“Ou vocês saem agora mesmo ou morrem” — A limpeza étnica de uma vila no Líbano por “israel”

Soldados israelenses foram de porta em porta na vila fronteiriça de Ain Arab, expulsando moradores de suas casas sob a mira de armas como parte de uma campanha sistemática para esvaziar vastas áreas do sul do Líbano.

05/06/2026

Crianças recebem ajuda alimentar no abrigo de Marj al-Zuhoor, para onde suas famílias fugiram após serem expulsas de Ain Arab, no sul do Líbano. 8 de maio de 2026. Foto de Osama Rkieh.

Por Lylla Younes*

Quando o Líbano e Israel anunciaram um acordo de cessar-fogo em 16 de abril, Nasreen Abd Elaal, seu marido e seus quatro filhos reuniram seus poucos pertences e deixaram a escola pública de Marj al-Zuhoor, onde haviam se abrigado — pela última vez, esperavam. No dia seguinte, retornaram à sua casa em Ain Arab, uma pequena vila situada nas planícies próximas à fronteira sul, onde administram um pequeno açougue e uma mercearia de esquina. Naquele mesmo dia, forças israelenses entraram na vila e estabeleceram um toque de recolher, advertindo os moradores locais a não saírem de casa após o anoitecer, antes de instalar um posto de controle na estrada de saída que segue para o sul.

Doze dias depois, Abd Elaal estava trabalhando atrás do balcão da loja quando viu um grande trator blindado avançando pela estrada, seguido por uma multidão de veículos militares transportando, segundo sua estimativa, mais de cem soldados israelenses. As tropas se espalharam pela vila, apontaram suas armas para os moradores e disseram que a área estava localizada dentro da nova “linha amarela” de Israel — uma linha que demarca uma zona de controle israelense ao longo da fronteira sul, dentro do território libanês, declarada unilateralmente por Israel utilizando a mesma terminologia empregada em Gaza. Os soldados disseram a Abd Elaal e aos demais moradores que tinham duas horas para evacuar rumo ao norte.

“Eles nem sequer nos deram isso”, recordou Abd Elaal. Ela correu para casa, colocou seus filhos na caminhonete da família e depois voltou para dentro com o marido para arrumar o que pudessem. Foram interrompidos pelo som de uma buzina e correram de volta para fora, onde encontraram um soldado israelense que havia aberto a porta do veículo e começado a buzinar enquanto as crianças estavam sentadas dentro. “Ele nos disse que tinha ordens para esvaziar a vila. Disse: ‘Ou vocês saem agora mesmo ou morrem’.” Os moradores foram expulsos tão rapidamente que muitos sequer conseguiram trancar as portas de suas casas ao sair, contou Abd Elaal.

A expulsão forçada de Ain Arab — onde soldados israelenses foram de porta em porta expulsando moradores sob a mira de armas — foi um exemplo marcante da campanha militar israelense para promover a limpeza étnica de vilas em todo o sul do Líbano. Defensores dos direitos humanos e moradores disseram ao Drop Site que não tinham conhecimento de um incidente semelhante nesta fase mais recente da guerra — normalmente, o Exército israelense utiliza bombardeios e artilharia para deslocar moradores à força. Mais de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas no Líbano desde 2 de março, e muitas não têm ideia de se ou quando poderão voltar para suas casas.

Abd Elaal retornou com a família para a mesma escola transformada em abrigo na vila de Marj al-Zuhoor, no Vale do Bekaa, onde, segundo ela, quatro famílias compartilham um único cômodo e o acesso à água é intermitente. Depois de estudar um mapa publicado pelo Exército israelense em 19 de abril, descobriram que sua vila estava, na verdade, localizada fora da “linha amarela” de Israel. Isso levou um grupo de homens da vila, incluindo o marido de Abd Elaal e uma autoridade local, a visitar um escritório do Exército na vila de Marjayoun em 21 de maio para perguntar se o Estado poderia trabalhar com a UNIFIL — a força de paz das Nações Unidas estacionada no sul — para permitir seu retorno às suas terras. Quando voltaram uma semana depois, autoridades militares disseram que não haviam conseguido garantir uma passagem segura para casa.

“Dizer que estamos destruídos não é suficiente”, afirmou Abd Elaal. A maioria dos moradores vivia da terra, e a expulsão significou que eles não puderam preparar os campos para o plantio da primavera. “Deixamos nossos meios de subsistência no solo e fugimos.”

