Caos calculado: por dentro da transferência de corpos palestinos para Gaza por “israel”

Trabalhadores humanitários descrevem um sistema desorganizado e deliberadamente opaco para a devolução de palestinos mortos e vivos a Gaza durante os primeiros meses do genocídio — um sistema que ajuda a explicar por que milhares de pessoas continuam desaparecidas.

24/07/2026

Palestinos enterram corpos em uma vala comum em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 22 de novembro de 2023. (Atia Mohammed/Flash90)

Por Frances Brogan*

Às 6h de uma manhã gelada de dezembro de 2023, um caminhoneiro em Gaza abriu a tampa de um contêiner metálico de transporte de 12 metros de comprimento. No interior, cuidadosamente empilhados e envoltos em nylon azul-vivo preso com abraçadeiras plásticas, estavam os restos mortais de 80 homens, mulheres e crianças palestinos.

Autoridades da Administração de Coordenação e Ligação (CLA) para Gaza — o braço local do COGAT, a unidade militar israelense responsável pela gestão dos assuntos civis dos palestinos sob a ocupação de “israel” — haviam telefonado para funcionários da ONU naquela mesma manhã, pedindo que providenciassem a retirada do contêiner de um terminal próximo à passagem de Karem Abu Salem/Kerem Shalom, entre a Faixa de Gaza, “israel” e o Egito. Ariel, um funcionário da ONU lotado nas proximidades (que pediu para usar um pseudônimo e pronomes neutros por temer represálias de “israel”), enviou um motorista ao terminal, que então transportou o contêiner para o lado palestino da passagem.

Embora a CLA tenha se recusado a fornecer detalhes, Ariel sabia o que havia dentro. A relutância das autoridades despertou suas piores suspeitas, e havia buracos nas paredes metálicas do contêiner dos quais emanava, a cerca de 30 metros de distância, o odor pútrido de corpos em decomposição. Ainda assim, Ariel não quis verificar pessoalmente; havia entregas urgentes de ajuda humanitária para supervisionar, e lidar com cadáveres não fazia parte de suas atribuições. Foi um alívio quando funcionários do Ministério da Saúde de Gaza vieram recolher o contêiner na manhã seguinte.

Como os corpos chegaram sem identificação e em diferentes estados de decomposição — e como “israel” tem bloqueado continuamente a entrada em Gaza de ferramentas de identificação forense, incluindo kits de teste de DNA —, era impossível entrar em contato com as famílias dos mortos.

Ariel e seus colegas já haviam auxiliado anteriormente na devolução de dezenas de detidos palestinos a Gaza, vindos de prisões israelenses e centros militares de detenção, por meio da passagem de Karem Abu Salem. Eles não sabiam se os corpos naquele contêiner pertenciam a detidos que morreram sob custódia israelense ou a pessoas mortas em Gaza e depois levadas para “israel”. Os nomes dos mortos e a forma como morreram permanecem desconhecidos.

Esse não foi um caso isolado. Entrevistas com mais de 15 trabalhadores humanitários, a maioria dos quais falou sob condição de anonimato por medo de ser alvo de “israel”, revelam um sistema no qual a devolução de palestinos mortos e vivos durante os primeiros meses do genocídio foi realizada com pouco ou nenhum aviso prévio, nenhuma transparência e praticamente sem registros confiáveis.

Os relatos de Ariel e de outros trabalhadores humanitários lançam nova luz sobre as dificuldades enfrentadas pela ONU e pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) para localizar milhares de palestinos detidos por “israel” desde o início do genocídio, em outubro de 2023, incluindo aqueles que podem ter morrido sob custódia. Os depoimentos também levantam dúvidas sobre a precisão dos dados publicados, sugerindo que o destino dos desaparecidos — tanto mortos quanto vivos — talvez jamais seja conhecido.

Centenas de corpos não identificados

Depois que “israel” lançou sua invasão terrestre de Gaza no fim de outubro de 2023, os militares prenderam milhares de palestinos e os transferiram para centros militares de detenção dentro de “israel”, incluindo a notória base de Sde Teiman. Ali, os detidos eram mantidos sem acusação formal e completamente isolados do mundo exterior, privados de comida, torturados e submetidos à violência sexual.

Os centros militares de detenção destinam-se a servir como locais temporários de custódia antes que os presos sejam transferidos para o sistema prisional israelense e formalmente registrados. Porém, muitos palestinos vistos pela última vez sob custódia militar jamais apareceram em registros oficiais das prisões ou das Forças Armadas, segundo a organização israelense de direitos humanos HaMoked, frustrando qualquer tentativa de rastrear seu paradeiro.

