Para os palestinos nunca houve cessar-fogo
Mesmo antes deste ataque brutal, "israel" agiu com impunidade – confiante de que, mais uma vez, seus aliados não fariam nada.
Palestinos buscam segurança após ataques israelenses, que quebraram o cessar-fogo, em Beit Hanoun, na Faixa de Gaza, em 18 de março. Foto: Anadolu/Getty Images.
Por Dalia Hatuqa*
Em menos de 24 horas [a partir da madrugada do dia 18 – NT], pesados bombardeios israelenses na Faixa de Gaza mataram mais de 400 palestinos, de acordo com autoridades de saúde palestinas, marcando o fim de um cessar-fogo que foi anunciado apenas nominalmente entre o Hamas e Israel em 15 de janeiro e entrou em vigor quatro dias depois. Mesmo após meses de negociações lideradas pelos EUA, Qatar e Egito, aqueles que acompanham os assuntos palestino-israelenses sabiam que o cessar-fogo nunca significou realmente que Israel pararia de atacar o território costeiro sitiado.
Entre 22 de janeiro e 11 de março, pelo menos 700 palestinos foram mortos pelas forças israelenses ou tiveram seus corpos recuperados de áreas onde os socorristas não podiam acessar anteriormente, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, conforme relatado pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. Nos últimos dois meses, Israel também descumpriu os termos do cessar-fogo, recusando-se a permitir tendas e trailers para que as pessoas pudessem se abrigar do frio congelante que levou à morte de várias pessoas, principalmente bebês, segundo autoridades de saúde.
O cessar-fogo também estipulava que Israel permitiria a entrada de maquinário pesado em Gaza para iniciar o processo de remoção dos escombros. Isso não foi feito, e as Nações Unidas afirmam que levará 350 anos para limpar as casas e infraestruturas destruídas e começar a reconstrução, se Israel não levantar o bloqueio atual.
Outra estipulação – bastante importante e urgente – era permitir que mais ajuda humanitária entrasse em Gaza. Embora mais caminhões tenham entrado durante a fase inicial do acordo, as autoridades israelenses impossibilitaram que os grupos de ajuda fizessem qualquer impacto significativo na grave situação humanitária. Em 2 de março, horas após o término da primeira fase do acordo de cessar-fogo, Israel bloqueou a entrada de todos os carregamentos de ajuda em Gaza, enquanto simultaneamente realizava ataques com drones, de acordo com uma reportagem da BBC.
Siga a Fepal no X!
Siga-nos também no Instagram!
Inscreva-se em nosso canal no Youtube!
Mesmo antes de Israel tomar essa decisão, já vinha restringindo sistematicamente a entrada de tudo, desde bisturis e tesouras até geradores, brinquedos e especiarias. Mas com a paralisação completa de alimentos, combustível e outras necessidades, as organizações humanitárias temiam que Gaza estivesse “enfrentando níveis catastróficos de insegurança alimentar aguda”, segundo um relatório da ONU, com a Médicos Sem Fronteiras acusando Israel de usar a ajuda como uma “moeda de troca” para negociar.
O chamado cessar-fogo foi uma manobra política, uma pausa que permitiu a Israel reiniciar o relógio de sua guerra enquanto mantinha os elementos centrais de seu cerco e ocupação. Israel continuou sua guerra em Gaza por meio de um bloqueio asfixiante contínuo, ataques aéreos e a morte e abuso de prisioneiros palestinos. Na Cisjordânia, uma guerra paralela continua, com forças israelenses invadindo casas palestinas, realizando assassinatos e detendo milhares de pessoas.
Este é um padrão que já vimos antes: um ataque esmagador de Israel, um número crescente de vítimas civis, indignação global levando a apelos por um cessar-fogo e, em seguida, uma breve desescalada. Mas, durante esse tempo, Israel fortalece suas posições militares, rearma-se e prepara o terreno para a próxima rodada de violência. Por exemplo, na Operação Chumbo Fundido de 2008-09, e após um cessar-fogo de seis meses, Israel lançou um ataque devastador de 23 dias em Gaza, alegando que o Hamas havia violado o cessar-fogo. No entanto, relatórios indicaram que Israel havia planejado o ataque meses antes, usando o cessar-fogo para se preparar militarmente.
Israel frequentemente concorda com cessar-fogos quando a pressão internacional aumenta. Ao fazer isso, apresenta-se como a parte razoável, enquanto transfere a culpa para os palestinos quando a violência recomeça. Ao participar de negociações de cessar-fogo sem abordar a ocupação e o cerco, Israel garante que o status quo permaneça inalterado, impedindo qualquer resolução de longo prazo. Um cessar-fogo real exigiria o fim da ocupação contínua de Israel e do cerco asfixiante a Gaza – não apenas uma pausa temporária na violência. Até lá, qualquer chamado cessar-fogo permanece uma ilusão.
O que Gaza precisa não é de outro cessar-fogo passageiro, mas de uma mudança fundamental na política internacional – uma que pare de tratar as ações de Israel como acima de qualquer reprovação e comece a responsabilizá-lo por suas violações dos direitos humanos e do direito internacional. Qualquer coisa menos que isso garantirá que esse ciclo de violência continue, com consequências devastadoras para o povo de Gaza e para o povo palestino como um todo.
* Dalia Hatuqa é uma jornalista independente especializada em assuntos palestino-israelenses. Artigo publicado no jornal The Guardian em 18/03/2025.
Notícias em destaque
Massacre: soldados israelenses mataram trabalhadores humanitários em Gaza à queima-roupa
Por Sharif Abdel Kouddous* Soldados israelenses dispararam quase mil tiros [...]
LER MATÉRIAEpstein ajudou “israel” a manipular Acordos de Oslo através do governo norueguês, indicam revelações
Por Synne Furnes Bjerkestrand* A Noruega sempre se elogiou por seu papel na [...]
LER MATÉRIA‘De volta do inferno’: entidade de monitoramento da imprensa expõe tortura de jornalistas palestinos por “israel”
Por Elis Gjevori* Jornalistas palestinos detidos por Israel descreveram [...]
LER MATÉRIAEpstein ajudou “israel” a exportar para a África tecnologia usada em Gaza
Por Murtaza Hussain e Ryan Grim* No ano anterior à morte suspeita de [...]
LER MATÉRIAGoverno israelense instalou e manteve sistema de segurança em apartamento de Epstein
Por Ryan Grim e Murtaza Hussain* O governo israelense instalou equipamentos [...]
LER MATÉRIA“israel” se prepara para executar prisioneiros palestinos por enforcamento
Por Monjed Jadou* Dezenas de prisioneiros palestinos morreram em prisões [...]
LER MATÉRIA