A história do idoso de 63 anos que foi usado como escudo humano durante três meses pelo exército de “israel”

O uso desenfreado de civis palestinos como escudos humanos por "israel" em Gaza e na Cisjordânia está bem documentado. Segundo relatos, conhecido como "protocolo do mosquito", soldados israelenses forçam palestinos a inspecionar prédios, túneis e outros locais.

06/06/2025

Jameel al-Masri após sua libertação. Foto Fornecida pela família al-Masri.

Por Yahya Al-Qassas*

Em outubro de 2024, Jameel Al-Masri, um palestino de 63 anos de Beit Hanoun, trabalhava na equipe do Hospital Indonésio enquanto o exército israelense executava o que ficou conhecido como o “Plano dos Generais”, um esforço para despovoar grandes áreas da Faixa de Gaza. Seu trabalho era ajudar a mover pacientes e famílias dentro do hospital com a maior segurança possível — uma tarefa que passou de difícil a impossível quando Israel começou a atacar a área ao redor do hospital em meados de outubro. Jameel fugiu com sua família para a escola El-Fawka, em busca de refúgio.

Mas não adiantou. Dias depois, tropas israelenses chegaram, cercaram a escola e ordenaram que todos seguissem para o sul.

“Sou funcionário de hospital, recebo meu salário da Autoridade Palestina e nem sequer trabalho para o governo de Gaza. Trabalhei por décadas em Israel e falo hebraico. Não tenho nada a ver com política.”

Perto do centro de abastecimento da ONU, soldados israelenses montaram um posto de controle e começaram a reunir todos os homens em grupos de cinco. Jameel estava entre eles. Enquanto aguardava próximo a um centro de detenção, um soldado gritou: “Quem sabe hebraico?” Jameel percebeu que duas mulheres também haviam sido sequestradas e presumiu que precisavam de um tradutor. Ele se apresentou:

“Eu sei.”

Esse momento mudou tudo. Soldados da Brigada Givati de Israel o separaram e o interrogaram sobre seu conhecimento do hebraico. Ele contou que havia trabalhado em Israel por mais de 30 anos. Eles o vendaram e o jogaram dentro de um veículo blindado de transporte de tropas (APC). Sem acusações. Sem explicação.

Quando tiraram a venda, ele teve o primeiro vislumbre de um homem sobre quem estava deitado, empilhado como carga no chão. Ficaram assim por um dia inteiro. Jameel ainda se lembra de seu nome: Wael AbdelLatif Abo Amsha.

No dia seguinte, os soldados disseram:

“Vocês vão nos ajudar a tirar as pessoas das escolas. É um trabalho de dois dias, depois vocês vão para casa. Não há nada contra vocês no nosso sistema.”

Vestiram Jameel com um colete. Ele obedeceu — não tinha outra escolha. Os soldados haviam mentido: meses de tormento estavam por vir.

Passou-se uma semana. Nenhuma libertação. Apenas espancamentos, gritos, humilhação e sujeira jogada sobre eles.

“Precisamos esvaziar todas as escolas”, diziam. “Você vai ficar aqui e depois ir para casa.”

A primeira escola que Jameel foi forçado a esvaziar ficava em Beit Hanoun. Ele recebeu ordens para ir até lá, alinhar os civis deslocados e retirá-los. Depois veio algo pior. Os soldados o forçavam a entrar sozinho em casas destruídas e queimadas. A porta do APC se abria, ele, vestido com uniforme do exército israelense, era ordenado a sair e vasculhar o interior. Um drone pairava acima, emitindo uma voz que o direcionava.

Depois que ele limpava a casa, o drone filmava tudo. Então, os soldados invadiam, colocavam explosivos nas colunas estruturais e depois explodiam a casa. Esse era o ciclo. Repetidamente. Casa após casa.

A unidade militar mudava a cada mês, mas Jameel continuava. Três unidades diferentes. Ele era a ferramenta deles. A cada uma ou duas semanas, era arrastado de volta ao campo.

Jameel Al-Masri (terceiro da direita) dentro de um veículo blindado com soldados israelenses, mantido como escudo humano. Foto obtida por Younis Tirawi.

Jameel estava doente. Tinha problemas cardíacos, havia passado por uma angioplastia com colocação de stent e frequentemente sentia falta de ar. Com o tempo, os soldados perceberam que ele não conseguia mais acompanhar o ritmo e passaram a usá-lo cada vez menos ao longo dos três meses de seu cativeiro.

Uma noite, quando uma unidade se preparava para partir, gritaram com ele enquanto ele jazia nas escadas, armas apontadas. Ordenaram que ele limpasse a cozinha deles. Ele pensou que finalmente iria para casa.

