Um mandato para o uso da força: o que a resolução da ONU sobre Gaza significa na prática

Aprovada com 13 votos a favor e nenhum contra, a nova resolução do Conselho de Segurança deu aos Estados Unidos um mandato para criar o que chama de “Força Internacional de Estabilização” e um comitê “Conselho da Paz” para tomar o poder em Gaza.

21/11/2025

Votação no Conselho de Segurança da ONU na segunda-feira aprovou o plano de Donald Trump para Gaza. (Foto: Divulgação)

Por Robert Inlakesh*

O Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) aprovou na segunda-feira uma resolução de mudança de regime contra Gaza, efetivamente emitindo um mandato para que uma força de invasão entre no enclave costeiro sitiado e instale, à força, uma autoridade governante liderada pelos EUA.

Aprovada com 13 votos a favor e nenhum contra, a nova resolução do Conselho de Segurança deu aos Estados Unidos um mandato para criar o que chama de “Força Internacional de Estabilização” (ISF) e um comitê “Conselho da Paz” para tomar o poder em Gaza. O presidente dos EUA, Donald Trump, exaltou a resolução como histórica, enquanto o governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu se opôs a um elemento do texto que menciona o Estado Palestino.

Para entender o que acabou de acontecer, é necessário destrinchar a própria resolução e o contexto mais amplo que envolve o acordo de cessar-fogo. Quando esses elementos se combinam, fica claro que esta resolução é talvez uma das mais vergonhosas já aprovadas na história das Nações Unidas, cobrindo-a de vergonha e minando a própria base sobre a qual foi fundada.

Uma resolução de mudança de regime ilegal

Em setembro de 2025, uma comissão de inquérito da ONU concluiu que Israel cometeu o crime de genocídio na Faixa de Gaza.

Para mais contexto, a Corte Internacional de Justiça (CIJ), o órgão jurídico internacional mais poderoso da ONU, determinou que Israel está plausivelmente cometendo genocídio e, por isso, emitiu ordens para que Tel Aviv encerrasse violações específicas do direito internacional em Gaza — ordens que foram posteriormente ignoradas.

Levando isso em conta, a própria ONU não pode alegar ignorância sobre as condições vividas pelo povo de Gaza, nem poderia sustentar de forma crível que os Estados Unidos são um ator neutro capaz de impor uma resolução equilibrada daquilo que seus próprios especialistas consideraram um genocídio.

Esta resolução em si não é um plano de paz e priva totalmente os palestinos de sua autonomia; portanto, sua natureza é antidemocrática. Ela também foi aprovada em grande parte devido a ameaças dos EUA contra Rússia e China, advertindo que, se vetassem a resolução, o cessar-fogo terminaria e o genocídio seria retomado. Por isso, Pequim e Moscou se abstiveram de votar, apesar da contraproposta russa e da oposição inicial à resolução.

A resolução também dá sinal verde ao que os EUA chamam de “Conselho da Paz”, que atuará governando Gaza durante o período de cessar-fogo. O chefe desse conselho é ninguém menos que o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, que afirma que será acompanhado por outros líderes mundiais. O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair — que lançou a invasão ilegal do Iraque — também foi cogitado como possível integrante do “Conselho da Paz”.

Em 4 de fevereiro deste ano, o presidente Trump prometeu “assumir” e “possuir” a Faixa de Gaza. Posteriormente, buscou impor um plano para uma nova Gaza, que ele chegou a chamar de “Riviera de Gaza”, elaborado pelo economista sionista Joseph Pelzman. Uma das recomendações de Pelzman foi: “vocês têm que destruir tudo e recomeçar do zero”.

Siga a Fepal no X!

Siga-nos também no Instagram!

Inscreva-se em nosso canal no Youtube!