A história de Ain Arab evidencia a natureza brutal e abrangente da campanha militar contínua de Israel no sul do Líbano, onde ordens de deslocamento são emitidas diariamente e linhas de avanço são traçadas e retraçadas sem consideração pela terra ou pela vida dos civis. Israel não respeitou o cessar-fogo anunciado em meados de abril e vem intensificando constantemente sua ofensiva aérea e terrestre, levando o Hezbollah a lançar uma campanha de ataques de resistência. A ofensiva israelense avançou gradualmente mais para o norte, culminando com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declarando no domingo que havia ordenado que o Exército israelense atacasse alvos no subúrbio sul de Dahiyeh, em Beirute, provocando a fuga de milhares de pessoas da área. A medida levou o Irã a considerar suspender completamente suas próprias negociações de cessar-fogo com os Estados Unidos.

Na segunda-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que Israel e o Hezbollah haviam concordado em reduzir a escalada dos combates após ele conversar com Netanyahu e com o Hezbollah por meio de mediadores. Trump afirmou que nenhuma tropa israelense iria “para Beirute” e que o Hezbollah havia “concordado em parar de atirar contra Israel”. Segundo ele, o Hezbollah havia “concordado que todos os disparos cessariam — que Israel não os atacaria, e eles não atacariam Israel”. Um comunicado da embaixada libanesa em Washington, divulgado na segunda-feira, afirmou que o Hezbollah havia concordado em não atacar o norte de Israel. Não houve declaração pública imediata por parte do Hezbollah.

Embora o acordo mais recente possa ter evitado outro grande ataque israelense à capital libanesa, ele pouco fez para interromper os combates ao sul do rio Zahrani e no Vale do Bekaa. Um dia após o anúncio de Trump, forças israelenses realizaram múltiplos ataques aéreos contra a cidade de Nabatieh, no sul do país, e reiteraram um aviso para que todos os moradores da área evacuassem antes de novos ataques planejados. Pelo menos oito pessoas foram mortas, incluindo duas crianças, em ataques israelenses na terça-feira, enquanto o Hezbollah também continuou lançando dezenas de projéteis e drones contra soldados israelenses.

“As vilas para as quais eles emitem avisos estão sendo devastadas”, disse Abbas Atwe, socorrista da Autoridade Islâmica de Saúde estacionado em Nabatieh. “Em alguns dias, vemos até 25 ataques aéreos em certos lugares.” Ele acrescentou que, embora muitos tenham deixado as vilas próximas de Nabatieh, milhares permanecem, seja porque não podem arcar com o custo de morar em outro lugar, seja porque se recusam a abandonar suas casas.

As ordens de deslocamento geralmente chegam na forma de listas de vilas publicadas pelo porta-voz militar israelense na plataforma X, que depois são disseminadas em grupos comunitários de WhatsApp e nas redes sociais. Ocasionalmente, a ocupação divulga imagens de satélite indicando precisamente quais edifícios pretende atacar. Mas, em muitos casos, os ataques caem aleatoriamente sobre residências civis, causando dezenas de vítimas por dia. Desde 2 de março, a ofensiva militar israelense contra o Líbano matou 3.468 pessoas e feriu mais de 10.500. Mais de 600 dessas mortes ocorreram desde que o chamado cessar-fogo foi declarado em meados de abril. Durante a última semana de maio, uma média de 11 crianças foi morta ou ferida em ataques israelenses a cada 24 horas, segundo o UNICEF.

“Isso não constitui avisos prévios legais porque não fornece aos moradores as informações necessárias para que possam realmente sair”, disse Kristine Bekerle, diretora regional adjunta da Anistia Internacional para o Oriente Médio e Norte da África, ao Drop Site. Segundo ela, o direito internacional permite que exércitos desloquem moradores apenas para sua própria segurança — e não para alcançar objetivos estratégicos — e exige que garantam tanto a saúde e a segurança dessas pessoas quanto seu retorno seguro assim que a ameaça às suas vidas tenha passado. Fazer o contrário constitui “o crime de guerra da transferência ilegal, que é basicamente uma forma de descrever deslocamento forçado”.