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“Embora haja subnotificação em praticamente todas as violações de direitos humanos que se possa imaginar, ela é ainda maior no caso dos desaparecimentos forçados”, afirmou Grażyna Baranowska, integrante do Grupo de Trabalho da ONU sobre Desaparecimentos Forçados ou Involuntários. Segundo a ONU, nenhuma guerra ou situação de emergência pode justificar desaparecimentos forçados; quando praticados de forma ampla ou sistemática, eles podem configurar crime contra a humanidade.

Até maio de 2024, funcionários da ONU em Karem Abu Salem haviam facilitado o retorno de mais de 1.500 detidos palestinos vivos a Gaza e recebido um total de 227 cadáveres não identificados em três entregas distintas: 80 em dezembro de 2023, 100 em janeiro de 2024 e 47 em março de 2024. Segundo Zaher Al-Wahidi, autoridade de saúde em Gaza, o Ministério da Saúde encaminhou os corpos ao Hospital Mohammed Yousef El-Najar, na vizinha Rafah. Os mortos acabaram sendo enterrados em uma vala comum na cidade, sem qualquer marca que registrasse sua perda.

O acompanhamento sistemático da ONU terminou em março de 2024, quando a incursão israelense em Rafah reduziu drasticamente o acesso humanitário à passagem (posteriormente, “israel” devolveu mais 100 corpos em agosto de 2024 e outros 88 em setembro, que o Ministério da Saúde transportou ao Complexo Médico Nasser, em Khan Younis, antes de serem enterrados no Cemitério Austríaco). Mesmo antes disso, porém, o monitoramento era fragmentado e improvisado, pois recaía sobre trabalhadores humanitários cujas funções oficiais não incluíam receber detidos ou cadáveres, enquanto os avisos de “israel” sobre as devoluções eram mínimos ou inexistentes.

O total de 415 corpos deixados em Karem Abu Salem entre dezembro de 2023 e setembro de 2024 é compatível com as estimativas dos trabalhadores humanitários envolvidos nas transferências. Muitos dos corpos estavam decompostos, sem membros ou mutilados; alguns haviam sido decapitados ou esfolados. As remessas também continham partes de corpos desmembrados, tornando impossível determinar o número exato de pessoas devolvidas. Nenhum dos corpos foi identificado até hoje.

“A ocupação israelense recusou-se a fornecer qualquer informação que indicasse suas identidades ou as circunstâncias [das mortes]”, lamentou Zaher Al-Wahidi. A não identificação dos mortos, a falta de tratamento digno aos restos mortais e a ausência de proteção às pessoas sob custódia constituem violações do direito internacional humanitário.

A transferência clandestina de palestinos mortos realizada por “israel” em setembro de 2024 foi a última entrega conhecida desse tipo. O Exército devolveu centenas de outros corpos palestinos como parte do acordo de cessar-fogo no outubro passado e continuou libertando pequenos grupos de detidos vivos por meio das passagens de Karem Abu Salem e Kissufim, principalmente em coordenação com o CICV.

Corpos de palestinos mortos em bombardeios aéreos israelenses durante a noite, na retomada dos ataques de “israel” contra Gaza, no Hospital Europeu, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 18 de março de 2025. (Doaa Albaz/Activestills)

Hoje, após quase três anos de genocídio, cerca de 8 mil habitantes de Gaza continuam desaparecidos, segundo o Centro Palestino para Pessoas Desaparecidas e Desaparecidas à Força. Mas esses números baseiam-se principalmente em relatos de familiares. O número real é quase certamente maior, porque famílias inteiras foram mortas em Gaza, não restando ninguém para comunicar seus desaparecimentos.

Das 5.400 solicitações de localização apresentadas por famílias de Gaza por meio da HaMoked, mais de 1.800 moradores continuam sem paradeiro conhecido, depois que os militares israelenses não forneceram qualquer indicação de que tivessem sido presos ou detidos.

Tal Steiner, diretora-executiva da HaMoked, acredita que a maioria dos desaparecidos provavelmente esteja morta, embora permaneça incerto se foram mortos em centros improvisados de detenção dentro de Gaza, sob custódia militar israelense, em zonas de combate, em consequência de terem sido usados pelo Exército israelense como escudos humanos, ou se continuam soterrados sob os escombros dos bombardeios israelenses. Alguns deles podem estar entre os corpos não identificados posteriormente devolvidos a Gaza.

