Vozes dos sobreviventes: testemunhas expõem crimes de guerra israelenses em Gaza
"A coisa mais difícil que já vivi em toda a minha vida foi ver meu irmão ferido e chorando a poucos metros de mim, enquanto eu estava completamente impotente para salvá-lo. Ele permaneceu pendurado nos escombros, sangrando e implorando por ajuda, enquanto a área estava repleta de centenas de feridos. As equipes de resgate não conseguiram alcançá-lo a tempo de salvá-lo. À medida que as horas passavam, tentamos desesperadamente salvá-lo. Ele morreu diante dos nossos olhos."
Destruição causada por "israel" em Gaza. (Foto: Getty Images)
Por Mohammad al-Naami*
“Meu irmão ficou preso entre as paredes da nossa casa, sangrando e pedindo ajuda, mas não havia ninguém que pudesse atendê-lo. Ele ficou suspenso acima dos escombros, entre a vida e a morte; ainda consigo vê-lo agora. Quanto a mim, eu estava impotente para fazer qualquer coisa… Naquela noite, toda a minha família foi morta, apagada do registro civil. Ninguém sobreviveu além de mim.”
Este foi o testemunho de Mohammad Abu Nasser, um jovem que perdeu toda a sua família, além de grande parte das famílias de seus tios, primos e vizinhos, em um massacre brutal cometido pela ocupação em 24 de dezembro de 2023. Naquela noite, duas casas de famílias vizinhas, a oeste do campo de refugiados de Al-Maghazi, no centro da Faixa de Gaza, foram atingidas por bombas massivas, matando mais de 150 pessoas de uma só vez.
As lembranças de mortes e assassinatos ainda assombram os sobreviventes que, por algum milagre, conseguiram escapar da máquina genocida desencadeada pela ocupação. Alguns deles surgiram para contar ao mundo os horrores gravados em suas memórias, enquanto a maioria das histórias permanece enterrada nos peitos daqueles que não sobreviveram, extintas sob os escombros ou repousando em túmulos.
Apagados do Registro Civil
Mohammad Abu Nasser disse:
“A coisa mais difícil que já vivi em toda a minha vida foi ver meu irmão, Izz al-Din, de 17 anos, naquele estado. Eu jamais poderia imaginar assistir a ele ferido e chorando por ajuda a poucos metros de mim, enquanto eu estava completamente impotente para salvá-lo. Ele permaneceu pendurado no que restava dos escombros, sangrando e implorando por ajuda, enquanto a área estava repleta de centenas de feridos. As ambulâncias, equipes de resgate e de defesa civil não conseguiram alcançá-lo a tempo de salvá-lo. À medida que as horas passavam, tentamos desesperadamente salvá-lo. Ele morreu diante dos nossos olhos.”
Como Mohammad foi o único sobrevivente de sua família, encontrou-se diante de uma tarefa inimaginável: os vizinhos começaram a levá-lo de um corpo a outro para que ele pudesse identificá-los. Perguntavam-lhe: “Quem é este?”, para que os nomes pudessem ser registrados nas listas do Ministério da Saúde e escritos nos sudários. Muitos não tinham traços pelos quais pudessem ser reconhecidos; alguns foram identificados apenas pela roupa, outros pelo formato das mãos, enquanto alguns não puderam ser identificados de forma alguma, tendo sido dilacerados em pedaços. Como descreveu Mohammad, a cena era “completamente desumana”, a dor além da compreensão humana.
Quando as bombas maciças lançadas pela ocupação atingiram a casa da família de Mohammad e a de seus vizinhos, toda a área foi transformada em um mar de escombros. Os corpos dos mártires ficaram espalhados por centenas de metros devido à intensidade do bombardeio, a ponto de três irmãs de uma família deslocada que vivia a cerca de 200 metros do local da explosão também terem sido mortas.
O massacre foi tão vasto que os vizinhos continuaram recolhendo o que restou dos membros espalhados entre os escombros durante dias. Mas a tragédia não terminou aí; quando alguns moradores tentaram enterrar os restos no cemitério, aviões de guerra israelenses voltaram a atacá-los, desencadeando outro massacre perto do original.
Sob a Lâmina da Escavadeira
Em uma área próxima do mesmo bairro, várias famílias enfrentaram uma provação insuportável quando as forças de ocupação invadiram repentinamente a área sem aviso prévio e começaram a realizar massacres brutais e execuções sumárias. Adham al-Khattab estava entre aqueles que viveram a invasão. Ele e sua família passaram dias arrepiantes em meio à incursão israelense e ao entrincheiramento militar. A invasão começou de repente, sem folhetos de evacuação ou aviso prévio, e teve como alvo a parte noroeste do campo de refugiados de Al-Maghazi em janeiro de 2024. As forças de ocupação tomaram a maioria dos bairros do campo e rapidamente o transformaram em uma zona militar, deixando as famílias tomadas pelo pânico, sem abrigo seguro ou meios de fuga.
O bairro de Adham foi um dos primeiros a ser atacado. Ele relatou que, no início da invasão terrestre, a ocupação lançou um intenso bombardeio aéreo e de artilharia, acompanhado por tiros disparados de drones quadricópteros. Muitas pessoas foram mortas pelos bombardeios, e as ambulâncias não conseguiam chegar ao local para resgatar os feridos. Em seguida, chegaram os tanques e escavadeiras, iniciando uma vasta campanha de demolição.
