Não é Gaza, é “israel” que precisa ser “estabilizado”

Gaza é tratada como um problema a ser administrado, enquanto "israel", a entidade que cometeu genocídio e destruiu toda a estabilidade em Gaza, é protegido de qualquer responsabilização.

26/11/2025

Militares do Exército dos EUA, militares israelenses e outras autoridades internacionais monitoram telas exibindo mapas e imagens da Faixa de Gaza durante uma visita guiada da imprensa ao Centro de Coordenação Civil-Militar (CMCC) em 20 de novembro de 2025, em Kiryat Gat, "israel". [Amir Levy/Getty Images]

Por Ahmed Al-Najjar*

Por dois anos, o mundo assistiu em tempo real à destruição de Gaza e escolheu não pará-la. Mais de setenta mil palestinos foram mortos e a maior parte da Faixa foi reduzida a escombros, enquanto os mesmos governos que correram para conter outras guerras regionais não produziram nada além de alertas vazios, cessar-fogos ilusórios e arranjos de ajuda que entregaram morte em vez de alívio.

Só agora, depois de promoverem mais um chamado “cessar-fogo” que trouxe quase nenhum alívio no terreno, afirmam estar intervindo para ajudar a moldar uma paz e estabilidade de longo prazo. Seu foco, porém, já está equivocado. Atuam como se Gaza fosse o lado que precisa de estabilização, e não o Estado que destruiu toda forma de estabilidade ali – Israel.

De fato, as potências globais lideradas pelos Estados Unidos agora afirmam estar trabalhando para oferecer “segurança estabilizadora” ao nosso pequeno e massacrado território por meio de estruturas de vigilância e controle construídas em colaboração com a própria entidade que o genocidou.

Assim, no rescaldo desse novo “cessar-fogo”, Gaza enfrenta uma nova e insidiosa forma de controle. Cerca de 30 quilômetros ao noroeste da Faixa, no chamado assentamento “Kiryat Gat”, construído sobre as ruínas da aldeia palestina de Iraq al-Mansheya, autoridades dizem que dezenas de países e organizações estão agora presentes dentro do Centro de Coordenação Civil-Militar (CMCC), liderado pelos EUA — um centro de comando estrangeiro para as operações em Gaza, que se expandiu rapidamente nas últimas semanas. Apresentado como o primeiro passo concreto no esforço dos EUA para “estabilizar” Gaza, é um centro onde autoridades estrangeiras supervisionam a Faixa à distância e começam a moldar o modelo que governará seu futuro.

Mas, se esses arquitetos da estabilidade estão tão dedicados ao futuro de Gaza, por que não entram e caminham entre seu povo? Têm medo dos sobreviventes devastados que afirmam ajudar? Ou sabem que, uma vez dentro de Gaza, nem mesmo sua segurança pode ser garantida contra as bombas de Israel? O que está claro é que, ao se posicionarem ao lado do exército israelense, escolheram trabalhar com os perpetradores, transformando a promessa de paz em mais um instrumento de controle.

Eu já vi essas missões estrangeiras de “estabilidade” antes, muito antes de Gaza se tornar o centro da atenção mundial.

Ainda me lembro da primeira vez que vi uma foto de um veículo blindado branco da UNIFIL quando criança. Fiquei impressionado ao descobrir que as pacíficas Nações Unidas, cujas declarações cheias de preocupação deveriam silenciar as armas, na verdade endossavam portar armas em nome da paz. Sua cor branca parecia tranquilizadora, como se atrás daquelas bestas blindadas estivesses salvadores que finalmente trariam segurança. Na época, eu realmente acreditava que os soldados da paz da ONU, ou “pacificadores”, circulando naqueles veículos brancos, poderiam um dia nos proteger sempre que Israel tentasse nos bombardear.

Mas crescer me ensinou outra coisa. Percebi que uma força incapaz de proteger a si própria dos ataques de Israel jamais poderia proteger qualquer outra pessoa. Eles não eram salvadores; eram observadores, assistindo às atrocidades acontecerem, impotentes ou desinteressados em intervir.

E, à medida que cresci, vi os supostos pacificadores não apenas falharem em nos proteger, mas começarem a facilitar a matança israelense das maneiras mais “criativamente humanas”.

A Fundação Humanitária de Gaza (GHF), um programa dirigido pelos EUA criado para controlar e distribuir ajuda depois que Israel intensificou seu bloqueio, mostrou claramente como a intervenção estrangeira pode alimentar diretamente a violência de Israel. Ela reivindicava um dever moral de nos “alimentar” depois que Israel aprofundou sua política de fome interrompendo entregas de comida sob o pretexto de que a ajuda “não estava chegando a quem merecia”. Então vieram as armadilhas de morte da GHF, onde mais de 2.600 palestinos foram massacrados sob fogo israelense enquanto oficiais americanos assistiam aos jogos de fome que haviam ajudado a criar.