Quando ficou claro que os EUA sozinhos não poderiam justificar uma força de invasão e simplesmente tomar Gaza à força em nome de Israel, para construir a “Gaza de Trump”, uma praia-cassino para bilionários ligados a Jeffrey Epstein, uma nova solução foi desesperadamente buscada. Vieram então uma série de reuniões entre funcionários do governo Trump e lideranças regionais para arquitetar uma estratégia que permitisse alcançar seus objetivos em Gaza.

Depois que o cessar-fogo foi violado em março pelos israelenses, resultando no assassinato de cerca de 17 mil palestinos adicionais, vários esquemas foram planejados e propostas apresentadas. Os EUA apoiaram e ajudaram a criar o agora extinto programa chamado “Fundação Humanitária de Gaza” (GHF), que foi usado para privatizar a distribuição de ajuda no território em meio a um bloqueio total de alimentos por três meses.

Palestinos famintos, que caminhavam rapidamente para a fome generalizada, afluíram a esses centros da GHF, onde foram alvejados por contratados militares privados dos EUA e pelas forças de ocupação israelenses, assassinando mais de 1.000 civis. Enquanto isso, Arábia Saudita e França preparavam o que viria a ser a proposta da “Declaração de Nova York” para encerrar a guerra e levar países ocidentais a reconhecer o Estado da Palestina na ONU.

Subitamente, ao que parecia surgir do nada, veio o chamado “plano de paz” de Trump, anunciado na Casa Branca em outubro. Esse plano parecia, a princípio, pedir o fim total da guerra, uma troca mútua de prisioneiros e a retirada das forças israelenses de Gaza em fases.

Desde o início, o “plano de 20 pontos” de Trump era vago e impraticável. Israel violou imediatamente o cessar-fogo no primeiro dia e já assassinou quase 300 palestinos desde então. A primeira fase do cessar-fogo deveria terminar rapidamente, idealmente em cinco dias, mas o acordo está travado há mais de um mês.

Durante todo esse tempo, ficou cada vez mais claro que os israelenses não respeitariam a “Linha Amarela” que define a zona de separação e têm violado o acordo operando mais profundamente em Gaza do que haviam aceitado inicialmente. A zona ocupada por Israel deveria ser 53% de Gaza; na realidade, está próxima de 58%. A ajuda humanitária também não está entrando em quantidade suficiente, apesar das negativas dos EUA e de Israel — algo confirmado por importantes grupos de direitos humanos e organizações humanitárias.

Nos bastidores, a equipe dos EUA responsável pelo acordo de cessar-fogo — liderada por Jared Kushner e Steve Witkoff — tem avaliado inúmeras propostas sinistras para o futuro de Gaza. Eles afirmaram publicamente que a reconstrução ocorrerá apenas na porção do território controlada por Israel, sugerindo também que pontos de distribuição de ajuda seriam instalados ali para forçar a população a sair da área sob controle de fato do Hamas. Esse plano foi frequentemente chamado de “nova Gaza”.

Enquanto tudo isso se desenrolava, incluindo discussões sobre reviver a desastrosa GHF, os israelenses têm operado junto a quatro esquadrões de morte colaboradores ligados ao ISIS, que controlam e operam atrás da Linha Amarela em Gaza.

Nenhum mecanismo foi criado para punir Israel pelas violações diárias do cessar-fogo, incluindo a continuação da destruição da infraestrutura civil remanescente de Gaza — algo totalmente alinhado ao plano de Joseph Pelzman de “destruir tudo”.

A resolução do CSNU não apenas torna Donald Trump o líder efetivo da nova força administrativa a ser imposta à Faixa de Gaza, como também dá sinal verde à criação da chamada Força Internacional de Estabilização. Esta ISF é explicitamente definida como uma força militar multinacional encarregada de desarmar o Hamas e todos os grupos armados palestinos em Gaza.

Os EUA afirmam que não participarão diretamente dos combates com “tropas em solo”; no entanto, já implantaram centenas de soldados e estariam construindo uma instalação militar — que negam ser uma base, mas que, na prática, será uma. Embora não sejam soldados americanos a matar e morrer lutando contra grupos de resistência palestinos, os EUA estarão no comando dessa força.

