Da Palestina a Minneapolis, o ICE e “israel” usam o mesmo manual violento
Renee Good e Alex Pretti, assim como muitos palestinos antes deles, morreram porque forças autoritárias decidiram que eles não mereciam viver, e porque toda a estrutura jurídica e política existe para garantir que esses agentes jamais enfrentem consequências significativas por assassinato.
Agentes do ICE em Minneapolis após matarem Renee Good. (Foto: Chad Davis)
Por Ahmad Ibsais*
Em 7 de janeiro, agentes do ICE atiraram três vezes em Renee Good através da janela de seu carro enquanto ela aparentemente tentava se afastar deles em Minneapolis. Em seguida, impediram que ambulâncias chegassem até ela por quinze minutos, enquanto ela sangrava até a morte no banco do motorista, com sua parceira ao seu lado. Em poucas horas, a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, chamava Good — a mulher que acabara de ser executada em plena luz do dia por um agente federal — de “terrorista doméstica”, alegando que o agente havia agido em legítima defesa contra uma mulher que supostamente tentava atropelá-lo com seu veículo.
Se isso soa familiar, deveria soar, porque é exatamente o mesmo procedimento que Israel adota todas as vezes que mata um palestino. Tome, por exemplo, o caso de 6 de dezembro, há apenas algumas semanas, quando soldados israelenses em Hebron, no sul da Cisjordânia ocupada, ordenaram que o jovem Ahmad Rajabi, de 17 anos, parasse seu carro. Ele parou e, ainda assim, eles o mataram a tiros. Impediram que os serviços de emergência chegassem até Ahmad e também atiraram contra eles. Há inúmeros outros casos como o de Rajabi.
O ICE e o exército israelense utilizam o mesmo manual porque nascem do mesmo sistema de violência estatal e supremacia branca — a mesma engrenagem de controle racializado que foi refinada na Palestina e importada para cidades americanas por meio de políticas deliberadas e do lucro corporativo. Como escreveu Noura Erakat, o “bumerangue imperial já retornou”.
Chamar as vítimas de “terroristas” é a forma de tornar os mortos responsáveis por suas próprias mortes. Israel passou décadas fazendo com que todo palestino morto em um posto de controle estivesse “tentando atropelar soldados”, que todo jornalista baleado usando colete de imprensa estivesse “operando com militantes”, que toda criança morta fosse, de alguma forma, uma ameaça iminente que exigia força letal. De que outra maneira se pode justificar transformar Gaza em um cemitério?
É assim que a ocupação se manifesta em todos os lugares onde existe, em todo contexto em que agentes armados operam com total impunidade sobre populações privadas de proteção jurídica significativa ou de poder político. E, para além das forças paramilitares que tomam as ruas, os mesmos sistemas digitais de ocupação também estão migrando de volta para cá.
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A Palantir administra os sistemas de gestão de casos do ICE, que rastreiam e monitoram imigrantes para permitir deportações aceleradas, e essa mesma empresa fornece plataformas de direcionamento baseadas em IA para ataques aéreos do exército israelense, que decidem quais palestinos matar utilizando dados que incluem comunicações privadas entre palestino-americanos e seus parentes em Gaza. Empresas israelenses como Elbit e Paragon fornecem diretamente ao ICE e ao Departamento de Segurança Interna radares, sistemas de vigilância e spyware. A Liga Antidifamação (ADL) patrocina programas de intercâmbio policial nos quais policiais americanos viajam a Israel para aprender “melhores práticas” em gestão de postos de controle, repressão de multidões e na transformação de populações inteiras em ameaças à segurança.
A impunidade daqueles que veneram o ídolo da guerra também é idêntica. A imunidade qualificada nos Estados Unidos funciona exatamente como a impunidade de que desfrutam soldados israelenses quando matam palestinos, criando um circuito jurídico fechado que torna a responsabilização estruturalmente impossível. A doutrina garante que cada novo assassinato não possa estabelecer precedente, porque não há precedente a que se possa recorrer.
Soldados israelenses matam palestinos regularmente, seguidos de investigações de fachada que são abertas e depois discretamente encerradas meses ou anos depois, e processos quase nunca se concretizam. Lembra-se de Shireen Abu-Akleh?
Mas Renee não é a primeira a ser assassinada pelo ICE. Pelo menos trinta pessoas morreram sob custódia do ICE apenas em 2025, tornando-o o ano mais letal para detidos do ICE desde 2004. Conhecemos Renee por causa da visibilidade de seu assassinato, mas o ICE passou 2025 fazendo desaparecer corpos marrons cujos nomes a maioria de nós jamais conhecerá. Vale também mencionar que esses sistemas vão além do governo Trump, como muitos democratas se apressarão em afirmar. Obama adotou o ICE como uma agência ainda incipiente, e foram Obama e seu partido que colocaram o ICE no caminho para se tornar a força militar que é hoje. O ICE existe para aterrorizar comunidades imigrantes por meio de detenção, deportação e morte, para transformar a sobrevivência em um privilégio para qualquer pessoa que fique fora das fronteiras cada vez mais estreitas de quem é considerado merecedor de proteção. O ICE dispõe de um orçamento de US$ 170 bilhões ao longo de quatro anos, o que o torna o décimo terceiro maior exército do mundo.
N.E.: Renee também não foi a última. Ao menos quatro imigrantes morreram sob custódia do ICE em campos de detenção nos primeiros dias de 2026. E o episódio mais recente foi também em Minneapolis: no último sábado (24), o enfermeiro Alex Pretti filmava com seu celular uma abordagem de agentes federais ligados ao ICE quando foi atacado por eles, agredido e morto no meio da rua. Pretti também foi chamado de “terrorista doméstico” por aliados do presidente dos EUA.
Renee Good e Ahmad Rajabi morreram porque forças paramilitares autoritárias decidiram que eles não mereciam viver, e porque toda a estrutura jurídica e política existe especificamente para garantir que esses agentes jamais enfrentem consequências significativas por assassinato.
O arco moral do universo só se curva em direção à justiça quando nós mesmos o curvamos. Portanto, devemos resistir. Resistir significa recusar-se a aceitar tudo isso como normal, inevitável ou simplesmente “a forma como as coisas funcionam”. Significa protestar para exigir a acusação do agente que matou Renee Good sob a legislação estadual de Minnesota. Significa organizar-se para retirar financiamento e, em última instância, abolir completamente o ICE, porque uma agência com um orçamento de US$ 170 bilhões que aterroriza comunidades não pode ser reformada para se tornar algo humano.
E significa compreender que a libertação palestina está, de fato, ligada a todos nós. E, como os palestinos ensinaram ao mundo, devemos tomar a liberdade em nossas próprias mãos. De Minneapolis à Palestina, a ocupação precisa ser desmantelada completa e integralmente, ou continuará matando e se expandindo até que nenhum de nós esteja a salvo dela.
* Ahmad Ibsais é um palestino-americano de primeira geração e estudante de direito que escreve State of Siege. Artigo publicado no portal Mondoweiss em 09/01/2026.
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