Justiça israelense arquiva o caso do brasileiro-palestino morto em campo de concentração

Walid Ahmed tinha 17 anos, foi sequestrado e mantido preso sem julgamento durante seis meses em uma das mais notórias prisões de “israel”, onde sofreu maus-tratos, passou fome e contraiu sarna e outras doenças até a sua morte, em março de 2025.

25/03/2026

Walid Ahmed, antes do seu sequestro no dia 30 de setembro de 2024. (Foto: redes sociais)

O juiz responsável por analisar o caso sobre a causa da morte de Walid Ahmed, brasileiro-palestino de 17 anos que morreu na prisão israelense de Megiddo em março de 2025, decidiu que ele provavelmente foi submetido à fome. “O fato de que ele provavelmente foi privado de alimentação não pode e não deve ser ocultado”, escreveu o juiz Ehud Kaplan na decisão, conforme noticia o Haaretz.

Apesar disso, Kaplan determinou o arquivamento do caso porque, após uma autópsia realizada no Instituto Nacional de Medicina Forense (Abu Kabir), seria supostamente impossível estabelecer um nexo causal entre seu estado físico debilitado — incluindo estar severamente abaixo do peso, com sarna e infecção — e sua morte. “Diante desse estado de coisas, a investigação sobre sua morte está esgotada”, escreveu o juiz. 

Em outras palavras: segundo o sistema judicial israelense, Walid passou fome na prisão e quando morreu estava doente e muito abaixo do peso (o que é comprovado pela autópsia), mas não é possível saber se foi isso que levou à sua morte. Ele passou fome e morreu com fome, mas não se pode afirmar que ele morreu por causa da fome.

O corpo de Walid ainda está sendo retido por “israel”, embora o Haaretz tenha sido informado já em agosto de que isso não era mais necessário.

A decisão do juiz Kaplan foi proferida no Tribunal de Magistrados de Hadera em dezembro passado, mas estava sob ordem de sigilo que foi parcialmente suspensa após um pedido do Haaretz, por meio dos advogados Tamir Gluck e Nissim Azrad. Mesmo com a ordem de arquivamento da investigação sobre a causa da morte, a polícia afirmou, em resposta ao pedido, que a investigação ainda está em andamento. De qualquer forma, ninguém foi responsabilizado pela morte do menor de idade.

Walid morreu no dia 22 de março de 2025, após seis meses nos cárceres israelenses e um mês antes de completar 18 anos. O seu julgamento também estava previsto para abril.

Um dia antes da morte de Walid, um prisioneiro palestino da mesma prisão foi libertado. No dia 23, ele transmitiu à família de Walid um recado do filho: estava bem de saúde e havia se recuperado dos problemas contraídos na prisão.

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Após três meses na prisão, Walid foi visitado por um médico, que detectou um trauma em sua cabeça. O jovem também reclamou que não estava recebendo comida suficiente. Também estava com sarna havia dois meses. Em fevereiro de 2025, foi visitado novamente por um médico, para tratar a sarna. A autópsia, realizada pelo doutor Daniel Solomon, “israelense” e médico da família, revelou que o jovem ainda tinha erupções cutâneas nas pernas e na virilha, escoriações no nariz, tórax e quadril e sinais de inflamação, talvez causada por infecção.

A perícia, a qual uma reportagem da Fepal teve acesso à época, também constatou uma perda extrema de massa muscular e gordura corporal, evidenciada, de acordo com o relatório, pelo abdômen afundado. Walid ainda sofreu de diarreia induzida por colite e desidratação severa. Além disso, foi verificado um corte no seu pescoço. A causa de tudo isso, segundo o relatório, teria sido exatamente a “fome” e “desidratação” prolongadas (como o próprio Walid reclamava) e a falta de cuidados médicos. O corte no pescoço, no entanto, permaneceu um mistério. Na manhã de 22 de março, conforme o registro médico, ele sofreu uma perda repentina de consciência. Os paramédicos não encontraram sinais vitais, tentaram reanimá-lo e o levaram para uma clínica, apenas para confirmarem a sua morte.

“A autópsia de Walid indica que os guardas da prisão israelense sistematicamente deixaram passar fome e abusaram dele por meses até que ele finalmente desmaiou, bateu a cabeça e morreu”, declarou na ocasião Ayed Abu Eqtaish, diretor do programa de responsabilização do Defense for Children International – Palestine. E disse ao site do órgão: “a fome é uma ferramenta de genocídio, buscando enfraquecer e, finalmente, destruir tanto o corpo quanto o espírito de crianças palestinas detidas em prisões israelenses. A morte de Walid não foi um acidente.”

Uma petição apresentada pela advogada Nadia Daka, exigindo a liberação do corpo, está atualmente sendo analisada pela Alta Corte de Justiça de “israel”. A advogada afirma que nunca lhe foi apresentada uma decisão autorizando a retenção do corpo.

“Este menino morreu porque foi morto por inanição pelo Serviço Prisional de Israel, que o manteve em condições que levaram à sua morte”, disse Daka ao Haaretz. “Isso vem se repetindo e as condições não mudam — enquanto prisioneiros continuam morrendo depois dele em circunstâncias semelhantes. As autoridades estatais e os tribunais não respondem às duras condições prisionais.”

Em julho, o Haaretz relatou evidências sobre as condições de outros detidos na prisão de Megiddo. Cinco apresentavam sintomas semelhantes aos experimentados por Ahmad antes de sua morte.

Outro brasileiro-palestino desnutrido e sob maus-tratos em masmorra “israelense”

Um deles, um menor que concedeu entrevista sob o pseudônimo Ibrahim, foi libertado da detenção após seu peso cair de 65 para 45 quilos. Um parecer de um pediatra da organização sem fins lucrativos Médicos pelos Direitos Humanos, apresentado ao conselho de liberdade condicional, traçou um quadro médico grave, incluindo desnutrição com risco de vida e extrema emaciação. O documento observou que exames laboratoriais mostraram que o menor sofria de anemia e apresentava um Índice de Massa Corporal muito abaixo do normal.

Walid foi sequestrado por soldados israelenses que invadiram a casa de sua família em Silwad, no dia 30 de setembro de 2024. Eles o acusaram de diversos crimes contra a ocupação, um deles o de atirar pedras em soldados.

Ele foi levado para a prisão de Megiddo, um verdadeiro campo de concentração de palestinos. Lá, eles sofrem os mais terríveis rituais de tortura, como choques elétricos, ataques de cães, espancamentos severos e nudez forçada. Muitos não aguentam e precisam ser hospitalizados.

Um relatório de 2024 da Comissão de Assuntos de Detentos e ex-Detentos Palestinos apontou para o uso sistemático de métodos de violência sexual, negligência médica e espancamentos rotineiros. Os relatos são corroborados por inúmeras reportagens jornalísticas – inclusive sobre outros jovens torturados e mortos cujos corpos não foram devolvidos às famílias pelas autoridades israelenses.

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