“O dia da libertação foi o mais difícil de nossos vinte anos; fomos torturados por 15 horas”

“Desde o momento em que fomos informados de que seríamos libertados, 'israel' pretendia nos matar", revela Murad al-Rub. Segundo ele, as algemas eram tão apertadas que cortavam a pele e a carne e, em alguns casos, chegavam até o osso.

28/10/2025

O ex-prisioneiro palestino Murad Abu al-Rub, de 45 anos, ainda apresenta sinais de tortura. (Foto: cortesia)

Por Fayha Shalash*

Um prisioneiro palestino libertado no recente acordo revelou, em entrevista ao The Palestine Chronicle, que foi submetido a torturas severas até o último momento antes de sua libertação.

Murad Abu al-Rub, de 45 anos, da aldeia de Jalbun, perto de Jenin, foi detido há 20 anos e condenado à prisão perpétua. No entanto, ele afirmou que seu último dia na prisão foi mais difícil do que os 20 anos anteriores.

O Shin Bet israelense informou a Murad que ele seria libertado e voltaria para sua casa em Jalbun, mas, no último minuto, Abu al-Rub foi surpreendido ao saber que seria deportado para o Egito.

No recente acordo com a Resistência Palestina, Israel libertou 250 prisioneiros palestinos cumprindo prisão perpétua e longas penas, além de 1.700 prisioneiros da Faixa de Gaza detidos após a guerra, em troca da libertação, pelo Hamas, dos 20 prisioneiros israelenses restantes.

A Associação Addameer de Direitos Humanos informou que, após o acordo, mais de 9.100 prisioneiros palestinos continuam em prisões israelenses, incluindo 400 crianças e 53 mulheres.

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Intenção de matar

O dia anterior ao acordo foi brutal; os prisioneiros incluídos no acordo foram transferidos de todas as prisões para a prisão de Ofer, em preparação para a libertação. No entanto, essa jornada foi acompanhada por tortura e humilhação.

“Eles me transferiram da prisão de Rimon para a prisão de Ofer, onde ficamos desde o amanhecer até as 22h. Então me informaram que eu não seria libertado em Jenin, mas deportado para o Egito porque representava uma ameaça à segurança do Estado. Pensei muito na minha família, que aguardava ansiosamente minha libertação e havia preparado a casa para me receber”, contou Abu al-Rub.

Enquanto os prisioneiros programados para a libertação estavam detidos em Ofer, foram agredidos diversas vezes e espancados com barras de ferro enquanto estavam algemados. Marcas das torturas e espancamentos permaneceram em seus corpos mesmo duas semanas após a libertação.

Depois de colocá-los em salas escuras específicas, homens mascarados entravam e começavam a espancar brutalmente os prisioneiros, mirando deliberadamente nas mãos, no peito e na cabeça para causar o maior dano possível.

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“Sofri fraturas nas costelas depois de levar vários socos no peito. Um dos golpes também quebrou um dente meu. Alguns prisioneiros tiveram fraturas no nariz, no rosto e nas mãos”, acrescentou.

As algemas e os grilhões eram tão apertados que cortavam a pele e a carne e, em alguns casos, chegavam até o osso. A ausência de acompanhamento médico causou inúmeras complicações. A perna de um prisioneiro ficou constantemente inchada e dolorida; após a libertação, Abu al-Rub foi ao médico, que constatou que ela estava quebrada.

“Desde o momento em que fomos informados de que seríamos libertados, Israel pretendia nos matar. As algemas de ferro permaneceram em nossas mãos por 36 horas consecutivas e o dia da libertação foi o mais difícil de nossos vinte anos. Fomos torturados por 15 horas, obrigados a ajoelhar em um chão coberto de cascalho e cacos de vidro, descalços. Nossas pernas sangraram e o cascalho penetrou em nossos corpos”, continuou.

Noventa e cinco prisioneiros foram libertados das prisões de Nafha e Rimon para suas casas na Cisjordânia, mas foram surpreendidos ao descobrir que 25 deles foram deportados no último minuto, enquanto suas famílias os aguardavam em Ramallah.

“Eu realmente chorei quando soube que seria deportado. Ninguém gosta de estar longe de sua pátria e de sua família. É uma política maliciosa, porque significa deportar famílias inteiras para fora da Palestina como parte de uma política de deslocamento suave”, explicou Abu al-Rub.

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Centros de tortura

De acordo com a Autoridade Palestina para Assuntos dos Prisioneiros, Israel intensificou suas medidas repressivas contra os detentos, coincidindo com o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023.

Abu al-Rub relatou essas condições, dizendo ter perdido 30 quilos — e se considerava sortudo, pois muitos perderam 40 ou 50 quilos por causa da desnutrição deliberada.

