Plano de ajuda de “israel” a Gaza é uma cobertura de fumaça sobre o genocídio

Para conquistar e tomar Gaza, "precisamos fazer isso de uma forma" em que o mundo "não nos impeça", diz Netanyahu.

23/05/2025

O presidente Donald Trump se reúne com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu no Salão Oval em 7 de abril de 2025. (Foto de Kevin Dietsch/Getty Images)

Por Jeremy Scahill*

Benjamin Netanyahu deixou claro: sua decisão de permitir a entrada de uma quantidade minúscula de ajuda humanitária em Gaza é uma manobra tática destinada a silenciar a condenação internacional à fome forçada imposta por Israel à região e a abrir caminho para uma “solução final” imposta aos palestinos de Gaza.

“Vamos assumir o controle de toda a Faixa de Gaza”, prometeu Netanyahu na segunda-feira, em um vídeo divulgado por seu gabinete, no qual anunciou que Israel começaria a entregar “ajuda humanitária mínima: apenas comida e remédios.” Netanyahu afirmou que a pressão internacional, inclusive de senadores republicanos pró-Israel e da Casa Branca, exigia a aparência de uma intervenção humanitária. “Nossos melhores amigos no mundo — senadores que conheço como fortes apoiadores de Israel — alertaram que não podem nos apoiar se surgirem imagens de fome em massa”, disse ele. “Eles vêm até mim e dizem: ‘Vamos te dar toda a ajuda necessária para vencer a guerra… mas não podemos estar recebendo imagens de fome’”, acrescentou Netanyahu. Para continuar a guerra de aniquilação, afirmou, “precisamos fazê-lo de uma forma que eles não nos parem.”

Bezalel Smotrich, aliado de coalizão de Netanyahu — um ministro do governo de extrema-direita e defensor de longa data da fome, assassinatos em massa e despovoamento de Gaza — apoiou a decisão de Netanyahu. Smotrich disse que o esquema de ajuda permitiria “a nossos amigos no mundo continuar a nos fornecer um guarda-chuva internacional de proteção contra o Conselho de Segurança e o Tribunal de Haia, e para que possamos continuar lutando, se Deus quiser, até a vitória.”

Em uma coletiva de imprensa de emergência que convocou para responder a críticas da sua própria base, Smotrich expôs a agenda genocida do governo Netanyahu e explicou por que a aparência de permitir ajuda é necessária do ponto de vista estratégico. “A [ajuda] que entrará em Gaza nos próximos dias é a menor quantidade possível. Um punhado de padarias que distribuirá pão sírio em cozinhas públicas. As pessoas em Gaza receberão um pão e um prato de comida, e só isso. Exatamente o que estamos vendo nos vídeos: pessoas em fila esperando que alguém as sirva com um prato de sopa,” disse Smotrich.

“A verdade é que, até que o último dos reféns volte, também não deveríamos permitir água na Faixa de Gaza. Mas a realidade é que, se fizermos isso, o mundo nos forçará a interromper imediatamente a guerra e a perder. Seria vencer a batalha e perder a guerra. Estou comprometido em vencer a guerra,” declarou Smotrich. “Estamos desmontando Gaza e deixando-a em escombros, com uma destruição total [que] não tem precedente mundial. E o mundo não está nos parando. Há pressões. Há quem nos ataque; estão tentando nos parar; mas não estão conseguindo. Sabe por que não estão conseguindo? Porque estamos conduzindo [a campanha] com responsabilidade e sabedoria, e assim continuaremos.”

Smotrich disse que as forças israelenses estão iniciando uma campanha para forçar os palestinos a se deslocarem para o sul de Gaza “e de lá, se Deus quiser, para terceiros países, como parte do plano do presidente Trump. Isso é uma mudança de rumo na história — nada menos.”

