O extermínio em massa de paramédicos e socorristas realizado por “israel” no Líbano
Entidade sionista matou mais de 120 socorristas, danificou 16 hospitais e atacou mais de 130 ambulâncias no Líbano desde 2 de março.
Funeral do paramédico Hussein Jaber, da equipe de Defesa Civil em Nabatieh, após ele ter sido morto em um ataque israelense junto com seu colega Ahmad Noura em 12 de maio. Saida, Líbano. 13 de maio de 2026. Foto de Katrine Dige Houmøller.
Por Katrine Dige Houmøller*
Uma escavadeira estava sobre o que antes era uma casa em Deir Qanoun Al-Nahr, no sul do Líbano, movendo concreto quebrado de um lado para o outro da cratera. Socorristas com coletes fluorescentes removiam os escombros com as próprias mãos. Ahmed Hariri, paramédico e fotojornalista, estava entre eles.
A poeira subia das ruínas enquanto os homens cavavam apressadamente em busca de qualquer sinal de vida — ou de morte. “Há algo aqui”, gritou um deles. Ele puxou dos destroços um pedaço de concreto manchado de sangue. Os outros correram até ele e começaram a cavar ainda mais rápido. Em algum lugar sob a casa da família reduzida a escombros estavam os restos mortais de três pessoas ainda desaparecidas na quarta-feira, após um ataque aéreo israelense no dia anterior ter matado 14 pessoas, incluindo quatro crianças, em um dos ataques mais letais no Líbano em semanas. Dez dos mortos pertenciam a três gerações da mesma família. Uma família síria de quatro pessoas também foi morta.
“Olhem”, disse um dos socorristas, erguendo uma mochila escolar coberta de poeira cinzenta, com cadernos e livros infantis dentro. “Isto pertencia a uma das crianças.” Ao longe, mais ataques aéreos ecoavam pela paisagem, seus estrondos profundos reverberando sobre as ruínas.
Menos de dois dias depois, Ahmed Hariri foi morto junto com outros dois paramédicos em outro ataque aéreo israelense contra Deir Qanoun Al-Nahr, na sexta-feira, que deixou um total de cinco mortos. Esse ataque ocorreu após a morte, durante a noite de quinta-feira, de quatro paramédicos e o ferimento de outros cinco em um ataque israelense contra Hannawiyah, que destruiu tanto o principal centro da Autoridade de Saúde da cidade quanto uma estação de ambulâncias recém-estabelecida em Tiro.
Ahmed Hariri (à esquerda) está perto de uma escavadeira em 20 de maio de 2026, em meio aos esforços de recuperação após um ataque aéreo israelense em Deir Qanoun Al-Nahr. Hariri foi morto em um ataque aéreo israelense em 22 de maio de 2026. Foto de Katrine Dige Houmøller.
O assassinato indiscriminado de socorristas por Israel e o ataque à infraestrutura médica no Líbano têm sido uma das características mais flagrantes desta guerra. Nas últimas cinco semanas, o incessante ataque aéreo e terrestre israelense continuou apesar de um cessar-fogo nominal ter sido anunciado pelo presidente Donald Trump em 16 de abril. Na semana passada, Israel e Líbano concordaram com uma extensão de 45 dias do “cessar-fogo” após realizarem sua terceira rodada de negociações diretas em Washington, das quais o Hezbollah não faz parte. A declaração de cessar-fogo não impediu os militares israelenses de continuarem seus bombardeios contra o Líbano, principalmente no sul e no Vale do Bekaa, no leste. Desde 2 de março, Israel matou mais de 3.100 pessoas em todo o país e feriu mais de 9.400, segundo o Ministério da Saúde do Líbano — mais de 900 delas desde que o chamado cessar-fogo entrou em vigor.
Israel afirma estar mirando combatentes do Hezbollah e “infraestrutura terrorista” — mas, no terreno, homens, mulheres, crianças e idosos civis constituem a maioria das vítimas, enquanto casas residenciais e infraestrutura civil vêm sendo sistematicamente demolidas. Pelo menos nove jornalistas foram mortos apenas em 2026, tornando o Líbano o lugar mais letal do mundo para jornalistas neste ano. Mais escandalosamente ainda, Israel tem atacado trabalhadores de emergência e médicos com frequência alarmante.
