PUC-SP: reitoria hostil aos palestinos e protetora do sionismo

Pichações discriminatórias se repetem pelo segundo mês, enquanto reitoria ensaia discurso sionista

27/03/2025

Pichação ocorrida na semana passada no banheiro do campus da PUC-SP. (Foto: redes sociais)

Na semana passada, foi descoberta uma pichação discriminatória em um banheiro do campus da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ela dizia: “hora de limpar RI [Relações Internacionais” e “PUC não é pra árabe”, acompanhadas das frases “a PUC é nossa” e “a reitoria é nossa”, com duas estrelas de Davi.

Como se constatou, a mensagem era dirigida particularmente ao professor Reginaldo Nasser, o único docente de origem árabe no departamento de Relações Internacionais da PUC-SP. Ao site da Fepal, o professor Nasser diz acreditar que a ação tem vínculo com a volta da ofensiva genocida de “israel” em Gaza, reiniciada no dia anterior da pichação.

“As tensões em Gaza aumentam, Israel rompeu com o cessar-fogo, a matança foi reiniciada e eles tentam nos coibir de se manifestar”, afirma. Ele revela ainda que existe um clima hostil dentro da PUC-SP contra os defensores da Causa Palestina, facilitado pela inação da reitoria. “Tem uma hostilidade. Nós fomos objeto de inquérito, e agora há a questão com os alunos, e não estamos tendo respaldo nenhum”, completa.

Após repercussão extremamente negativa, a reitoria divulgou uma pequena nota em que “repudia com veemência toda e qualquer manifestação discriminatória e racista, como a frase contra os povos árabes escrita anonimamente em um dos banheiros da Universidade.”

“Esse ato será apurado internamente com a maior urgência para que medidas cabíveis sejam tomadas”, disse ainda a reitoria, em nota. A Fundação São Paulo (Fundasp), mantenedora da PUC-SP, informou à Fepal que a universidade é a responsável pela apuração dos fatos e a única manifestação sobre o caso será a da reitoria.

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Na avaliação de Fábio Bacila, secretário de Direitos Humanos da Fepal, trata-se de um ato “muito grave”, porque é “uma manifestação aberta de discriminação racial, que é visto por eles [pichadores] como legítimo e aceitável, sendo que é absurda”. Se está reproduzindo em espaços brasileiros “o mesmo racismo e supremacismo sionista que tem em ‘israel’ o seu centro”, completa.

Mas não foi um caso isolado. No final de fevereiro, já haviam sido feitas pichações com os dizeres “as putas palestinas morrem”, “kibutz Ketura vive” (em referência a um assentamento colonial no sul da Palestina ocupada), e “fora terrorista – morte aos árabes”, também em um banheiro da PUC-SP. Naquela ocasião, a instituição não se pronunciou.

O inquérito mencionado pelo professor Nasser foi um caso ocorrido no ano passado. A Fundação São Paulo acatou uma denúncia anônima, acusando Nasser e o professor Bruno Huberman, que é de origem judaica, de antissemitismo (sic. – antijudaísmo). Por não haver nenhum elemento que comprovasse a acusação anônima, chegou-se à lógica conclusão de que não houve nenhum antissemitismo.

“O clima vem se deteriorando desde o ano passado, quando estudantes pró-‘israel’ já vinham declarando hostilidade a qualquer atividade em defesa da Palestina e já havia uma dificuldade de diálogo [de nossa parte] com a reitoria”, explica Huberman à reportagem. Ele próprio percebeu dificuldades e pressões contrárias para reservar espaços para realizar eventos sobre a Palestina e sinais de vigilância externa durante suas aulas sobre o tema. A reitoria trata as iniciativas pró-Palestina com preconceito, como se fossem um fator de incentivo ao antissemitismo (antijudaísmo). “Tem um clima de vigilância e de buscar silenciar esse debate”, continua.

“Desde que a Fundasp acatou uma nova definição de antissemitismo, no mês passado, há um temor muito grande entre os estudantes de fazer qualquer atividade pública e ser acusado de antissemitismo (sic) pela instituição”, aponta o também professor do departamento de RI. “Apesar de ser uma acusação frágil, isso gera um desgaste público, pois a imagem dessas pessoas seria vinculada ao antissemitismo por simplesmente se solidarizarem com a Causa Palestina, como foi o meu caso e o caso de outros, e os estudantes — especialmente os palestinos e, entre eles, as mulheres — encontram-se em uma situação ainda mais frágil e sofrem declarações racistas e machistas.”

Essa nova definição de antissemitismo (sic) encontra-se no protocolo antidiscriminatório publicado pela Secretaria Executiva da Fundação São Paulo em 22 de fevereiro. Ele diz que não serão admitidas na instituição “intimidação, perseguição, agressão física e/ou verbal de nenhuma espécie, inclusive aquelas motivadas por características ou identidade dos indivíduos” nem “discursos ou movimentos que usem ou propaguem estereótipos, bem como que abusem ou usem de insultos raciais, étnicos”, entre outros. Os casos de discriminação contra os árabes ou defensores da Causa Palestina poderiam se enquadrar nesses pontos, embora, como se vê, a Fundasp não faz menção direta a esse tipo de discriminação.

Contudo, a Fundasp dedica um dos pontos seguintes do protocolo especificamente à “prática do antissemitismo”. E adota oficialmente a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para Memória do Holocausto: “toda manifestação retórica e física orientada contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra seus bens, contra as instituições comunitárias e instalações religiosas judaicas, bem como as manifestações contra o Estado de Israel, enquanto coletividade judaica.” O protocolo completa: “críticas ao Estado de Israel, semelhantes e [sic] dirigidas contra qualquer outro país, não serão consideradas antissemíticas.”

O presidente da Fepal, Ualid Rabah, denuncia o avanço fascista do movimento sionista na universidade: “os sionistas estão tornando o campus da PUC-SP território de apartheid, racismo e supremacismo e incitando abertamente ao genocídio do povo palestino, ora em curso em Gaza. Ninguém os parará?”

Ele ainda questiona a inação da PUC-SP sobre os repetidos casos de discriminação e perseguição contra árabes e simpatizantes da Causa Palestina. “A PUC-SP seguirá deixando livres esses racistas incitadores da solução final na Palestina? Até quando eles reincidirão em suas campanhas racistas e de ódio e intolerância? Até que não haja mais palestinos ou árabes, na PUC-SP, na Palestina e nos demais países árabes e no mundo, Brasil incluído? Os autores destes crimes que, no limite, são também de lesa-humanidade, devem ser encontrados e punidos já. Ou eles ou a humanidade!”

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