Nos últimos dias, Trump voltou a promover a ameaça que fez pela primeira vez em 4 de fevereiro, quando Netanyahu o visitou na Casa Branca: de que os EUA tomariam Gaza e a transformariam em uma “Riviera do Oriente Médio.” “Acho que eu ficaria orgulhoso se os Estados Unidos a tivessem, tomassem e a transformassem em uma zona de liberdade,” disse Trump na quinta-feira, uma afirmação que repetiu no fim de semana em entrevista à FOX News. “Gaza é um lugar terrível. Está assim há anos. Acho que deveria se tornar uma zona livre, sabe, liberdade, eu chamo de zona de liberdade,” disse Trump ao apresentador Bret Baier.

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No domingo, Netanyahu afirmou que permitir a entrada de “uma quantidade básica de comida” em Gaza era necessário por “razões operacionais para permitir a expansão dos combates intensos para derrotar o Hamas.” Ele disse que Israel retomaria as entregas limitadas de ajuda de forma temporária, aproximadamente uma semana antes de um plano de ajuda mais duradouro que contornaria a ONU e outras agências internacionais. A política emergente de Israel oferece comida suficiente aos palestinos em Gaza para evitar uma condenação internacional que possa prejudicar a guerra, ao mesmo tempo em que prepara a limpeza étnica dos palestinos de Gaza.

O anúncio de Netanyahu ocorre em meio a novas negociações sobre um possível cessar-fogo em Gaza e um acordo de troca de prisioneiros. Netanyahu insiste que não fará nenhum acordo que encerre a guerra sem a eliminação total do Hamas e a desmilitarização completa da Faixa de Gaza. O Hamas afirmou que não libertará mais reféns israelenses mantidos em Gaza a menos que um acordo certificado internacionalmente seja alcançado, incluindo a retirada total das forças israelenses e um cessar-fogo de longo prazo.

“Estamos prontos para libertar os prisioneiros de uma só vez, desde que a ocupação se comprometa com um cessar-fogo garantido internacionalmente,” disse Sami Abu Zuhri, chefe do Escritório Político do Hamas no Exterior, no domingo. Ele afirmou à Al Jazeera Mubashar: “Não entregaremos nossos prisioneiros à ocupação enquanto ela continuar insistindo em sua agressão indefinida contra Gaza.”

Estratégias de Conquista

O governo Trump continuou a apoiar publicamente Netanyahu enquanto o exército israelense intensifica sua campanha de bombardeios e deslocamentos forçados em Gaza. A Casa Branca não fez críticas públicas à operação de Netanyahu, chamada “Carruagem de Gideão”, cujo objetivo é tomar o controle total de Gaza, descrito por autoridades como uma “conquista”.

Antes da turnê de Trump pelo Oriente Médio — na qual não passou por Israel — Netanyahu anunciou essa nova fase de sua guerra de aniquilação em Gaza. Se o Hamas não se rendesse e libertasse todos os reféns israelenses até o retorno de Trump a Washington, D.C., Israel iniciaria uma invasão terrestre em larga escala e a ocupação de toda a Faixa de Gaza.

Durante o fim de semana, as forças israelenses começaram a intensificar operações terrestres e ampliaram a campanha implacável de bombardeios e ataques aéreos. Atacaram vários hospitais e acampamentos de deslocados, matando mais de 500 palestinos em apenas alguns dias. Mísseis caíram sobre a cidade de Khan Younis, no sul, acompanhados por ataques de helicópteros e bombardeios de artilharia. Na segunda-feira, Israel emitiu ordens abrangentes de evacuação forçada no sul, incluindo toda a região de Khan Younis, forçando residentes em pânico a pegar o que podiam e fugir para locais que Israel anteriormente designara como zonas seguras, como Al-Mawasi — que, depois, o exército israelense também atacou.

