Charlie Kirk deixou de receber financiamento sionista dias antes de ser assassinado
Se acumulam os indícios da participação de "israel" no assassinato, ainda pouco esclarecido, de um dos mais populares ativistas dos Estados Unidos
Charlie Kirk (à esquerda) e o bilionário ultrassionista Robert Shillman (à direita). Montagem: The Grayzone
Por Max Blumenthal*
O bilionário ultrassionista Robert Shillman foi um dos doadores mais comprometidos de Charlie Kirk. Mas, enquanto Kirk era alvo de ataques por suas visões cada vez mais críticas a Israel em suas últimas semanas de vida, fontes dizem que Shillman encerrou o financiamento à Turning Point USA (TPUSA). À medida que sua turnê universitária se aproximava, Kirk foi submetido a uma campanha de lobby “quase diária” por parte de aliados de Netanyahu.
O campus da Turning Point USA em Phoenix, Arizona, é a casa que Charlie Kirk construiu. Composto por seis edifícios de escritórios estéreis de dois andares, o campus é em si mesmo um tributo aos doadores ultrarricos que colocaram o então jovem de 31 anos à frente de um império político cujos ativos anuais combinados superavam o orçamento municipal de uma típica pequena cidade americana.
Na frente do complexo da TPUSA está o Bill and Rebecca Dunn Freedom Center, nomeado em homenagem ao falecido trader de commodities Bill Dunn. Os edifícios adjacentes exibem placas comemorativas dos megadoadores que impulsionaram a ascensão do movimento conservador, desde a família Uhline aos irmãos Koch e ao gestor de ativos evangélico cristão Foster Friess.
Na diagonal em relação ao Freedom Center está o Pearson Building. Segundo uma fonte interna da TPUSA, esse prédio deveria ostentar o nome de um dos maiores e mais comprometidos apoiadores de Kirk, o magnata da tecnologia Robert Shillman. Um financiador proeminente de causas sionistas de direita e antimuçulmanas nos EUA e no exterior, os milhões de Shillman ajudaram a transformar Kirk, desde jovem, em um dos mais eficazes agentes de Israel nos EUA.
No entanto, à medida que Kirk se afastava da linha oficial de Israel — imposta por Netanyahu — no último ano, expressando frustração com as exigências onerosas de doadores sionistas e recebendo nos eventos da TPUSA os principais críticos conservadores de Israel, Shillman aparentemente se ressentiu.
Uma fonte interna da TPUSA disse ao The Grayzone que Shillman cancelou recentemente os planos de instalar a placa com seu nome no complexo de escritórios da organização conservadora. Aqueles que contribuem com US$ 1 milhão ou mais para a TPUSA se tornam elegíveis para uma placa honorária, mas as doações de Shillman seriam consideravelmente maiores.
Poucos doadores fizeram tanto quanto Shillman para alimentar a influência do movimento sionista de viés antimuçulmano e pró-Likud nos EUA. “Com esta caneta e um talão de cheques, eu forneço munição!”, proclamou o bilionário durante uma gala da organização sionista de direita Zionist Organization of America, em 2021.
Além de fomentar a carreira de Kirk, Shillman patrocinou o David Horowitz Freedom Center, nomeado em homenagem ao operador neoconservador que Kirk descreveu como seu “mentor”. Ativistas anti-Islã como Frank Gaffney, o hooligan inglês Tommy Robinson, o político holandês Geert Wilders e a Rebel Media do Canadá também se beneficiaram do apoio de Shillman.
“israel” poderia estar por trás do assassinato de Charlie Kirk
Shillman também investiu substancialmente na carreira de Laura Loomer, ex-personalidade da Rebel Media e provocadora fanaticamente antipalesina que tem acesso direto a Trump e a membros de seu círculo íntimo, influenciando decisões de pessoal e políticas enquanto ataca funcionários considerados insuficientemente pró-Israel.
Semanas antes do assassinato do fundador da TPUSA, Loomer atacou Kirk por seu apoio inconsistente a Israel. Ela se irritou especialmente com o espaço dado por Kirk a Tucker Carlson, a quem ela chamou de “esnobe metido das elites WASP” [anglo-saxões brancos e protestante – NT] que serve como “porta-voz do Irã e do Catar”.
“Charlie fala pelos dois lados da boca… [sua] mensagem está por toda parte e alguns de nós só querem saber onde ele realmente se posiciona”, tuitou Loomer em 12 de julho de 2025. Ela prosseguiu chamando Kirk de “oportunista político” e de “charlatão” que “apunhal[ou] Trump pelas costas” ao receber Dave Smith, um podcaster e comediante antissionista, em uma cúpula da TPUSA.
