“israel” deu dois tiros na cabeça da minha irmãzinha durante o cessar-fogo em Gaza
Sundus não teve sorte o bastante para que o mundo condenasse o tiro que levou ou sequer para receber cuidados médicos adequados.
Sundus. À esquerda, ela com roupas novas e maquiagem antes do casamento, onde levou o tiro. À direita, uma foto dela na UTI em 4 de novembro [Cortesia de Eman Hillis].
Por Eman Hillis*
Um atirador israelense deu um tiro na minha irmã de seis anos durante o casamento de um amigo da família, no norte de Gaza, durante o cessar-fogo em 3 de novembro.
No bairro de Daraj, longe da área amarela controlada por Israel, Sundus brincava no primeiro andar de um salão de festas com outras crianças, feliz com suas roupas novas, enquanto o casamento em si acontecia no andar de cima.
De repente, ela caiu.
Gritos preencheram o salão no segundo andar. As balas assobiavam alto entre os convidados. Uma bala acertou a dama de honra na mandíbula e outra atingiu a prima do noivo no ombro. O vestido branco da noiva ficou vermelho — o casamento terminou antes que alguém dançasse.
Maria, minha irmã de sete anos, veio correndo. “A Sundus está dormindo no chão e não acorda.”
Mamãe correu para o primeiro andar, procurando por toda parte por Sundus, mas encontrou apenas um poço de sangue. Seu telefone tocou: “Estamos no Hospital Batista [Hospital Árabe Al-Ahli]. Venham rápido”, disse seu irmão Ali.
“Um atirador israelense deu um tiro na cabeça da criança Sundus Hillis”, dizia a notícia que circulava enquanto íamos para o hospital. Não sabíamos nada sobre a nossa pequena.
Quando chegamos, Sundus estava deitada em uma cama de hospital. Sangue cobria seu lindo rosto, manchando a maquiagem e as roupas coloridas que ela estava tão feliz em usar.
“Sundus, meu amor. Acorde”, mamãe implorava, mas ela apenas gemia fracamente.
“Duas balas na cabeça”, disse uma enfermeira examinando o ferimento de Sundus à mamãe.
Dois buracos, uma bala e algumas partes do cérebro perdidas, mostrava o relatório médico.
Na UTI
Sundus foi transferida para o Hospital Al-Shifa.
Antes de entrar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o neurocirurgião tocou sua mão direita – ela a moveu inconscientemente. Mas, quando ele tocou sua mão e perna esquerdas, nada se mexeu.
Sundus passou por uma cirurgia de três horas e permaneceu na UTI. Só nos permitiam visitá-la por 15 minutos. Quando entrei no quarto pela primeira vez, o médico me guiou até uma criança com o rosto inchado e a cabeça enfaixada, tubos por todos os lados, que se parecia muito pouco com a minha linda Sundus.
Passou um dia, e Sundus ainda ficou na UTI até que outro paciente em estado crítico precisasse do leito, e ela foi movida para a enfermaria.
Ela finalmente acordou depois de dois dias, incapaz de ver ou mover o lado esquerdo do corpo. Não importava quanto eu falasse com ela; a única resposta que recebia eram gritos altos.
Ela esfregava o rosto, tentando olhar para qualquer coisa, mas sem conseguir. “Meus olhos estão vesgos… Não consigo ver nada. Por que vocês me deixaram assim?”, ela gritava.
O casamento pelo qual ela esperara durante dias havia desaparecido da memória. Em sua mente, ela ainda está dormindo no abrigo dos nossos primos, onde estava antes do salão de festas.
Sundus, tentando desenhar, em sua cama de hospital [Cortesia de Eman Hillis].
Papai, também, que costumava reclamar, implora para que ela faça barulho, mas não recebemos nada além de: “Pare de falar. Minha cabeça dói.”
“Por que você me enterrou viva?”, ela certa vez gritou para mamãe, após tentativas angustiantes e inúteis de rolar na cama do hospital.
Enforcada pelo bloqueio
Poucos dias após a cirurgia, Sundus conseguiu perceber a luminosidade da luz. Às vezes conseguia ver vultos; em outras, não conseguia ver nada.