No total, mais de 120 profissionais de saúde foram mortos e mais de 260 ficaram feridos em ataques aéreos israelenses em todo o Líbano desde 2 de março. Nada menos que 139 ambulâncias e 16 hospitais foram danificados, forçando três hospitais a encerrar suas atividades. O Ministério da Saúde do Líbano acusou Israel de alvejar sistematicamente o setor médico e seus trabalhadores. Em vez de negar as acusações, Israel tem repetidamente acusado o Hezbollah de utilizar ambulâncias e instalações médicas para fins militares, sem apresentar qualquer evidência que sustente essas alegações.
Um médico está em meio aos escombros de um centro de saúde primária em Maashouq, distrito de Tiro, após um ataque aéreo israelense em 18 de maio. 20 de maio de 2026. Foto de Katrine Dige Houmøller.
Equipes de resgate descrevem um padrão de repetidos ataques israelenses diretamente contra seus membros, muitas vezes em ataques de “duplo” ou “triplo impacto” (double-tap ou triple-tap) — quando, após um local ser atingido, ele é bombardeado uma segunda ou até terceira vez à medida que as equipes de emergência chegam ao local.
“Tentamos ser cuidadosos e tomar precauções de segurança antes das intervenções, como esperar dez minutos para evitar os ataques duplos”, disse Abdullah Halal, líder da equipe de resgate da Defesa Civil em Nabatieh, ao Drop Site News. Mas até essas precauções nem sempre têm sido suficientes. Na semana passada, Halal perdeu dois de seus colegas em um ataque de duplo impacto.
Em 12 de maio, um drone israelense atingiu um tuk-tuk (um triciclo motorizado) em Nabatieh, segundo a Defesa Civil. O motorista ficou ferido, mas sobreviveu e conseguiu chegar ao centro da Defesa Civil em busca de ajuda. Quando dois socorristas — Hussein Jaber e Ahmad Noura — saíram para ajudá-lo, um segundo ataque atingiu a área, matando os três homens e ferindo uma paramédica.
“Eu estava a apenas 20 metros de distância. Vi tudo”, disse Hussein Saad, um trabalhador da Defesa Civil de 23 anos, durante o funeral dos dois paramédicos em Saida, no dia seguinte. Seus olhos estavam inchados e vermelhos. Ele interrompeu a frase no meio, enquanto as lágrimas voltavam a dominá-lo.
A dor no funeral, lotado de enlutados, era intensa e visceral. Muitos choravam, gritavam ou davam seus últimos adeuses, enquanto outros permaneciam paralisados em choque. Enquanto os corpos eram carregados pelas ruas, os presentes erguiam os punhos e entoavam: “Morte a Israel”.
Muitos dos presentes eram colegas de Jaber e Noura, que haviam compartilhado turnos e participado juntos de perigosas missões de resgate. “Eles não são apenas colegas, somos todos irmãos. Conheço Ahmad há 20 anos. Hussein há dez. Isso é muito difícil para nós”, disse Abdullah Halal, líder da equipe de resgate da Defesa Civil em Nabatieh.
Em todo o Líbano, hospitais e centros médicos passaram a funcionar tanto como locais de trabalho quanto como moradia para socorristas. Ao lado do Hospital Najda, em Nabatieh, colchões cobrem o chão de um grande cômodo onde a equipe da Associação de Ambulâncias de Nabatieh dorme, descansa e espera pelo próximo chamado. Enquanto suas famílias evacuaram para outros lugares, eles permaneceram, vivendo e trabalhando lado a lado.
“É difícil deixar tudo para trás”, disse Ali Rida Hammoud, paramédico da equipe. “É difícil ver minha família e meu povo sofrendo, tentando encontrar abrigo ou um lugar seguro. É como uma espada de dois gumes: ou você deixa tudo ou fica e pode morrer.”
Pouco depois do início da escalada da guerra por Israel, em 2 de março, grupos de direitos humanos criticaram Israel pelos ataques a trabalhadores médicos no Líbano. “Profissionais de saúde estão arriscando suas vidas para salvar outras pessoas, e hospitais, outras instalações médicas e ambulâncias são especificamente protegidos pelo direito internacional humanitário”, afirmou Kristine Beckerle, diretora regional adjunta da Anistia Internacional para o Oriente Médio, em uma declaração de 19 de março. “Atacar deliberadamente médicos no exercício de suas funções humanitárias constitui uma grave violação do direito internacional humanitário e pode configurar um crime de guerra.”