Loomer não negou que Shillman havia cortado o financiamento à TPUSA, alegando ignorância ao ser questionada diretamente por este repórter sobre a decisão de seu antigo benfeitor.
O The Grayzone foi informado de que Shillman anunciou a interrupção de suas contribuições à TPUSA durante um jantar privado de outra organização que ele financia, a American Freedom Alliance (AFA). Segundo um participante do evento, realizado em Los Angeles em 6 de setembro, Shillman declarou que encerraria suas doações a Kirk, redirecionando-as a grupos consistentemente pró-Likud e antimuçulmanos, como a AFA.
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A página inicial da AFA atualmente promove uma doação casada de US$ 250 mil de um doador anônimo logo abaixo de uma homenagem a Kirk. Uma foto mostra Kirk discursando em um evento passado da AFA. A homenagem leva a um elogio fúnebre que culpa “a batida consistente de ódio da esquerda, sua deturpação e incitação à violência contra nós” pela morte do fundador da TPUSA.
Ao ser contatado por telefone, Shillman desligou assim que este repórter perguntou sobre sua suposta declaração anunciando o fim do apoio à TPUSA.
O The Grayzone também entrou em contato por telefone com a presidente da AFA, Karen Siegemund, perguntando sobre os supostos comentários de Shillman sobre Kirk durante a gala de sua organização. “A única parte de que me lembro é sobre sua generosidade conosco”, comentou uma Siegemund aparentemente irritada, antes de desligar abruptamente.
Bill Whittle, comentarista conservador que apresentou o jantar da AFA em 6 de setembro, disse ao The Grayzone que não poderia “nem confirmar nem negar” se Shillman havia declarado a intenção de cortar o financiamento à organização de Kirk. “Foi um evento privado”, enfatizou.
A AFA publicou vários vídeos em seu canal no YouTube contendo discursos da gala, mas o pronunciamento de Shillman está ausente.
Andrew Kolvet, produtor executivo e porta-voz da TPUSA, não respondeu ao pedido de comentário enviado por mensagem direta à sua conta pessoal no Twitter/X, onde segue este repórter.
Mike Cernovich, ativista conservador e aliado de longa data de Kirk, pode ter aludido ao rompimento supostamente iniciado por Shillman quando tuitou, em 13 de setembro de 2025: “Charlie estava prestes a perder seu último grande doador porque se recusou a banir Tucker Carlson dos eventos. Há MUITA gente derramando lágrimas de crocodilo. Os bilionários precisam ser expostos como os cretinos que são.”
Charlie was about to lose his last major donor because he refused to ban Tucker Carlson from events. There are A LOT of people shedding crocodile tears. The billionaires must be exposed for the cretins that they are.
— Cernovich (@Cernovich) September 13, 2025
Junto com a aparente ruptura entre Shillman e Kirk, o The Grayzone soube que os aliados de Netanyahu nos EUA intensificaram sua campanha para controlar o falecido fundador da TPUSA à medida que sua fatídica primeira turnê universitária se aproximava.
Funcionários de Netanyahu geriam Kirk “quase diariamente”
A ruptura de Shillman com Kirk coroou uma campanha de pressão de meses, vinda de figurões sionistas, operadores da mídia e do próprio primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, para alinhar o falecido ativista conservador à agenda do autoproclamado Estado judeu. Como o The Grayzone relatou, citando um amigo de longa data de Kirk, o fundador da TPUSA recusou uma oferta de Netanyahu para intermediar uma nova injeção de financiamento em sua organização vinda de sua rede de milionários e bilionários sionistas nos EUA.
Este repórter também revelou que Kirk e o bilionário pró-Israel Bill Ackman realizaram um retiro secreto nos Hamptons, em agosto, onde Kirk enfrentou intensa pressão e até reprimendas irritadas de participantes sionistas devido à sua desobediência percebida.
Um participante da reunião secreta nos Hamptons disse ao The Grayzone que cada um dos influenciadores presentes foi convidado para uma viagem de propaganda a Israel, com todas as despesas pagas. A viagem ocorreu ainda em agosto sob os auspícios da Newsmax, um veículo de direita que agora recebe financiamento do Ministério das Relações Exteriores de Israel.
De volta à TPUSA, a crescente pressão dos figurões sionistas deixou Kirk irritado e perturbado nas semanas que antecederam sua morte. No dia seguinte à reunião nos Hamptons, ele desabafou publicamente sobre “stakeholders” judeus tentando controlar sua mensagem. Entre as exigências recebidas por Kirk em seus últimos dias estava a de cancelar o convite a Tucker Carlson — crítico declarado de Netanyahu — para ser o palestrante principal no próximo America Fest da TPUSA. Kirk não apenas resistiu à exigência, como também convidou a principal crítica republicana a Israel no Congresso, a deputada Marjorie Taylor-Greene, para comparecer ao evento.
