Por dentro dos hospitais sob o fogo israelense em Gaza

Bombardear hospitais é um dos "esportes" preferidos do exército de ocupação sionista

14/06/2025

Corpos dos palestinos assassinados pelo ataque de "israel" ao Complexo Médico Nasser

Por Nora Barrows-Friedman*

A situação médica em Gaza é uma catástrofe em queda livre.

Desde 2 de março, Israel mergulhou dois milhões de pessoas em uma fome planejada, enquanto destruiu sistematicamente a infraestrutura médica e impediu a entrada de alimentos, medicamentos e suprimentos básicos no enclave.

Em 13 de maio, Israel bombardeou o Hospital Europeu de Gaza e o Complexo Médico Nasser, ambos em Khan Younis, no sul de Gaza.

Israel utilizou bombas perfurantes de bunker e cinturões de fogo contra o Hospital Europeu de Gaza, matando pelo menos 28 palestinos e ferindo dezenas em múltiplos ataques.

No Nasser, um ataque de drone israelense atingiu a unidade de queimados e matou dois pacientes em suas camas, um dos quais era o jornalista Hassan Aslayeh, que se recuperava de uma tentativa de assassinato anterior.

Doze pessoas ficaram feridas no ataque, e 18 leitos hospitalares no departamento cirúrgico, oito leitos na UTI e 10 leitos de internação foram destruídos, segundo fontes médicas.

Seis dias depois, Israel atacou o Hospital Indonésio em Beit Lahiya, no norte de Gaza, destruindo seus geradores de energia e forçando o fechamento completo da unidade médica.

Tanques e escavadeiras israelenses também cercaram o hospital, colocando em risco a segurança de pacientes e profissionais da saúde, segundo Munir al-Bursh, diretor-geral do ministério da saúde de Gaza.

Em 20 de maio, ataques aéreos israelenses voltaram a atingir o Complexo Médico Nasser, destruindo seu depósito de suprimentos médicos.

O Dr. Majed Jaber, médico do pronto-socorro, estava de plantão no Hospital Europeu de Gaza quando ele foi bombardeado em 13 de maio.

“Estou realmente feliz por termos sobrevivido ao bombardeio incendiário do Hospital Europeu de Gaza”, disse ele ao podcast da The Electronic Intifada.

“Não foi a primeira vez que bombardearam o hospital, mas, você sabe, às vezes sobreviver é só uma questão de pura sorte hoje em dia”, afirma.

Jaber contou que o bombardeio ocorreu logo após a entrega do soldado israelense-americano capturado Edan Alexander. O exército israelense imediatamente retomou os bombardeios, ataques aéreos e disparos de artilharia, diz ele, e as pessoas começaram a lotar o pronto-socorro com ferimentos graves.

“Não houve pausas, [foi] violência contínua”, relembra.

Naquela noite, “ouvimos sons horríveis — parecia um terremoto — explosões ensurdecedoras, e realmente não sabíamos o que tinha acontecido. Não parecia nada que já tivéssemos vivido antes — os vidros estilhaçando, as portas voando, estamos falando de azulejos, fios elétricos caindo do teto.”

Quando Jaber e seus colegas conseguiram sair, o ar estava espesso com poeira, escombros e os cheiros de gás e pólvora.

“Estávamos apenas tentando processar — compreender que o Hospital Europeu de Gaza tinha acabado de ser bombardeado, e lembre-se, o Hospital Europeu de Gaza era o último hospital em funcionamento total. Era a última linha de defesa do Ministério da Saúde e da saúde em geral em Gaza.”

Jaber observou que o hospital era o último — ainda que parcialmente funcional — centro médico para pacientes com câncer.

“A situação já era ruim, porque nos faltavam cerca de 70% dos estoques [farmacêuticos] necessários para tratar minimamente esses pacientes com câncer. Não temos radioterapia, não temos cirurgias, mas tínhamos alguns medicamentos para mantê-los minimamente vivos até serem transferidos para fora.”

A completa ausência de qualquer tratamento oncológico em Gaza, segundo ele, é uma sentença de morte para esses pacientes com câncer.

Afeef Nessouli, que está em Gaza como coordenador de logística de saúde pela Glia, uma organização de solidariedade médica, diz que grande parte de seu trabalho é documentar os casos atendidos pelos médicos e o cuidado que conseguem oferecer diante das circunstâncias.

“Você ouve histórias como: não há morfina suficiente para ferimentos por explosão. Há um bebê que foi decapitado. É simplesmente horrível — quero dizer, tudo aquilo que já víamos como genocídio, eles estão na linha de frente vivendo isso. E estamos registrando parte disso em vídeo, e é difícil. Mas eles são verdadeiros heróis”, diz Nessouli sobre os profissionais da saúde.

“Estamos tentando, de qualquer forma, aliviar um pouco. E às vezes isso significa literalmente levar comida até as pessoas.”

Nessouli também conversou com trabalhadores da saúde que foram sequestrados, detidos e torturados sexualmente pelas forças israelenses.

“É um tipo de humilhação direcionada que vai acompanhar essas pessoas por muito tempo”, afirma.

Os palestinos, diz ele, “foram submetidos a uma prova incrível da humanidade que precisam simplesmente suportar, compreender e enfrentar com paciência — “sabr”. Tem sido algo muito intenso e difícil de vivenciar, mas também difícil de estar à parte, porque não sou um palestino de Gaza. Sou um libanês-americano, e estou apenas testemunhando.”

Grande parte do que ele faz, explica, é oferecer aos médicos espaço para falarem sobre suas experiências e processarem o trauma incessante que enfrentam todos os dias.

“Muitas vezes, eles só querem dizer isso em voz alta, em algum lugar, para que fique registrado — que aconteceu, e que eles mantêm sua dignidade diante dessa experiência terrível, porque é a única forma… não há justiça, mas ao menos há algum tipo de registro.”

* Publicado em The Electronic Intifada no dia 23/05/2025.

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