Após o 7 de outubro, Alemanha se tornou um Estado policial
Sob a desculpa do combate ao terrorismo e em meio à intensa repressão ao movimento pró-Palestina, a Alemanha vem adotando leis ditatoriais, multiplicando o orçamento da polícia, aumento a espionagem e permitindo todos os tipos de abusos e violações de privacidade dos cidadãos
Polícia berlinense reprime ações pró-Palestina. (Ilustração: Ali Al-Hadi Shmeis)
Por Timo Al-Farooq*
Desde que a guerra genocida de “Israel” contra Gaza, apoiada pela Alemanha, começou há mais de dois anos, as ações policiais excessivas e violentas contra membros do movimento de solidariedade à Palestina na Alemanha, particularmente na capital Berlim, causaram danos irreparáveis à reputação global do país.
Diversos observatórios de direitos humanos denunciaram o padrão de violência cometido pelos pelotões de policiais rotineiramente mobilizados em atos pacíficos e anti-genocídio.
Mas a Berliner Polizei, embriagada de poder e da falta de responsabilização, parece ostentar essas condenações repetidas como medalhas de honra, em vez de tratá-las como alertas urgentes para uma necessária autoavaliação e melhoria institucional.
Legalizando invasões de domicílio
Sob o polêmico prefeito Kai Wegner e seu governo de coalizão liderado pela União Democrata-Cristã, o estado-cidade de Berlim vem ampliando os poderes policiais de maneira sem precedentes.
Em 4 de dezembro, o parlamento estadual de Berlim aprovou uma nova lei policial que é verdadeiramente matéria-prima para pesadelos orwellianos e que tende a agravar o gritante déficit democrático da Alemanha pós-7 de outubro.
Entre outras coisas, essa reforma da já existente “Lei Geral de Segurança e Ordem Pública” (ASOG) permite que a polícia invada secretamente as residências de pessoas consideradas de interesse e instale softwares espiões em seus laptops e telefones.
Ela também legaliza a política de atirar para matar, o que significa que os agentes agora podem fazer uso letal de suas armas de fogo sem medo de responsabilização penal.
Como a Alemanha está coagindo imigrantes a normalizar ‘israel’
Em declaração após a aprovação bem-sucedida da lei, Wegner a apresentou como uma necessidade para combater o terrorismo, proteger mulheres da violência doméstica e aliviar a carga dos policiais que “trabalham duro todos os dias” e que agora teriam “poderes mais claros, melhores ferramentas e mais respaldo”.
Em um momento em que o Estado alemão sionista trata o slogan de libertação “Do rio ao mar, a Palestina será livre” como apoio ao terrorismo, não é difícil perceber quem serão os principais alvos dessa lei audaciosamente autoritária.
Além disso, Wegner deixa de mencionar os inúmeros casos de violência de gênero contra manifestantes mulheres nos quais seus agentes uniformizados estiveram implicados, incluindo agressões sexuais.
E será que perfilar racialmente pessoas negras e pardas, ficar o dia inteiro à toa em vans policiais marcadas às custas do contribuinte e espancar homens, mulheres e crianças pacíficos em protestos realmente se qualifica como “trabalho duro”?
Superfinanciamento da polícia
Wegner, cuja propaganda rotineiramente apresenta policiais violentos em protestos pró-Palestina como vítimas, não é o único responsável por a polícia da cidade ter saído do controle; administrações sucessivas permitiram a má conduta e o abuso de poder policial ao superfinanciar uma instituição voraz que carece até mesmo de um simulacro de supervisão.
Um estudo de dezembro do Justice Collective, com sede em Berlim — um projeto que busca “acabar com a dependência das sociedades em relação ao policiamento, à punição e às prisões”, segundo seu site — constatou que o orçamento da polícia de Berlim aumentou 65% em 14 anos, passando de menos de € 1,2 bilhão em 2010 para mais de € 2 bilhões em 2024.
Para colocar esses números em perspectiva, o orçamento da polícia é maior do que todo o orçamento do Departamento de Trabalho, Assuntos Sociais, Igualdade, Integração, Diversidade e Antidiscriminação e mais que o dobro do orçamento do Departamento de Cultura e Coesão Social, afirmam os autores.
Especialmente sob o governo de coalizão de esquerda formado pelos social-democratas, o DIE LINKE e os Verdes, que administrou a cidade de 2016 a 2021, o orçamento policial aumentou impressionantes 34%.
Segundo o relatório de 57 páginas, esse gasto desproporcional e “excessivo” é “alimentado e legitimado por ondas sempre novas de pânicos morais, nas quais narrativas racistas que associam migração ao crime e à desordem impulsionam demandas por cada vez mais policiamento, especificamente contra grupos racializados como migrantes”.
Os autores também afirmam que “Berlim despendeu recursos consideráveis para policiar manifestações em solidariedade à Palestina” e que “esse policiamento foi marcado por violência generalizada”.
Violando o princípio da neutralidade
Quando se trata de proibir policiais muçulmanos ou sikhs fardados de usarem coberturas religiosas para a cabeça, autoridades policiais alemãs são sempre rápidas em apontar para o princípio da neutralidade ao qual funcionários públicos, incluindo as forças de segurança, estariam vinculados.
Mas quando os interesses geopolíticos da Alemanha estão em jogo — especialmente quando vinculados à Staatsräson pró-Israel do país —, o supostamente sagrado Neutralitätsgebot da polícia é imediatamente jogado ao mar.
Os números do apoio da Alemanha ao genocídio em Gaza, apesar do repúdio do seu próprio povo
Uma investigação recente do veículo independente alemão Itidal revelou como a presidente da polícia de Berlim, Barbara Slowik Meisel, violou de forma flagrante esse princípio de neutralidade ao participar de uma viagem patrocinada por Israel a Tel Aviv, com o objetivo de “aprender com a polícia de Israel”.
O que foi divulgado como uma conferência de segurança foi, na realidade, um evento de propaganda, no qual fabricantes israelenses de armas — muitos dos quais forneceram às Forças de Ocupação Israelenses produtos usados em seu genocídio em Gaza — exibiram armamentos, e cujas pautas incluíam títulos como “Reconhecendo ameaças” e “A ameaça do Hamas na Alemanha”, informa o Itidal.
Slowik Meisel e presidentes de polícia de outros estados alemães também teriam sido instados, em discursos dirigidos aos convidados da Alemanha, a reprimir com mais rigor conteúdos anti-“Israel” nas redes sociais, segundo a investigação.
Se restava alguma dúvida residual sobre o racismo antipalestino entranhado na polícia de Berlim, essa viagem imoral de lobby à entidade sionista, realizada pela mais alta autoridade da corporação, dissipou todas elas.
À medida que 2025 chega ao fim, permanece claro que a Berliner Polizei não serve prioritariamente ao povo da cidade, mas sim aos interesses de um regime colonial de assentamento estrangeiro, a 3.000 quilômetros de distância, que continua a aniquilar, limpar etnicamente e oprimir os habitantes originais das terras que ocupa.
* Jornalista e comentarista político formado em estudos asiáticos e africanos. Artigo publicado no Al Mayadeen em 05/01/2025.
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