Agora, Washington retorna com mais parceiros e promessas de uma “Força Internacional de Estabilização” não apenas para “entregar ajuda”, mas para garantir todo o futuro de Gaza. Sua nova missão, novamente vestida com a linguagem da paz, se parece ainda menos com salvação e mais com outro experimento no laboratório pós-genocídio, onde Gaza é remodelada para se adequar às visões externas de “estabilidade”. Essa força só precisava de legitimidade internacional — um pré-requisito que conquistou muito mais facilmente, com apoio dos EUA, do que qualquer resolução voltada a interromper o genocídio israelense no Conselho de Segurança.

Qualquer resquício de segurança que ainda restava em Gaza desapareceu, não apenas por causa do rugido constante dos bombardeios israelenses, mas porque aqueles que tentaram manter unido o que restava de nossa frágil ordem local foram rotulados de “terroristas”. Israel os bombardeou e, em seu lugar, empoderou criminosos para impor sua própria visão do que deveria ser “segurança” para nós. O resultado foi — e em grande parte ainda é — um caos genocida fabricado, onde um saco de farinha se tornou um tesouro cobiçado.

Ver essas versões impostas de “segurança” se desdobrarem enquanto as pessoas sofrem é horrendo. Não pode haver segurança real quando até mesmo a comida continua sendo usada como arma, enquanto “planejadores de paz” internacionais debatem como devemos ser alimentados, em vez de levantar o cerco. Cada necessidade básica da vida ainda é tratada como um privilégio que devemos provar merecer, para convencer os “pacificadores” de que somos dignos delas. Só então, talvez, eles gentilmente pedirão ao nosso carcereiro que afrouxe as correntes do bloqueio.

A própria sobrevivência não é garantida. O futuro que nos prometeram já chegou na chamada era “pós-cessar-fogo”. As bombas de Israel nunca cessaram de fato; mais de 340 palestinos foram mortos desde que o “cessar-fogo” começou. Para nós, não é surpresa que Israel continue a nos bombardear mesmo sob um “cessar-fogo”, mas o que é verdadeiramente perigoso agora é que esses massacres acontecem sob os olhos dos novos “observadores da paz”, que não ousam intervir nem sequer reconhecer o derramamento de sangue recente cometido por Israel. O nível de desumanização que enfrentamos é aterrorizante; somos reduzidos a criaturas que podem ser mortas, famintas e apagadas enquanto somos observadas. Estamos presos como feras em uma jaula cujas barras só apertam, punidos por crimes que nunca cometemos por um carcereiro que nem tenta esconder sua essência criminosa.

Israel, internacionalmente acusado de genocídio, cometeu todos os crimes imagináveis, travou múltiplas guerras não provocadas e ainda mantém uma população inteira como refém, mesmo enquanto Gaza é retratada como o lado que precisa de “estabilização”. E, ainda assim, continua sem restrições, desfrutando de seu papel como anfitrião querido dos próprios mediadores de paz encarregados de “estabilizar” Gaza. O mundo está preparado para enviar forças para monitorar as crianças de Gaza lutando para encher seus baldes d’água sob cerco, enquanto um exército cujos soldados orgulhosamente se autodenominam um “Império Vampiro” circula livremente, depois de já ter derramado o sangue das crianças de Gaza.

Nos últimos dois anos, o povo de Gaza suportou a forma mais extrema de punição coletiva. E agora, esses novos esforços de “paz” parecem como se o mundo quisesse punir ainda mais Gaza por resistir e sobreviver ao genocídio de Israel.

As mãos que vetaram repetidamente o fim desse genocídio na ONU, enquanto abraçavam calorosamente líderes israelenses e armavam seus aviões com bombas autografadas, jamais trarão paz a Gaza. Os olhos do mundo que observaram o terror israelense e escolheram desviar o olhar não podem absolver sua cumplicidade fingindo subitamente monitorar Gaza de perto. O foco deles deve estar na verdadeira fonte de instabilidade, em conter a violência estatal e desvairada que ataca orgulhosamente a essência da humanidade em todas as telas. Em vez de retratar os palestinos como a força ameaçadora, o mundo deve conter e responsabilizar aqueles que detêm o poder real de destruir vidas diariamente.

Nossa Gaza merece espaço para sobreviver, não ser enquadrada como um enclave isolado em uma terra que está sendo etnicamente limpa, ou como o lado “instável” que requer supervisão estrangeira. Gaza é palestina, inseparável da terra e de seu povo; não existe Palestina sem Gaza. A opressão visível que nosso povo tem suportado há mais de um século desafia as palavras, mas a lente desumanizante do mundo trata nossa agonia como espetáculo.

Ansiamos pelo momento em que a justiça seja feita, mas como isso pode acontecer quando cada suposta consequência para nosso opressor se torna outro castigo imposto a nós?

Enquanto a ocupação fora da lei for protegida contra responsabilização e autorizada a agir com impunidade, não haverá estabilidade para Gaza, para a Palestina mais ampla ou para a região. A estabilidade só será possível quando o mundo confrontar a violência de Israel, não as pessoas que sobreviveram a ela.

* Ahmed Al-Najjar é jornalista e acadêmico palestino baseado em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza. Ele está cobrindo o genocídio israelense em andamento e publicou este artigo na Al Jazeera em 26/11/2025.

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