Isso não é uma “força de paz da ONU” nem equivalente à UNIFIL no sul do Líbano; seu objetivo é concluir a meta israelense de derrotar a resistência palestina pela força. Em outras palavras, soldados estrangeiros serão enviados de todo o mundo para morrer por Israel, e os contribuintes desses países pagarão a conta.

A única razão pela qual Israel expressou reservas sobre este plano é a inclusão de um trecho que afirma que, se a Autoridade Palestina (AP) — que não controla Gaza e é rejeitada pela maioria dos palestinos — realizar reformas exigidas pelo Ocidente e por Israel, então as condições “podem finalmente estar presentes para um caminho credível rumo à autodeterminação e ao Estado palestino”. A palavra-chave aqui é “podem” — ou seja, não é vinculante e foi simplesmente incluída para dar aos líderes árabes corrompidos uma desculpa para votar “sim”.

O Hamas e todos os outros partidos políticos palestinos, exceto o ramo dominante do Fatah subordinado a Israel e aos EUA, se opuseram à resolução do CSNU. O Hamas chegou a pedir à Argélia que votasse contra; em vez disso, o governo argelino elogiou Donald Trump e votou a favor. Como é típico de regimes árabes e de maioria muçulmana que não representam a vontade de seus povos, todos obedeceram e se curvaram para agradar Washington.

Não deve funcionar

Como tem sido a história de todas as conspirações arquitetadas contra o povo de Gaza, esta também está destinada ao fracasso. Não apenas fracassará, como provavelmente terá um enorme efeito reverso e levará a ações desesperadas.

Para começar, a força de invasão — ou ISF — será um empreendimento militar que precisará reunir dezenas de milhares de soldados que falam línguas diferentes e nada têm em comum, para tentar alcançar uma vitória onde Israel fracassou. É um pesadelo logístico só de imaginar.

Quanto tempo levaria para mobilizar esses soldados? No mínimo, meses. E por quanto tempo esse processo duraria? Ninguém tem respostas claras. Além disso, o que acontecerá se Israel recomeçar os bombardeios a qualquer momento — por exemplo, em caso de confronto que mate soldados israelenses? Como reagiriam essas nações se ataques aéreos israelenses matassem seus soldados ou os colocassem em risco?

Além disso, dezenas de milhares de soldados podem não ser suficientes; se o objetivo é destruir toda a infraestrutura militar do território, pode ser necessário mobilizar centenas de milhares. E, se isso não for possível, trabalharão junto às forças israelenses?

Também está claro que ninguém sabe onde estão todos os túneis e combatentes; se Israel não conseguiu encontrá-los, como outros conseguiriam? Afinal, EUA, Reino Unido e vários outros já ajudaram Israel com inteligência e reconhecimento por mais de dois anos para obter essas respostas.

Por fim, quando soldados árabes, europeus ou do Sudeste Asiático retornarem em sacos mortuários, como seus governos justificarão isso? O presidente ou primeiro-ministro desses países terá de se levantar e dizer: “Desculpem, pessoal, seus filhos e filhas estão agora em caixões porque Israel precisava de uma força militar capaz de fazer o que eles não conseguiram fazer, e nós tivemos que ajudá-los a completar seu projeto genocida”? E quantos civis palestinos serão massacrados por esses invasores estrangeiros?

Quanto ao plano de derrubar o governo do Hamas em Gaza, o povo do território não aceitará invasores estrangeiros como seus ocupantes, assim como não aceita os israelenses. Também não aceitará colaboradores ligados ao ISIS como qualquer tipo de força de segurança. A situação já é caótica dentro de Gaza, e isso enquanto seu próprio povo — experiente e consciente de suas condições — administra a segurança e algumas questões administrativas. Isso inclui tanto o Hamas quanto outros grupos que operam independentemente dele, mas dentro do território sob seu controle de fato.