A incerteza é agravada pelo longo e documentado histórico de “israel” de reter corpos palestinos. Em janeiro de 2026, o Estado mantinha sob sua posse os restos mortais de pelo menos 776 palestinos desde 1967, incluindo 88 pessoas que morreram sob custódia do Serviço Prisional de “israel” (IPS) ou das Forças Armadas após 7 de outubro.

‘Tudo é espontâneo — e isso faz parte do plano deles’

A natureza caótica da devolução de detidos e cadáveres ajuda a explicar por que não existe um registro confiável. Embora o CICV tenha, segundo o direito internacional humanitário, o mandato específico para facilitar a libertação de prisioneiros e a devolução de restos mortais, as três primeiras remessas de corpos não identificados foram todas recebidas por funcionários da ONU. Segundo Ariel, autoridades da CLA inicialmente notificavam apenas trabalhadores da ONU — e não o CICV — tanto sobre as libertações de detidos quanto sobre a chegada dos contêineres com corpos, obrigando os funcionários humanitários a improvisar uma resposta e solicitar posteriormente a assistência do CICV.

A ofensiva israelense contra Rafah, em maio de 2024, destruiu o armazém utilizado para receber os detidos e limitou permanentemente as operações humanitárias da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) na região. Ao final, o recebimento dos detidos passou ao CICV. Ainda assim, trabalhadores humanitários e pesquisadores de outras agências entrevistados para esta investigação mostraram-se céticos quanto à capacidade ou ao acesso suficientes do CICV para documentar adequadamente as libertações e prestar apoio apropriado aos detidos.

Segundo vários trabalhadores humanitários familiarizados com o processo, funcionários do CICV frequentemente chegavam aos armazéns de recepção no lado palestino da passagem depois que os detidos já haviam sido atendidos por trabalhadores da ONU, ou então compareciam com pessoal insuficiente para entrevistar adequadamente os libertados. Em algumas ocasiões, sequer apareciam no horário prometido, alegando falta de pessoal e de recursos.

“Onde estava o CICV em tudo isso?”, questionou um ex-alto funcionário da UNRWA, que pediu anonimato. “[Eles eram] inexistentes. Por que não vieram?”

Como ninguém mais assumiu essa tarefa, funcionários da UNRWA acabaram ficando responsáveis por receber os detidos e os corpos nos primeiros meses da guerra. Eles descreveram todo o processo como completamente improvisado.

Antes da retomada da entrada de ajuda humanitária por Karem Abu Salem, em 17 de dezembro de 2023, “israel” libertava detidos na passagem sem aviso prévio, e os funcionários da ONU frequentemente só tomavam conhecimento de sua chegada depois que eles já haviam retornado a Gaza.

A ONU só começou a registrar sistematicamente o retorno dos detidos naquele mês, depois que Ariel foi surpreendido pela chegada inesperada de 70 prisioneiros traumatizados e vítimas de abusos. “Eles estavam histéricos”, disse Ariel. “Você não conseguia consolá-los. Não sabiam onde estavam nem o que estavam fazendo.”

Entre esse grupo havia um homem de 85 anos que havia sido torturado, um homem cego submetido à fome e um homem cujas pernas esmagadas estavam unidas por pinos metálicos.

Perturbado com o que presenciou, Ariel pressionou a CLA para que avisasse previamente sobre futuras libertações. Embora isso estivesse muito além de suas responsabilidades oficiais, Ariel e outros trabalhadores humanitários transformaram um armazém em um centro improvisado de recepção e correram para conseguir alimentos, cobertores, escovas de dente e tudo o mais que pudessem obter para facilitar a reintegração dos detidos.

Mas, embora Ariel e seus colegas tenham mobilizado recursos para apoiá-los, o sistema de devolução permaneceu errático devido à recusa de “israel” em cumprir sua obrigação de fornecer informações suficientes. Quando havia aviso, a CLA normalmente informava os funcionários da ONU tarde da noite que os detidos chegariam às 6h da manhã seguinte, frequentemente fornecendo números incorretos de pessoas. Libertações programadas às vezes eram canceladas sem qualquer explicação.

“Tudo é espontâneo — e isso faz parte do plano deles”, afirmou Ariel, expressando sua convicção de que o caos administrativo era calculado para impedir que os trabalhadores humanitários prestassem assistência adequada aos detidos que retornavam.

