“Sofrimento silencioso”: por que crianças em Gaza estão perdendo a capacidade de falar

Estima-se que 1,1 milhão de crianças em Gaza precisem agora de apoio em saúde mental e psicossocial, à medida que um número crescente perde a capacidade de falar devido a traumas e ferimentos causados pelos ataques israelenses.

28/04/2026

A psicoterapeuta infantil Katrin Glatz Brubakk, trabalhando com Médicos Sem Fronteiras (MSF), soprando bolhas de sabão com uma criança palestina. [Arquivo: Cortesia de Katrin Glatz Brubakk]

Por Mariem Bah e Ibrahim al-Khalili*

Após um intenso bombardeio atingir a área próxima de sua casa, Jad Zohud, de cinco anos, perdeu subitamente a capacidade de falar.

Ele não está sozinho. Em toda Gaza, especialistas relatam um aumento no número de crianças que já não conseguem falar após ferimentos relacionados à guerra ou traumas psicológicos.

Para algumas, a causa é física — lesões na cabeça, danos neurológicos ou traumas de explosões. Para outras, não há ferimento visível. O silêncio surge após exposição repetida à violência que sobrecarrega sua capacidade de processar ou se comunicar.

A psicoterapeuta infantil Katrin Glatz Brubakk, que trabalhou duas vezes em Gaza com os Médicos Sem Fronteiras (MSF), descreve isso como um “sofrimento silencioso”, frequentemente oculto sob a escala da destruição.

Como o problema está se manifestando?

No Hospital Hamad, na Cidade de Gaza, médicos afirmam que os casos de perda da fala entre crianças estão aumentando.

O Dr. Musa al-Khorti, chefe do departamento de fonoaudiologia do hospital, disse à Al Jazeera que, em alguns casos, “uma criança pode perder completamente a capacidade de falar”, referindo-se a condições como mutismo seletivo ou afonia histérica, que é uma perda funcional da voz ligada a extremo sofrimento psicológico.

Os casos variam, mas muitos seguem um padrão semelhante: perda súbita da fala após violência ou ferimento.

Jad, de cinco anos, não tinha dificuldades de fala anteriormente, disse sua mãe, mas após um bombardeio perto de sua casa, acordou sem conseguir falar — incapaz de formar sons ou palavras.

Jad não está sozinho. Lucine Tamboura, de quatro anos, perdeu a voz após cair do terceiro andar de sua casa quando uma escada, danificada por um ataque aéreo israelense, desabou sob seus pés.

“A queda afetou sua fala e causou paralisia parcial no braço e na perna”, disse sua mãe, Nehal Tamboura, à Al Jazeera. “A perna e o braço se recuperaram, mas ela ainda tem dificuldades com a fala. Estamos continuando o tratamento para isso.”

Médicos alertam que, sem cuidados contínuos, essas condições podem ter efeitos de longo prazo no desenvolvimento, especialmente quando ligadas a traumas psicológicos.

Por que isso está acontecendo?

A psicoterapeuta infantil Katrin Glatz Brubakk afirma que as crianças perdem a fala como resposta a traumas extremos.

“São crianças que foram expostas a traumas extremos e, sem qualquer causa médica, param de falar”, diz ela. “É sempre trauma extremo.”

Ela descreve crianças que perderam familiares, testemunharam mortes, foram feridas ou viveram violência repetida, nas quais o silêncio se torna a única forma de lidar com a situação.

“Em certo ponto, o mundo parece completamente imprevisível, e a criança está em perigo agudo”, afirma. “Não é uma escolha. É uma resposta física.”

Muitas entram no que ela chama de “resposta de congelamento”, na qual o corpo se desliga diante da ameaça.

“O corpo diz: não posso lutar contra isso. As pessoas podem morrer. Eu posso morrer. Então, o mais seguro é ficar imóvel”, diz ela. “É esperar até que o mundo pareça seguro novamente.”

Mas o impacto vai além da perda da fala, explica.

“Se as crianças param de brincar e interagir, elas param de aprender e se desenvolver”, diz. “Eu chamo isso de ferimentos cognitivos de guerra.”

Ela explica que o trauma prolongado mantém o cérebro em modo de sobrevivência: a amígdala — o sistema de alarme do cérebro — permanece em alerta, enquanto os sistemas responsáveis pela aprendizagem e pela regulação emocional são suprimidos.

“Mesmo quando uma criança parece desligada, o sistema nervoso ainda está em alto estado de alerta”, diz. “Com o tempo, isso tem efeitos muito graves no desenvolvimento.”