Na terça-feira, Israel emitiu ordens de deslocamento para partes de Nabatieh, incluindo a área ao redor do Hospital Najda, um dos últimos centros médicos ainda em funcionamento no distrito. Enfermeiros, médicos e equipes de resgate já haviam se reagrupar ali após vários de seus próprios centros de emergência terem sido atingidos em ataques israelenses anteriores. A segurança já não é garantida, mas o trabalho continua.
“Os israelenses têm um histórico de violar regras, inclusive atacando equipes médicas. Apesar disso, nada nos impede ou nos afasta de continuar este trabalho”, disse Mahdi Sadiq, diretor executivo da associação de ambulâncias. “É a crença de que devemos permanecer ao lado do nosso povo, salvá-lo e ajudar aqueles que permanecem. Isso faz parte da nossa missão de vida, e estamos prontos para nos sacrificar por ela.”
Ele acrescentou: “Este é um trabalho que envolve riscos, e estamos cientes dessa possibilidade desde o primeiro dia. O que nos move é nosso senso humanitário e nossos valores nacionais.”
Em Nabatieh, ruas antes movimentadas, cheias de lojas e trânsito, agora estão assustadoramente vazias e silenciosas, exceto pelo rugido dos aviões de guerra israelenses acima. Edifícios carregam marcas dos ataques aéreos, e quarteirões inteiros parecem abandonados.
“Ali adiante, Joud e Ali foram mortos enquanto entregavam comida a civis”, disse um socorrista que falou sob condição de anonimato, apontando rua abaixo, referindo-se ao ataque de 24 de março que matou seus colegas Joud Souleiman, de 16 anos, e Ali Jaber, de 19, quando seguiam de motocicleta rumo ao centro de Nabatieh para entregar refeições quentes.
Alguns quarteirões depois, o socorrista apontou novamente: “E ali Hussein e Ahmad foram mortos enquanto tentavam socorrer os feridos”, disse. “Mahdi também foi morto, junto com outros três paramédicos em Mayfadoun”, acrescentou, referindo-se a Mahdi Abou Zeid, de 40 anos, morto em um ataque israelense em 15 de abril.
“Eu recolhi os restos mortais dos meus amigos. Não temos outra escolha”, disse ele. Enquanto falava, uma forte explosão sacudiu subitamente o vale além da cidade, seguida por outro ataque aéreo. A equipe de socorristas olhou para a fumaça subindo atrás das colinas. “É hora de ir”, disse um deles.
* Katrine Dige Houmøller reportou diretamente de Deir Qanoun al-Nahr, no Líbano. Reportagem publicada no Drop Site News em 22/05/2026.
Notícias em destaque
O extermínio em massa de paramédicos e socorristas realizado por “israel” no Líbano
Por Katrine Dige Houmøller* Uma escavadeira estava sobre o que antes era [...]
LER MATÉRIA“Os colonos estão no controle”: como a Cisjordânia está sendo etnicamente limpa
Por Peter Oborne* A viagem de 50 km de Ramallah ao norte, até Nablus, na [...]
LER MATÉRIAComo o AIPAC canaliza milhões através de comitês eleitorais de fachada para eleger sionistas nos EUA
Por Ali Harb* Para muitos eleitores em Illinois, nada parecia [...]
LER MATÉRIA“israel” condena cidadãos palestinos à prisão por entoar slogans
Por Baker Zoubi* Nos últimos dois anos e meio, os cidadãos palestinos de [...]
LER MATÉRIASem equipamentos permitidos em Gaza, palestinos estão cavando com as próprias mãos para recuperar os mortos
Por Mohammed Ahmed* Mahmoud Khilla esperou por quase dois anos e meio para [...]
LER MATÉRIAExército israelense sequestra palestino com esquizofrenia e o coloca “à venda” na Internet
Em 20 de agosto de 2024, o inimaginável aconteceu para a família de [...]
LER MATÉRIA