Quando percebeu a decepção em nossas vozes, começou a adivinhar. Que a borboleta vermelha era azul ou que a boneca rosa era uma rosa cor-de-rosa.
Eu via Sundus ficar com raiva de si mesma porque não conseguia se mover, e então cair em lágrimas – é um ciclo que ela sofre diariamente.
O neurocirurgião não tinha respostas claras quando perguntávamos se ela voltaria ao normal. Um simples “inshallah” era a resposta para todas as perguntas.
Tivemos que confrontá-lo várias vezes com perguntas específicas para obter uma resposta clara.
“Ela precisa de fisioterapia, e depende de Deus se ela recuperará a mobilidade ou não… sua visão vai melhorar até certo ponto, mas não voltará a ser como era”, ele disse.
Sundus não parava de gemer de dor, e o hospital não tinha recursos adequados. Tivemos que vasculhar as ruas em busca de analgésicos e outras coisas para ela.
Um dia, eu precisava encontrar uma touca médica para cobrir o ferimento – mas não encontrei nada em quatro farmácias, atravessando ruas destruídas. Outra vez, precisei de gaze cirúrgica e só encontrei outro tipo, mas ela precisava de qualquer coisa, urgentemente, então tive de comprar o que havia.
Tentei todas as organizações internacionais para ajudar a tirá-la de Gaza. Enviei seus relatórios médicos a qualquer pessoa que pudesse ajudar – tudo em vão.
Sundus ouviu falar em evacuação e começou a sonhar com a possibilidade de voltar a se mover e ver novamente.
“O dano está feito. Tudo o que a bala destruiu não pode ser reparado por um cirurgião”, disse um médico estrangeiro por mensagem depois de analisar os registros de Sundus remotamente, e nosso último fio de esperança se despedaçou.
A condição dela se deteriorou à medida que o atendimento médico era limitado no hospital destruído. Seu ferimento infeccionou e precisou de outra cirurgia, na qual perdeu uma quantidade significativa de sangue.
Parecia que Israel atirou em Sundus e depois usou o bloqueio para apertar uma corda em seu pescoço.
Sundus na cadeira de rodas no Hospital Al-Shifa [Cortesia de Eman Hillis].
Por dois anos, tomamos decisões impossíveis para evitar que qualquer membro da família se ferisse.
Quando Israel emitiu alertas para o norte de Gaza, evacuamos para o sul. Quando Israel alertou sobre uma operação terrestre em Khan Younis, evacuamos para Rafah.
Quando a operação terrestre em Rafah foi anunciada, corremos para Deir el-Balah. Só retornamos ao norte de Gaza quando a trégua entrou em vigor em janeiro de 2025.
Dormimos nas ruas, abrigando-nos das bombas sob o tecido fino de tendas. Durante meses, suportamos fome extrema, sem nos aproximar dos lançamentos de ajuda ou da Fundação Humanitária de Gaza (GHF).
Os palestinos sitiados em Gaza sabem qual destino cruel os espera quando se ferem.
Sentimos que éramos donos da terra quando o cessar-fogo entrou em vigor, sentindo-nos sortudos por termos perdido apenas nossa casa e sofrido desnutrição. Então um atirador israelense tirou de nós esse alívio.
O que a pequena Sundus fez para que o soldado israelense atirasse nela na cabeça? Supostamente estávamos em cessar-fogo.
Ironia: meus amigos em todos os lugares, em vez de condenar o disparo, primeiro me perguntaram se Sundus estava na “área amarela” controlada por Israel.
Todas as vezes em que quase morremos tentando ficar na “zona segura” passaram pela minha cabeça enquanto eu repetia que ela não estava, compartilhando a localização do salão de festas com dezenas de pessoas.
Atirar em uma criança de seis anos é um crime de guerra.
No entanto, isso nem sequer virou manchete.
Não foi nada fora do comum em Gaza.
Sundus não teve sorte o bastante para que o mundo condenasse o tiro que levou ou sequer para receber cuidados médicos adequados.
* Eman Hillis é uma verificadora de fatos baseada em Gaza que contribui para a Al Jazeera, compartilhando relatos em primeira mão da vida sob cerco no norte de Gaza. Reportagem publicada em 09/12/2025 na Al Jazeera.
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