Gaza é diferente de outras zonas de conflito?

Brubakk afirma que a escala e a totalidade do trauma em Gaza não se comparam a nada que ela tenha visto em mais de uma década de trabalho.

“Trabalho na área há 12 anos, e não há nada que se compare a Gaza. Nada”, afirma. “Não há ninguém em Gaza agora que não seja afetado.”

Ela diz que Gaza é definida por uma completa ausência de segurança.

“Bombas por toda parte, todos afetados, todos em perigo — não há segurança.”

Esse problema, explica, é agravado pelo colapso do sistema de saúde e dos serviços essenciais.

“Você não consegue obter a ajuda de que precisa, física ou mentalmente, e não pode escapar”, diz. “Não há para onde ir. E essa combinação torna o impacto tão severo.”

Para Brubakk, a consequência mais negligenciada não são apenas os ferimentos visíveis, mas o que ela chama de uma “consequência silenciosa de longo prazo” que se desenvolve por baixo deles.

“É fácil mostrar amputações ou curativos”, diz. “Mas este é o sofrimento silencioso. Está em toda parte.”

Em Gaza, afirma, até mesmo a suposição básica de segurança já não existe.

“Não podemos dizer a ninguém que está seguro, porque você não sabe”, diz. “Mesmo com um suposto cessar-fogo, as pessoas continuam sendo mortas. Você nunca sabe quando será a sua vez.”

Como as crianças começam a se recuperar?

Para Brubakk, a recuperação do mutismo relacionado ao trauma é lenta e frágil.

Ela recorda um menino de cinco anos, Adam, que desenvolveu mutismo seletivo após testemunhar a morte de seu pai em um ataque aéreo israelense. Ele parou de falar com qualquer pessoa, exceto sua mãe, comunicando-se apenas em sussurros fracos, e se isolou quase completamente.

No início, recusava qualquer interação. Mas, gradualmente, pequenos sinais de recuperação apareceram.

“Um dia, ele sussurrou para a mãe: ‘Livre-se daquela mulher, eu não gosto dela’”, diz ela. “E eu fiquei realmente feliz, porque isso significava que ele estava reagindo novamente.”

A partir daí, a recuperação veio em fragmentos — breve contato visual, momentos de curiosidade, pequenos passos de volta ao envolvimento, até que lentamente ele reencontrou sua voz.

Brubakk afirma que esse tipo de progresso depende de cuidados estruturados e consistentes, cada vez mais difíceis de fornecer. No Hospital Hamad, al-Khorti diz que crianças com condições como mutismo seletivo necessitam de ferramentas especializadas e reabilitação de longo prazo.

“Essas condições exigem intervenção terapêutica especializada e ferramentas de reabilitação”, disse à Al Jazeera. “Muitas foram danificadas ou perdidas durante a guerra.”

Apesar disso, Brubakk afirma que a recuperação ainda pode começar das formas mais simples.

Uma de suas ferramentas são o que ela chama de “bolhas de esperança” — bolhas de sabão usadas em terapia com crianças retraídas.

“São tão bonitas, e tão tranquilas ao cair lentamente”, diz. “E ajudam as crianças a desviar a atenção do medo.”

Soprá-las também se torna uma forma de regular a respiração e acalmar o sistema nervoso.

“Se você quer bolhas grandes, precisa respirar lentamente”, explica. “Isso se torna uma forma de acalmar o corpo por meio do brincar.”

Ela afirma que essa mudança, do medo para a curiosidade, pode ajudar as crianças a começar a se envolver e relaxar novamente.

“Isso as ajuda a relaxar, dormir melhor, regular o sistema nervoso”, diz. “Coloca-as de volta em um caminho de desenvolvimento.”

Ela se lembra novamente de Adam, com o olhar distante. A recuperação, explica, não ocorre por meio de um único avanço, mas por muitos pequenos retornos quase imperceptíveis.

“É preciso ter paciência”, diz. “Cada pequeno passo importa.”

Em Gaza, afirma, até os menores momentos de segurança têm um peso enorme justamente porque são tão raros.

* Ibrahim Al-Khalili é repórter da Al Jazeera. Ele tem reportado de Gaza desde o início do genocídio em outubro de 2023, perdeu vários membros da família em um ataque israelense mortal contra o prédio de apartamentos deles. Seu irmão Mohammed também foi capturado pelas forças israelenses por 19 meses e só foi libertado em outubro de 2025 como parte de uma troca de prisioneiros. Mariem Bah também é colaboradora da Al Jazeera. Reportagem publicada em 24/04/2026 na Al Jazeera.

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