Em vez disso, mandaram-no sentar e retomaram o jogo: perguntaram sobre seu hebraico. Um deles carregou sua arma atrás dele, apontando para sua cabeça, brincando, rindo.

“Eu não ligava. Não sabia o que se passava na cabeça deles. Estava esperando todos os dias pelo cessar-fogo para ir para casa.”

A cada poucos dias, repetiam a mesma promessa:

“Não se preocupe. Em uma semana ou dez dias você vai para casa.”

Enquanto isso, ele recebia um pedaço de pão e uma lata de atum por dia. Na primeira semana, não lhe deram nada.

Perguntei a Jameel sobre as condições. Ele não hesitou:

“Dormir era muito, muito difícil. Você dorme nas escadas e no chão.”

Armas apontadas para o rosto, constantemente. Ordens aos gritos. Enviado sozinho para ruínas perigosas, guiado por um drone. Sem proteção. Sem dignidade. Sem escolha.

O exército lhe deu algum tipo de proteção?

“Eles me vestiam com um colete e me davam um uniforme militar.”

Ele perguntou o motivo.

“Porque não queremos que o drone atire em você.”

Os soldados eram jovens. Mal tinham vinte anos. Falavam árabe com dificuldade. Nomes de que ele se lembra: Sion, Dany, Ido, Benjamin.

Jameel Al-Masri mantido em cativeiro como escudo humano para uma brigada israelense. Foto obtida por Younis Tirawi.

Jameel relata outra noite: estava deitado quando um soldado pulou sobre ele, arma em punho.

“Você tem 2 minutos para se preparar.”

Jameel foi enviado para inspecionar casas em Jabaliya. Se demorasse demais, hesitasse ou se movesse lentamente por exaustão, os soldados o xingavam, chutavam e espancavam sem aviso.

“Filho da puta.”

“Que cachorro.”

Ele viu cadáveres nas ruas.

Outra vez, soldados ordenaram que ele limpasse a cozinha. Um apontou uma metralhadora para ele enquanto o outro filmava. Eles o ameaçaram, dizendo:

“Agora é a sua hora.”

Depois riram e disseram que era uma piada. Não foi a primeira vez. Outra unidade havia feito o mesmo.

“Mas ao menos pensei que eles não me matariam dentro do quarto. Talvez lá fora. Eles não querem sangue onde dormem. Têm medo de sangue e corpos.”

Jameel precisava pedir permissão para usar o banheiro. A humilhação era constante. E as acusações também.

“Você fez o 7 de outubro, distribuiu doces.”

Jameel respondeu:

“O que eu tenho a ver com isso? Nada. Eu ia todo dia trabalhar e voltava.”

Mas o soldado retrucou:

“Não! Todos vocês. Todos ficaram em silêncio. Foi o que me disseram.”
Eles não se importavam. Não estavam perguntando. Estavam provocando.

Mesmo entre si, eram violentos. Jameel os ouvia gritando, zombando, se gabando. Falando casualmente sobre matar.

“Matei esse cara com um tiro de sniper.”

“Atirei assim.”

Ouviu soldados falando sobre viagens pós-serviço para a Tailândia, para o Reino Unido, sobre Trump, sobre um cessar-fogo para poderem ir para casa. Lembra-se de um incidente sobre o qual falavam, no qual um colega morreu ao brincar com uma granada em Jabaliya.

“Estou muito abalado psicologicamente.”

Sua família viveu em agonia.

“Achavam que eu tinha sido morto. Não informaram onde eu estava. Se não fosse por um cara que eu evacuei de uma escola durante uma missão, que contou à minha família que eu estava bem, teriam pensado que eu estava morto.”

Jameel Al-Masri foi libertado em 20 de janeiro de 2025, o primeiro dia do cessar-fogo, após ter sido sequestrado em 18 de outubro de 2024 no campo de refugiados de Jabaliya. Mesmo quando voltou para sua família, não conseguia acreditar.

“Levei um mês inteiro para esquecer o que passei. Acordava e ainda achava que estava sequestrado.”

Ele sofre de hérnia de disco devido aos espancamentos dos soldados. Foi privado da medicação para pressão alta. Após a libertação, os médicos detectaram artérias obstruídas. Agora toma remédios e está melhor fisicamente. Mas sua mente ainda está em cativeiro.

Após a libertação, Al-Masri permaneceu em Khan Younis apesar das ordens para sair. Sua família não encontrou outro lugar para ficar e não pode pagar por uma tenda. Agora estão abrigados em uma escola.

* Direto de Khan Younis, Faixa de Gaza. Younis Tirawi e Maira Pinheiro contribuíram para a reportagem. Publicado no Drop Site News em 05/06/2025.

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