Uma forma de determinar se um exército está realizando transferências ilegais, explicou Bekerle, é examinar o que ele faz para impedir o retorno dos deslocados. No sul do Líbano, Israel teria feito isso por dois métodos: a demarcação da chamada “linha amarela”, além da qual civis libaneses são proibidos de passar, e uma campanha sistemática de destruição em massa de propriedades civis, garantindo que os moradores não tenham casas para as quais retornar. Ela descreveu as conclusões de um relatório da Anistia que compara as ordens de deslocamento emitidas na fase atual da guerra com as emitidas em 2024. Os pesquisadores concluíram que as ordens de deslocamento são muito mais amplas e frequentes nesta rodada de combates e que, com menor frequência, são acompanhadas de instruções específicas sobre quais edifícios e bairros devem ser evacuados.

“Está simplesmente piorando”, disse Bekerle.

Em um dos maiores ataques recentes, um bombardeio israelense próximo ao Hospital Jabal Amel, na cidade meridional de Tiro (Sour), matou quatro pessoas, feriu quase 130 — incluindo dezenas de médicos, enfermeiros e funcionários administrativos do hospital — e causou danos extensos à instalação, inclusive interrompendo o fornecimento de eletricidade às unidades de terapia intensiva. Equipes de resgate trabalharam durante horas para retirar os feridos dos escombros, e o Hospital Hayram, nas proximidades, lançou um apelo urgente por doações de sangue. O sistema de saúde do Líbano tem sido repetidamente atacado por Israel, com hospitais bombardeados e paramédicos e socorristas atingidos em ataques duplos ou triplos, resultando em mais de 120 mortos nos últimos três meses.

Mohanad Hage Ali, diretor de pesquisa do Malcolm H. Kerr Carnegie Middle East Center, disse ao Drop Site que a destruição em larga escala de propriedades civis é um dos principais objetivos militares de Israel no sul do Líbano.

“Se você olhar para o modelo de Gaza, não se trata realmente de controlar o Hamas; trata-se de reestruturar os arredores geográficos do Estado de Israel de maneira a mudar a realidade permanentemente”, afirmou Ali, acrescentando que os israelenses já destruíram aproximadamente 60 vilas próximas à fronteira sul. “Você empurrou os xiitas libaneses, que a mentalidade de segurança israelense equipara ao Hezbollah, cada vez mais para longe das cidades e assentamentos israelenses.”

De volta ao abrigo em Marj al-Zuhoor, Abd Elaal ansiava por retornar à sua terra, onde esperava encontrar sua casa ainda de pé. Desde que chegaram ao abrigo, sua filha mais nova tem sido internada repetidamente devido a doenças agravadas pelas noites frias. Abd Elaal apelou ao Estado e às forças da UNIFIL para garantirem sua passagem segura de volta a Ain Arab antes que fosse tarde demais. Embora Líbano e Israel tenham realizado várias rodadas de negociações diretas em Washington, Israel se recusou a retirar suas tropas do Líbano e apenas intensificou sua ofensiva, avançando mais profundamente em território libanês e expulsando mais pessoas de suas casas.

“Nada está saindo dessas negociações. Vamos dormir com a morte e acordamos com a morte”, disse Abd Elaal. “Eles destruíram tudo. Diga-me, o que mais eles querem? O que resta?”

* Lylla Younes é jornalista investigativa e escritora baseada em Beirute. Reportagem publicada no Drop Site News em 02/06/2026.

Notícias em destaque

05/06/2026

“Ou vocês saem agora mesmo ou morrem” — A limpeza étnica de uma vila no Líbano por “israel”

Por Lylla Younes* Quando o Líbano e Israel anunciaram um acordo de [...]

LER MATÉRIA
03/06/2026

A invasão israelense do Líbano está devastando séculos de história

Por Alia Chughtai e Yara Algosaibi* A paisagem do Líbano é marcada por [...]

LER MATÉRIA
02/06/2026

“Atire para matar”: soldados israelenses continuam assassinando civis em Gaza sete meses após cessar-fogo

Por Sam Mednick* O soldado israelense de combate viu seus companheiros de [...]

LER MATÉRIA
01/06/2026

Autoridades israelenses se recusam a devolver enorme acervo de vídeos de 7 de outubro. O que estão escondendo?

Por Michelle Witte* O governo israelense continua mantendo sob sua posse um [...]

LER MATÉRIA
29/05/2026

Israelenses estupraram crianças palestinas em campos de tortura, diz relatório da ONU

Por Liza Rozovsky* Um relatório das Nações Unidas afirma que o [...]

LER MATÉRIA
28/05/2026

A farsa do jornalismo investigativo liberal de “israel”

Por Sebastian Ben Daniel (John Brown)* Duas semanas atrás, o programa [...]

LER MATÉRIA