Em alguns momentos, os trabalhadores humanitários tinham autorização para levar ônibus até a passagem. Em outras ocasiões, porém, a CLA obrigava os detidos — todos apresentando sinais de desnutrição, abusos e negligência médica — a caminhar descalços pelos três quilômetros que separavam os lados israelense e palestino de Karem Abu Salem.

Em uma das libertações, a CLA impediu os trabalhadores humanitários de levarem uma cadeira de rodas para transportar um menino de 12 anos que havia sido baleado nas pernas enquanto procurava comida para sua família. Em certas ocasiões, soldados israelenses que controlavam a passagem atiravam no chão para forçar os detidos a correr, segundo diversos trabalhadores humanitários que testemunharam esses episódios.

Detidos libertados em um armazém temporário da ONU próximo à passagem de Karem Abu Salem/Kerem Shalom, em Gaza. (Cortesia de Ariel, funcionário(a) da ONU)

‘É meu irmão? É meu pai?’

Como resultado desse processo caótico de devolução, os registros são incompletos desde o início.

Funcionários da ONU posicionados no lado palestino de Karem Abu Salem ajudaram a facilitar as libertações durante os seis primeiros meses da guerra; a última contagem abrangente da UNRWA remonta a abril de 2024, pouco antes de a agência perder acesso confiável à passagem e aos arredores. A frequência das libertações variava muito, ocorrendo desde duas vezes por semana até uma vez a cada três semanas, segundo vários funcionários da UNRWA. Os grupos variavam de cinco a 100 detidos e, às vezes, incluíam mulheres, idosos e crianças de apenas 12 anos.

Mesmo depois da criação desse sistema improvisado, trabalhadores humanitários disseram que algumas libertações ocorreram totalmente à margem dele, sem qualquer registro. Funcionários humanitários relataram ter visto detidos não registrados retornando pela passagem de Erez, fechada aos trabalhadores humanitários durante toda a guerra, e pela passagem Gate 96, que se tornou inacessível após a invasão de Rafah. “Tem que haver uma diferença substancial entre o número de pessoas registradas e assistidas e o número real”, afirmou um funcionário da ONU que pediu anonimato por receio de consequências profissionais.

A falta de transparência sobre as libertações é inseparável da ocultação, por parte de “israel”, de informações ainda mais básicas: quem havia sido detido, onde essas pessoas estavam sendo mantidas e quantas morreram sob custódia. Segundo Naji Abbas, diretor do departamento de presos e detidos da organização Médicos pelos Direitos Humanos–”israel” (PHRI), os militares israelenses levaram sete meses apenas para responder ao pedido da organização sobre o número de detidos mortos em centros militares de detenção.

Até o momento, 104 palestinos, incluindo 70 oriundos de Gaza, tiveram sua morte sob custódia do IPS ou das Forças Armadas confirmada, segundo Abbas. A PHRI acredita, porém, que o número real seja muito maior, em parte porque o Exército recusou-se a fornecer informações sobre os detidos sob sua custódia durante os nove primeiros meses da guerra. Nesse período, Abbas afirmou ao +972 que “israel” adotou “uma política sistemática de matar palestinos [sob custódia israelense]”.

“O sistema de registro de detidos, e depois o sistema de divulgação das informações, são ambos extremamente confusos e falhos”, afirmou Avshalom Matalon, pesquisador da HaMoked especializado em desaparecimentos forçados de palestinos. Matalon acrescentou que o processo deveria ter sido supervisionado pelo CICV, mas “israel” proibiu a organização de visitar os detidos palestinos nas prisões israelenses e ocultou informações sobre seu paradeiro durante toda a guerra, comprometendo um dos poucos mecanismos de responsabilização existentes.

“Vocês não encontrarão os números exatos em lugar algum, exceto junto às autoridades israelenses”, declarou ao +972 Ajith Sunghay, chefe do Escritório de Direitos Humanos da ONU na Palestina. Na ausência desses dados, os palestinos em Gaza são obrigados a tentar compreender sozinhos o destino de seus familiares.

“As pessoas perguntam por seus parentes e familiares que estão detidos”, disse um trabalhador humanitário de Gaza. “Imagine ter cerca de 500 [corpos] nesses contêineres. É meu irmão? É meu pai? Quem são essas pessoas?”

Nem o Exército israelense nem o Serviço Prisional de “israel” responderam aos pedidos de comentário. O CICV recusou diversos pedidos de entrevista.

* Frances Brogan é estudante da Universidade de Princeton e editora-chefe de gestão do Daily Princetonian. Artigo publicado na +972 Magazine em 15/07/2026.

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