Palestino relata tortura em “israel”: “não havia um único ponto do meu corpo que não estivesse quebrado”

O jornalista Shadi Abu Sido passou 18 meses sequestrado e sendo torturado por "israel"; guardas o enganaram dizendo que toda a sua família havia sido morta em Gaza

18/10/2025

O jornalista palestino Shadi Abu Sido foi libertado junto com mais de mil outros prisioneiros. (ABC News)

Por Chérine Yazbeck e Chantelle Al-Khouri*

Shadi Abu Sido passou 18 meses em detenção israelense acreditando que toda a sua família havia sido morta em Gaza.

O fotojornalista palestino foi preso por tropas israelenses em 18 de março de 2024, enquanto trabalhava em uma reportagem para a emissora com sede em Beirute Palestine Today.

“[O guarda da prisão] me disse: ‘Eu matei sua família. Eu matei seus filhos. Eu matei sua esposa’”, contou ele.

Atormentado na prisão, Abu Sido passou a acreditar que não tinha mais nenhum familiar vivo para quem voltar.

“Comecei a implorar para que me matassem. Eu desejava a morte”, disse ele.

Na segunda-feira, Abu Sido foi um dos quase 2.000 palestinos libertados de prisões israelenses como parte de um acordo de troca de reféns e prisioneiros.

De acordo com a Associated Press, todos os detidos oriundos de Gaza estavam presos sem acusação formal, e muitos alegaram maus-tratos e abusos sob custódia israelense.

Ao chegar de ônibus de volta a Gaza, Abu Sido encontrou sua cidade destruída e viu cada pessoa sendo recebida por seus entes queridos.

Logo depois, descobriu que tudo o que lhe haviam dito sobre sua família era mentira.

“Fiquei atordoado. Fiquei chocado ao vê-los vivos”, disse.
“Aquela cena era indescritível, além das palavras.”

Prisão foi como “desaparecer em um abismo escuro”

Abu Sido disse que estava trabalhando em uma reportagem em Gaza quando foi preso.

“Eu disse… ‘Por que estão me prendendo? Sou jornalista!’ Eu era um civil fazendo meu trabalho.”

Ele foi preso junto com dezenas de palestinos e jornalistas durante uma incursão das Forças de Defesa de Israel (FDI) no Hospital Al Shifa, o maior da Faixa de Gaza.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) informou que, segundo o grupo palestino de apoio a prisioneiros Addameer, Israel o acusou de ser um “combatente ilegal”, o que ele negou.

Desde 7 de outubro, Israel prendeu milhares de palestinos sob sua Lei dos Combatentes Ilegais — que define como tal qualquer pessoa que possa representar uma ameaça à segurança nacional com base em “causa razoável”.

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Muitos são mantidos por meses sem acusação ou julgamento antes de serem libertados, o que, segundo várias organizações de direitos humanos, viola seus direitos fundamentais.

Usando seu colete de imprensa, o jornalista de 35 anos disse que cooperou com as autoridades.

“Quando fui preso, foi como desaparecer em um abismo escuro”, afirmou.
“Ninguém sabia de mim, e eu não sabia de ninguém.”

Abu Sido relata abuso e tormento

Abu Sido contou que os detentos foram submetidos a abusos físicos e psicológicos por parte dos guardas, incluindo serem amarrados por horas, chutados, socados e espancados com cassetetes.

“Não havia um único ponto do meu corpo que não estivesse quebrado. Nenhuma parte intacta”, disse.

Ele também afirmou que os guardas usavam cães para atacar fisicamente os prisioneiros — mordendo-os, batendo neles, urinando sobre eles e até os agredindo sexualmente.

“A maioria dos prisioneiros perdeu a sanidade. As pessoas começaram a ter alucinações. A maioria enlouqueceu”, contou.

Centenas de detentos já fizeram denúncias semelhantes de maus-tratos e abusos em prisões israelenses.

Segundo o grupo Euro-Med, em 2024 cães foram usados para “intimidar, espancar e agredir sexualmente” os detidos.

“Eles urinaram em nós”: palestinos relatam torturas, fome e sarna nas prisões “israelenses”

Abu Sido afirmou que agora sofre de problemas de visão e audição, além de ferimentos em outras partes do corpo.

As FDI disseram que “não há nenhuma seção no centro de detenção onde cães sejam mantidos junto a prisioneiros” e alegaram que os detentos recebem três refeições por dia.

“As FDI rejeitam completamente as alegações de abuso sistemático dos detentos, incluindo as de abuso sexual”, declarou um porta-voz.