A política do Serviço Prisional Israelense era dar aos prisioneiros 1.000 calorias por dia, enquanto um homem adulto necessita de mais de 2.000 calorias para realizar atividades normais. A perda de peso e o enfraquecimento físico eram visíveis entre os prisioneiros.

O café da manhã consistia em 5 a 8 gramas de geleia, 10 a 15 gramas de iogurte e quatro fatias de pão. O almoço consistia em cinco colheres de arroz malcozido, meio copo pequeno de sopa sem sabor, quatro fatias de pão e um ovo cozido há vários dias.

Além da campanha sistemática de fome, os prisioneiros eram submetidos a espancamentos constantes e injustificados pelas chamadas forças especiais, a ponto de as prisões se transformarem em centros de tortura — cenário em que 80 prisioneiros morreram em apenas dois anos.

“As forças especiais invadiam de repente os quartos, armadas e acompanhadas por cães policiais, alegando que os prisioneiros haviam quebrado as regras, quando, na verdade, não havia nada na cela com que pudéssemos quebrar regras — apenas colchões e nada mais. Eles começavam a nos amarrar com as mãos para trás, abaixavam nossas cabeças e nos espancavam severamente até sangrarmos”, relatou Abu al-Rub.

Mustafa Abu Arra, de 63 anos, um prisioneiro idoso em detenção administrativa desde o início da guerra e portador de doenças crônicas, foi espancado brutalmente, mesmo os guardas sabendo de seu estado. Ele voltou para a cela sem conseguir andar e, um dia depois, começou a ter dificuldades para respirar.

“Esse prisioneiro estava na mesma ala que eu. De repente, ele caiu no chão, sem conseguir respirar, porque o haviam atingido no peito. Gritamos para que o levassem ao médico, mas eles não responderam. Horas depois, quando sua condição piorou e ele desmaiou, o levaram ao hospital, e então soubemos que ele havia morrido”, acrescentou Abu al-Rub.

Não há acompanhamento médico para os prisioneiros dentro das prisões. Aqueles que precisam de medicamentos regulares são privados deles desde o momento da prisão. Qualquer detento que enfrente um problema de saúde é deixado à própria sorte.

“Eles nos deixavam acorrentados em um pátio o dia inteiro, insultando-nos e xingando-nos. Nossas cabeças tinham de permanecer abaixadas. Então lançavam gás lacrimogêneo contra nós, e ficávamos impotentes. Sufocávamos diante deles, e eles não moviam um dedo. Métodos nazistas eram usados contra nós — ainda mais na alimentação e no tratamento — e éramos impedidos de orar”, explicou o ex-detento.

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Liberdade incompleta

As imagens divulgadas do ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, insultando prisioneiros palestinos, destroem o coração dos libertos e os fazem sentir culpa por terem deixado milhares para trás, enfrentando um destino incerto.

“Não nos sentimos completamente livres, porque há mais de 9.000 prisioneiros sofrendo opressão sistemática, incluindo 125 condenados à prisão perpétua, cuja idade não lhes permite fazer greves ou protestos. Quando vi o vídeo de Ben-Gvir, pensei que teria sido melhor continuar na prisão com eles, porque é uma sensação extremamente dolorosa deixá-los para trás.”

Quando Abu al-Rub foi libertado da prisão de Rimon, um prisioneiro idoso, detido há 33 anos e condenado à prisão perpétua, lhe disse: “Não se esqueça de mim.” Ele chorou amargamente e desejou que o nome daquele prisioneiro tivesse sido substituído pelo seu.

Apesar de sua deportação para o Egito, o exército israelense invadiu a casa de sua família em Jenin, destruindo seus pertences e ameaçando os parentes para que não demonstrassem alegria ou celebrassem sua liberdade, advertindo que a casa seria demolida se o fizessem.

Até hoje, Israel impede a família Abu al-Rub — e as famílias da maioria dos prisioneiros libertados e deportados ao Egito — de viajar para reencontrar seus filhos após tantos anos de ausência, iniciando para elas uma segunda jornada de sofrimento.

“Assisti a uma entrevista com um jornalista israelense e um oficial israelense. O oficial disse ao jornalista: ‘Minha missão é impedir que os dentes dos prisioneiros libertados apareçam’ — ou seja, impedir até mesmo que sorriam. O jornalista respondeu: ‘Mas por dentro eles estão felizes.’ O oficial disse: ‘Não posso impedir a felicidade interior deles, mas é proibido que demonstrem qualquer alegria.’ A felicidade é proibida em qualquer lar palestino”, concluiu Abu al-Rub.

* Jornalista palestina baseada em Ramallah. Graduou-se na Universidade de Birzeit em 2008 e trabalha desde então como repórter e apresentadora. Seus artigos foram publicados em diversas plataformas online. Reportagem publicada por The Palestine Chronicle em 27/10/2025.

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