
Um soldado israelense em serviço, entrevistado pelo canal britânico de sua base próxima a Kerem Shalom, confirmou que “israel” facilita o fornecimento de comida, armas e dinheiro à gangue.
“A cooperação ocorre principalmente por meio do Shin Bet, ou algum mecanismo estatal oficial”, disse, em condição de anonimato. “Nós apenas levamos a comida e garantimos que chegue a Gaza.” O acampamento fica “a poucos minutos de carro de Kerem Shalom”, segundo ele. “Vai direto para ele [no acampamento das “Forças Populares”], e então ele [Abu Shabab] distribui a comida para Khan Younis, Rafah e outros lugares.”.
A Sky News contatou o soldado após observar interações no TikTok entre membros das Forças Populares e soldados de sua unidade, o Batalhão de Reconhecimento do Deserto (Unidade 585) — estacionado exatamente na fronteira onde os suprimentos são contrabandeados.
“Saudações a Abu Shabab da 585”, escreveu um soldado em um comentário, com um emoji de coração.
“Israel o ajuda, dá granadas, dinheiro, veículos, comida, de tudo”, afirmou o soldado entrevistado pela Sky News.
A rede televisiva rastreou veículos obtidos por Abu Shabab nos últimos meses — SUVs de luxo e motocicletas. Um perfil no TikTok ligado a membros das “Forças Populares” e soldados da 585 publicou repetidamente vídeos de carros com placas israelenses que mais tarde aparecem no acampamento em Gaza.
Em 31 de julho, um vídeo mostrava um Toyota Land Cruiser 2025 com placa israelense; registros confirmam que o carro foi vendido naquele mês.
Em 5 de agosto, o mesmo veículo apareceu em Gaza, em foto (no início desta matéria) posada com Abu Shabab e seus combatentes — sem placa.
Hassan confirmou que é o mesmo carro e disse que o perfil pertence a um comerciante beduíno israelense que contrabandeia veículos para Gaza. “Eu notifico o escritório de coordenação, eles organizam tudo e enviam o carro. Quando chega a Kerem Shalom, a placa é retirada.”
“Dividir e conquistar”
O professor Neve Gordon, especialista em Direito Internacional na Queen Mary University, descreve isso como uma estratégia clássica de ‘dividir e conquistar’:
“A ideia é transformar Gaza em um território controlado por senhores da guerra em diferentes regiões, de modo que não haja unidade entre os palestinos.”
Não está claro quando exatamente Abu Shabab rompeu com o Hamas. A Sky News obteve provas de que ele tentou ingressar nos serviços de segurança do partido em 2010.
Um de seus comandantes, Issam Nabahin, tem um histórico mais longo de militância.
Em 2015, o Hamas o identificou como militante do Estado Islâmico e suspeito de bombardear veículos do partido; em 2016, a inteligência egípcia também o classificou como combatente do ISIS.
“Depois que ele abandonou o terrorismo, se juntou às Forças Populares”, diz Hassan. “Só o conhecemos quando o grupo foi formado.”
Em 9 de junho, foi noticiada sua prisão pelo Hamas. Dois dias depois, a imprensa palestina informou que sua cela havia sido bombardeada por um drone israelense e Nabahin sumiu.
“Aqui estou, vivo e a caminho do sul”, anunciou ele em um vídeo no Facebook em 18 de junho. Dois meses depois, ele voltou a postar — agora a partir do acampamento das “Forças Populares” em Rafah oriental.
Hassan nega que Issam tenha sido preso novamente e também nega qualquer coordenação direta com a Força Aérea de “israel”. Mas a Sky News encontrou indícios de coordenação com “israel” em pelo menos duas batalhas travadas pela gangue.
Em 13 de abril de 2025, uma unidade das “Forças Populares” foi emboscada pela polícia de Gaza enquanto ela revistava uma casa ao sul do acampamento da gangue; quatro gângsteres morreram. Imagens de satélite mostram que na manhã seguinte, o local foi destruído por um ataque aéreo israelense. Outra testemunha relatou que, em 9 de junho, “a Força Aérea interveio” após cerca de meia hora de confronto.
“Queremos comandar tudo”
Enquanto prosseguem as negociações sobre a administração de Gaza após a desocupação israelense, “israel” procura manipular os acontecimentos no terreno — garantindo que mantenha o regime de ocupação em qualquer cenário futuro.
Em junho, as “Forças Populares” negaram que Abu Shabab quisesse formar um governo, afirmando que ele apenas buscava garantir a segurança dos comboios e da população. Mas em entrevista à Sky News, Hassan Abu Shabab falou abertamente sobre reformar o currículo escolar e realizar um referendo sobre a normalização das relações com “israel”.
“Queremos comandar tudo”, disse.
* Fepal, com Sky News.
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