Trump tem buscado uma aliança cada vez mais próxima com líderes dos países árabes do Golfo, que representam grandes oportunidades de negócios para sua agenda política e pessoal. A postura de Trump criou alguns obstáculos técnicos para a agenda assassina de Netanyahu. Embora os governantes desses países não tenham exigido publicamente que Trump imponha um cessar-fogo ou intervenha para conter o avanço genocida de Netanyahu, relatos indicam que eles pediram em privado que Trump agisse rapidamente para retomar os envios de ajuda a Gaza e usasse a influência dos EUA para forçar Netanyahu a parar o genocídio.

Durante sua recente turnê pela Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos, Trump falou pouco sobre Gaza, mas prometeu enfrentar a crise humanitária e disse que a entrega de ajuda seria retomada. “Olha, as pessoas estão passando fome,” disse Trump no sábado em entrevista à FOX News. “Já comecei a trabalhar nisso.” Autoridades israelenses disseram que a Casa Branca começou a pressionar Netanyahu para permitir um alívio parcial do bloqueio.

“Não acho que haja qualquer divergência entre a posição do presidente Trump e a do primeiro-ministro Netanyahu,” disse Steve Witkoff, enviado especial de Trump, no domingo em entrevista à ABC News. “Todos estão preocupados com as condições humanitárias em Gaza,” acrescentou. “Não queremos ver uma crise humanitária, e não vamos permitir que ela ocorra no governo do presidente Trump.”

Como relatado pelo Drop Site na sexta-feira passada, o Hamas disse que a decisão de libertar o cidadão americano e soldado israelense Edan Alexander no dia 12 foi resultado de um compromisso direto de Witkoff. Segundo Basem Naim, membro do bureau político do Hamas, Witkoff prometeu que, dois dias após a libertação de Alexander, o governo Trump forçaria Israel a suspender o bloqueio de Gaza e permitir a entrada imediata de ajuda humanitária. Witkoff, disse Naim, também prometeu que Trump faria um apelo público por um cessar-fogo imediato em Gaza e por negociações visando alcançar um “cessar-fogo permanente.” Naim afirmou que os EUA “jogaram [o acordo] no lixo.”

Ex-agente da CIA, amigo de Netanyahu e de olho em milhões de dólares: “israel” contrata agência de mercenários para sabotar entrega de ajuda humanitária a Gaza

Tanto Israel quanto os EUA têm promovido planos de entrega de ajuda a Gaza que contornam um acordo de cessar-fogo — algo que a ONU e todas as organizações de ajuda que atuam em Gaza consideram essencial para enfrentar a crise humanitária aguda. Em vez disso, EUA e Israel criaram um esquema envolvendo uma nova fundação “não governamental” administrada por um ex-fuzileiro naval dos EUA para assumir oficialmente o controle da criação de zonas, principalmente no sul de Gaza, para distribuir um número limitado de rações.

Palestinos que desejarem receber ajuda teriam que passar por um processo de triagem de segurança israelense e se submeter a postos de controle e tecnologia de reconhecimento facial como condição para obter alimentos. Na semana passada, Netanyahu disse que os pontos de distribuição estariam localizados em “uma área estéril totalmente controlada pelas FDI.”

A ONU e mais de 200 organizações não governamentais de ajuda denunciaram o plano, afirmando que ele é inviável e transforma a ajuda humanitária em arma de guerra. A principal organização humanitária da ONU que atua nos Territórios Palestinos Ocupados disse que o plano visa desmontar a infraestrutura internacional construída ao longo de décadas e reforçar ainda mais o domínio israelense sobre o acesso a alimentos e suprimentos essenciais para os palestinos em Gaza.

“Contraria princípios humanitários fundamentais e parece ter como objetivo reforçar o controle sobre itens essenciais à vida como tática de pressão — como parte de uma estratégia militar,” afirmou a equipe da Coordenadoria Humanitária da ONU para os Territórios Palestinos Ocupados em 5 de maio. “É perigoso, pois força civis a se deslocarem para zonas militarizadas para obter rações, colocando vidas em risco — inclusive as de trabalhadores humanitários — e aprofundando ainda mais o deslocamento forçado.”

* Artigo publicado em 19/05/2025 no portal Drop Site News.

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