Assim como o exército israelense afirmava que ocuparia a Cidade de Gaza, apresentando inúmeros planos para isso, para limpar etnicamente o território e “esmagar o Hamas”, os EUA vêm coordenando com Israel ao longo de todo esse período. Todos esses esquemas ruíram e terminaram em fracasso.

Já se passou quase um mês e meio, e ainda não há respostas claras sobre como esse “plano de paz” de Trump deveria funcionar — e está evidente que os israelenses apresentam novas propostas diariamente.

Não há mecanismo permanente para transferências de ajuda, que Israel bloqueia. Não há visão clara de governança. O plano das “duas Gazas” nem sequer faz parte do cessar-fogo ou do plano Trump, mas está sendo implementado de forma incoerente. A ISF não faz sentido e parece tão mal planejada quanto a GHF. O Hamas e outras organizações palestinas não entregarão suas armas. Não há plano real de reconstrução. Os israelenses insistem que não haverá Estado palestino e não permitirão nenhuma forma de governo palestino independente em Gaza — e a lista de problemas continua.

O que realmente parece aqui é que todo esse esquema de cessar-fogo é uma tentativa às cegas de alcançar os objetivos de Israel enquanto também dá às suas forças uma pausa e redireciona seu foco para outras frentes, reconhecendo que não há solução clara para a questão de Gaza por agora.

As Nações Unidas demonstraram, ao longo dos últimos dois anos, ser nada mais do que um palco para teatro político. São incapazes de punir, prevenir ou sequer parar o crime dos crimes.

Agora que o direito internacional sufocou até a morte sob os escombros de Gaza, ao lado das milhares de crianças que ainda jazem sob eles, o futuro deste conflito mudará. Esta votação do CSNU demonstra que não existe direito internacional, nem comunidade internacional, e que a ONU é simplesmente um amontoado de escritórios luxuosos permitidos de funcionar apenas sob as regras de gângsteres.

Se os grupos de resistência palestinos sentirem que estão encurralados e surgir uma oportunidade — como outra guerra israelense contra o Líbano — há grande probabilidade de que uma decisão militar importante seja tomada. Se isso ocorrer, esta resolução do CSNU será, em grande parte, responsável.

Quando o sofrimento em Gaza finalmente terminar — seja porque Israel obliterou toda sua oposição regional e exterminou inúmeros civis em seu caminho, seja porque Israel for militarmente destruído — a ONU deveria ser dissolvida, assim como aconteceu com a Liga das Nações. É um projeto fracassado como aquele que a precedeu. Algo novo deve ocupar seu lugar.

* Jornalista, escritor e diretor de documentários que cobre o Oriente Médio, em especial a Palestina. Artigo publicado em 19/11/2025 no Palestine Chronicle.

Notícias em destaque

24/02/2026

Massacre: soldados israelenses mataram trabalhadores humanitários em Gaza à queima-roupa

Por Sharif Abdel Kouddous* Soldados israelenses dispararam quase mil tiros [...]

LER MATÉRIA
23/02/2026

Epstein ajudou “israel” a manipular Acordos de Oslo através do governo norueguês, indicam revelações

Por Synne Furnes Bjerkestrand* A Noruega sempre se elogiou por seu papel na [...]

LER MATÉRIA
20/02/2026

Epstein ajudou “israel” a exportar para a África tecnologia usada em Gaza

Por Murtaza Hussain e Ryan Grim* No ano anterior à morte suspeita de [...]

LER MATÉRIA
19/02/2026

Governo israelense instalou e manteve sistema de segurança em apartamento de Epstein

Por Ryan Grim e Murtaza Hussain* O governo israelense instalou equipamentos [...]

LER MATÉRIA
18/02/2026

“israel” se prepara para executar prisioneiros palestinos por enforcamento

Por Monjed Jadou* Dezenas de prisioneiros palestinos morreram em prisões [...]

LER MATÉRIA