O The Grayzone soube ainda de uma série de chamadas no Zoom entre Kirk e operadores sionistas que tentavam impedi-lo de sair da linha. As ligações ilustram a crescente pressão a que o falecido ativista conservador estava submetido nas semanas que antecederam sua morte.
Uma chamada, realizada apenas 24 horas antes do assassinato de Kirk, incluiu Joshua Hammer, editor sênior da Newsweek e um dos principais lobistas de Israel dentro da mídia americana. “Estávamos meio que orientando ele com pontos de fala, estratégia e como lidar com as perguntas hostis esperadas”, relembrou Hammer.
Outro participante de uma recente chamada no Zoom com Kirk, o capitalista de risco ultrassionista Shaun Maguire, da Sequoia Capital, foi ao Twitter/X repreender a podcaster e ex-diretora de comunicação da TPUSA, Candace Owens, por afirmar que Ackman havia submetido Kirk a um lobby indesejado sobre suas novas visões sobre Israel.
“Estive em uma conversa com 10 pessoas, com @BillAckman e Charlie sobre esse assunto. Fizemos alguns Zooms no último trimestre falando sobre Israel, antissemitismo e como o Ocidente vence… Sua história está errada”, protestou Maguire.
Minutos depois de publicar o tweet, Maguire o apagou por razões desconhecidas. O The Grayzone conseguiu preservar uma parte da postagem.
Pesach Wolicki, um rabino israelense de direita que supervisiona tours de propaganda israelense para jovens americanos por meio de sua organização Israel365 Action, posicionou-se como o “tutor” sionista pessoal de Kirk nos meses que antecederam sua morte.
O The Grayzone obteve um e-mail privado da Israel365 Action de Wolicki para um ativista conservador oferecendo uma viagem a Israel em outubro. Em nome do “movimento anti-woke”, a Israel365 ofereceu levar o ativista em uma delegação para “explorar mais sobre a história bíblica de Israel, visitar os locais de 7 de outubro e… conferir algumas operações na fronteira de Gaza”.
O conselho consultivo de Wolicki inclui Tila Falic Levy, herdeira da fortuna Duty Free America, que ela e sua família canalizaram para o empreendimento de assentamentos ilegais de Israel na Cisjordânia ocupada e para as campanhas políticas tanto de Netanyahu quanto de Donald Trump. Frank Gaffney, um prolífico ativista antimuçulmano apoiado por Shillman, também integra o conselho da Israel365.
Em uma entrevista de 17 de setembro à ILTV, de Israel, Wolicki disse que esteve “em contato com Charlie quase diariamente por meses”, aproveitando esse acesso para neutralizar os “desacordos de Kirk com a política israelense”.
“Ele às vezes acreditava em coisas, como muita gente, que estavam por aí na mídia. E essa foi realmente a substância do nosso relacionamento: verificar as coisas e descobrir a verdade.”
Wolicki reclamou que “havia muitas pessoas ao redor [de Kirk] no movimento America First que estavam ativamente tentando fazê-lo se voltar contra Israel.”
A ansiedade crescia dentro do movimento sionista em relação à turnê universitária de Kirk, marcada para setembro. À medida que a primeira data se aproximava, na Utah Valley University, Wolicki disse que Kirk “acabou em uma posição em que estava defendendo Israel o tempo todo, e isso o deixava louco, porque ele queria falar sobre a América.”
Wolicki disse ao New York Post que Kirk “estava em um humor combativo” durante a última conversa, poucas horas antes de sua morte. O rabino afirmou que Kirk havia concordado em entrar em um grupo de Whatsapp no qual aparentemente receberia um fluxo constante de pontos de fala pró-Israel durante sua turnê universitária.
Mas as conversas no Whatsapp nunca aconteceram. Momentos após o início de seu evento na Utah Valley University, em 10 de setembro, Kirk foi morto pelo que parecia ser uma única bala de um assassino.
Em 17 de setembro, Benjamin Netanyahu divulgou um vídeo pela conta oficial do primeiro-ministro israelense nas redes sociais negando veementemente qualquer envolvimento no assassinato de Charlie Kirk. Foi a segunda vez que ele negou responsabilidade pelo disparo desde a morte de Kirk.
* Jornalista premiado e autor de vários livros e materiais publicados em alguns dos principais jornais dos Estados Unidos, além de reportagens investigativas no Grayzone, fundado por ele em 2015. Reportagem publicada em 22/09/2025 no Grayzone.
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