A advogada de direitos humanos e ex-diretora de programas da Human Rights Watch, Sari Bashi, disse à BBC que as condições nas prisões israelenses pioraram muito desde 7 de outubro de 2023.

“Se realmente estão cumprindo os padrões, por que suspenderam as visitas do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cujo trabalho é garantir que os detentos sejam tratados humanamente?”, questionou Bashi.

Ela afirmou que há acesso extremamente limitado a advogados, em meio a um aumento dramático para 4.500 palestinos detidos sem acusação, o que também dificulta saber o que acontece dentro das prisões.

“As pessoas que saem estão com sarna, desnutridas e muito, muito doentes. Relatam tortura e abuso sexual”, disse.

Um porta-voz do Serviço Prisional de Israel afirmou que ele “opera de acordo com a lei e sob a supervisão de órgãos oficiais de controle”.

“Todos os detentos são mantidos segundo os procedimentos legais, e seus direitos, incluindo acesso a cuidados médicos e condições adequadas de vida, são garantidos por equipes profissionalmente treinadas”, disse.

Shadi Abu Sido aponta para uma cicatriz em seu pulso sofrida durante o cárcere. (Foto: ABC News)

“Eu não entendi por que me levaram”

A palestina Mervat Sarhan foi presa e separada de seus cinco filhos em maio, depois que as forças israelenses invadiram a casa da família em Gaza e mataram seu marido.

“Eles viram o pai ser morto, a mãe algemada e levada embora”, contou.
“Meus filhos ainda estão traumatizados até hoje. Sofrem de forte choque psicológico.”

A mulher de 37 anos, de Khan Younis, foi presa por cinco meses, acusada de manter reféns israelenses, o que negou.

“Eu não entendi por que me levaram. Sou uma mulher pacífica. Não havia nada contra mim”, disse.

Sarhan relatou que os detentos eram espancados, pendurados, submetidos a choques elétricos — e que também lhe disseram que seus filhos haviam sido mortos.

Nesta semana, ela se tornou a única mulher palestina libertada no mais recente grupo de prisioneiros.

Ela disse que também acreditou que seus filhos estavam mortos — até se reunir com eles após ser solta.

“Eu rezava para que ainda estivessem vivos… Procurei em todos os lugares até que finalmente, no meio da multidão, os vi — vivos e bem.”

O Serviço Prisional de Israel disse à ABC que não tinha conhecimento das alegações de abuso, e as FDI afirmaram que quaisquer denúncias concretas seriam investigadas.

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Pedido por mais apoio jurídico aos detidos em prisões israelenses

As Nações Unidas afirmaram que pelo menos 75 palestinos foram mortos sob custódia israelense desde 7 de outubro e que a tortura e os abusos têm sido deliberados e sistemáticos.

Israel também devolveu dezenas de corpos de palestinos não identificados, que agora foram levados ao Hospital Nasser, em Gaza.

As autoridades de saúde em Gaza foram obrigadas a publicar fotos dos restos mortais para permitir que familiares os identificassem.

Algumas famílias foram pessoalmente ao hospital em busca de seus entes queridos.

“israel” devolve corpos de prisioneiros palestinos sem órgãos

O funcionário do Ministério da Saúde de Gaza, Sameh Hamad, disse que os corpos recebidos mostravam claros sinais de tortura e execução.

“Vimos com nossos próprios olhos. As mãos e os pés estavam algemados, e os olhos, vendados”, afirmou Hamad.
“Estamos trabalhando para revelar esses crimes cometidos contra os donos desses corpos.”

O Centro Palestino de Defesa dos Prisioneiros pede um reforço no apoio jurídico aos detidos em prisões israelenses e a documentação dos abusos e represálias israelenses.

Desde o início da guerra, eles têm sido amplamente negligenciados juridicamente.

Em 2016, o Comitê da ONU contra a Tortura expressou preocupação de que a legislação pudesse privar “os detentos de garantias legais básicas”.

“… Eles podem ser mantidos em detenção sem acusação por tempo indeterminado, com base em provas secretas que não são disponibilizadas ao detento nem ao seu advogado.”

* Chérine Yazbeck é produtora, fotógrafa, escritora, artista e videojornalista que cobre grandes histórias na região do Oriente Médio desde 1993, baseada no Líbano. Chantelle Al-Khouri é repórter da Australian Broadcasting Corporation (ABC) em Sydney. Reportagem realizada com o apoio da equipe da emissora australiana em Gaza. Publicada no site da ABC em 16/10/2025.

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