“Minha casa foi uma das atingidas pelas escavadeiras”, disse Adham. “Uma escavadeira D9 veio direto em direção à nossa casa e derrubou sua fachada frontal, depois selou as portas e janelas com montes de escombros. Aqueles foram momentos de terror, morte e medo. Podíamos ver cada movimento da lâmina enorme da D9, bem diante de nós, enquanto destruía nossa casa enquanto ainda estávamos dentro. Pensamos que era o fim das nossas vidas. A escavadeira continuou avançando, derrubando partes da casa e enterrando-as. Palavras não conseguem descrever aquele momento. Começamos a recitar a shahada e a nos preparar para a morte, rastejando para o outro lado da casa, na esperança de sobreviver. Apenas depois que ela terminou de demolir a parte da frente e os cômodos voltados para a rua e seguiu para a próxima casa é que sentimos que a morte havia sido adiada por um pouco.”
Adham explicou que sua família ficou presa e teve de permanecer confinada em um único cômodo sem se mover. Passaram os primeiros dois dias cercados por paredes, ouvindo os sons de confrontos, bombardeios e a chegada contínua de tanques e veículos ao redor. Não podiam se mover dentro da casa durante esses dias; os momentos eram repletos de terror, ansiedade e a sensação constante de que a morte estava próxima.
Ele acrescentou que evitaram acender qualquer luz para que os soldados não percebessem sua presença. À noite, a única luz vinha das fogueiras que os soldados acendiam em casas grandes. Eles as queimaram completamente, incluindo a mesquita, e as chamas continuaram durante muitos dias.
As forças de ocupação transformaram algumas casas do bairro em quartéis militares temporários. Gradualmente, a comida e a água acabaram. Permaneceram nesse estado por 17 dias inteiros, toda a duração da presença israelense na área, cercados por medo, fome e terror incessante.
“Ficávamos aterrorizados sempre que os tanques se aproximavam ou ouvíamos as vozes dos soldados”, continuou Adham, “mas tentávamos permanecer calmos e em silêncio. Chegou ao ponto em que desejávamos que a casa desabasse sobre nós, em vez de os soldados nos encontrarem vivos, conhecendo os crimes, execuções e humilhações que a ocupação comete rotineiramente durante suas invasões terrestres.”
Os dias de cerco e invasão se arrastaram. Adham e sua família sofreram, presos em sua casa destruída. Finalmente, os veículos se retiraram em direção ao campo de Al-Bureij, ao norte, permitindo que os sobreviventes finalmente saíssem após uma provação traumática de 17 dias. Quando Adham saiu pela primeira vez após a retirada, ficou atônito:
“Fiquei chocado com a devastação total e os incêndios que haviam mudado a face do bairro. A pior coisa que vi foi o corpo de uma jovem vestindo roupas de oração. Ao lado dela havia algumas bolsas. Parecia que ela estava tentando fugir enquanto as forças avançavam, mas não conseguiu escapar. Os soldados atiraram nela, e seu corpo permaneceu na soleira da porta até começar a se decompor.”
Abater os Famintos
Esse tipo de execução não se limitou às invasões terrestres israelenses. Também foi desencadeado contra os famintos que foram aos centros de distribuição de ajuda estadunidenses, que os palestinos passaram a chamar de “armadilhas da morte”. Milhares de pessoas famintas foram mortas nesses massacres.
Karam Qarnawi foi um dos sobreviventes dos massacres israelenses cometidos em uma dessas “armadilhas da morte”, o centro de ajuda norte-americano na área de Nuseirat (Nisarim). Ele relatou sua experiência ao tentar obter comida para sua família, que não comia havia três dias. Karam explicou que o que finalmente o levou a ir até a “armadilha da morte” em Nisarim – um lugar que ele antes se recusava a se aproximar – foi a fome que havia dominado a ele e sua família:
“Meu filho de três anos tinha começado a mostrar sinais claros de fadiga e doença por desnutrição. Com todas as fontes de alimento esgotadas, decidi tentar conseguir algo para manter minha família viva. Quando me aproximei do centro de ajuda em Nisarim, as forças de ocupação abriram uma barragem de tiros – de franco-atiradores, tanques e até drones quadricópteros – transformando o local em um campo de caça para nós.”
Ele continuou:
“Jovens estavam caindo um após o outro; o sangue cobria o chão. Começamos a correr para o sul, longe do centro de ajuda. A cada passo eu via mais pessoas desabando ao meu redor, atingidas por balas. As pessoas feridas ou mortas — ninguém conseguia alcançá-las para ajudar.”
Karam enfatizou que o objetivo da ocupação não era afastá-los do centro, mas caçá-los. Continuaram atirando neles mesmo depois que tinham recuado centenas de metros da área, além de bombardear com artilharia aqueles que fugiam para salvar suas vidas.
A ocupação então enviou drones quadricópteros, que disparavam diretamente contra eles. Os jovens tentaram fugir entrando em um antigo lagar de azeite na Rua Salah al-Din, ao sul de Wadi Gaza. Acreditando que seria seguro, aglomeraram-se dentro, mas o drone quadricóptero entrou no lagar e abriu fogo contra eles, transformando seu último refúgio em mais uma armadilha da morte.
“Depois que o drone entrou no lagar de azeite”, disse Karam, “um silêncio aterrorizante caiu sobre as centenas de pessoas lá dentro. Todos se esconderam, tentando não fazer barulho. Então o drone lançou uma bomba dentro do lagar, matando e ferindo muitos. Mais bombas se seguiram. Percebemos que, se permanecêssemos ali, todos seríamos mortos, então corremos. Mas os drones nos perseguiram.”
A cena, disse ele, era como uma fuga da morte, que os cercava por todos os lados. Pessoas foram martirizadas e feridas, caindo pelo caminho, até que os poucos que sobreviveram finalmente chegaram às imediações do campo de refugiados de Al-Bureij.
* Jornalista palestino de Gaza. Reportagem publicada no blog do Instituto de Estudos Palestinos em 31/10/2025.
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