O principal problema de saúde na Palestina é a ocupação israelense
Tanto em Gaza quanto na Cisjordânia, as políticas israelenses estão devastando a saúde dos palestinos, com consequências mortais.
Uma criança ferida recebe tratamento em um hospital em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 7 de julho de 2026, após um ataque israelense à área costeira de al-Mawasi [Bashar Taleb/AFP].
Por Dr. Javid Abdelmoneim*
Em toda a Palestina, o efeito cumulativo das ações de Israel sobre a população palestina desde 7 de outubro de 2023 é claro: elas corroeram a capacidade dos palestinos de viver uma vida digna e saudável. Isso precisa ser dito com clareza. As políticas aplicadas na Faixa de Gaza e a trajetória observada na Cisjordânia ocupada apontam para o projeto israelense mais amplo de colonização da Palestina por meio da ocupação.
Já se passaram mais de 1.000 dias desde o início do genocídio de Israel em Gaza, e a punição coletiva dos palestinos continua até hoje. Em meio a um suposto cessar-fogo, o mundo normalizou ver palestinos sendo mutilados e mortos diariamente em suas tendas, em hospitais e nas ruas.
A palavra “cessar-fogo” perdeu todo o significado. Enquanto escrevo estas linhas, o número de vítimas continua aumentando, assim como a indiferença em relação à situação catastrófica em Gaza, o fracasso político mais chocante do mundo nas últimas décadas.
Junho foi o mês mais mortal desde que o cessar-fogo começou, em outubro. Até 18 de julho, Israel havia matado 1.144 palestinos e ferido 3.703 desde o anúncio da trégua, somando-se ao número total de mortos desde o início da guerra, que ultrapassou 73.200.
Israel está expandindo o controle militar da Faixa, com sua “Linha Amarela” continuando a avançar constantemente para o oeste. Essa expansão coloca em risco de serem baleadas todas as pessoas que se aproximam da linha — muitas vezes apenas tentando chegar aos seus abrigos, recolher lenha ou encontrar comida.
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Mas não se trata apenas da violência. À medida que a “Linha Amarela” avança, ela comprime mais de dois milhões de pessoas em apenas um terço da Faixa. Isso não é algo acidental. Produz condições de superlotação extrema, nas quais as doenças se espalham facilmente e as necessidades básicas deixam de ser atendidas. Vemos as consequências em nossas clínicas: infecções respiratórias, doenças de pele e enfermidades diarreicas, impulsionadas pela falta de água potável, saneamento e pelas condições de vida desumanas.
A Cisjordânia também passou por uma profunda transformação violenta desde 7 de outubro de 2023. O governo israelense, os militares e colonos patrocinados pelo Estado aceleraram a limpeza étnica, o roubo de terras, a desapropriação, a fragmentação territorial e o estrangulamento econômico, corroendo ainda mais a presença e a continuidade palestinas.
Os palestinos estão sendo perseguidos em suas casas, escolas e terras, enquanto os agressores desfrutam de completa impunidade. Em Nablus e Hebron, recebemos pacientes que sofrem de trauma e depressão ligados ao aumento da violência e às restrições de movimento, que impedem todos os aspectos de suas vidas, inclusive o acesso a hospitais.
Israel continuou a obstruir sistematicamente o acesso à saúde na Cisjordânia e desmantelou deliberadamente o sistema de saúde em Gaza.
Profissionais de saúde, pacientes, ambulâncias e hospitais foram todos alvos de ataques.
Em 26 de outubro de 2024, durante uma incursão ao Hospital Kamal Adwan, no norte de Gaza, o Dr. Mohammed Obeid, cirurgião que trabalhava para os Médicos Sem Fronteiras, foi preso juntamente com outras 57 pessoas. Ele é um dos mais de 95 profissionais palestinos da saúde que permanecem detidos pelas forças israelenses. Até hoje, Obeid continua em uma prisão israelense sem acusação formal. Continuamos exigindo sua libertação imediata e incondicional.
O genocídio dizimou a força de trabalho do sistema de saúde em Gaza, e serão necessários anos para substituí-la. Pelo menos 1.700 profissionais de saúde foram mortos desde outubro de 2023, incluindo 15 integrantes da própria equipe da MSF. Ninguém está seguro em Gaza.
O acesso dos palestinos aos cuidados de saúde foi ainda mais restringido depois que as autoridades israelenses cancelaram o registro de 37 organizações humanitárias em janeiro. Israel está impedindo que levemos pessoal internacional e suprimentos urgentemente necessários para Gaza e a Cisjordânia. Embora alguns suprimentos humanitários tenham entrado em Gaza, eles não são suficientes. Essas restrições arbitrárias fazem parte de uma política israelense de longa data, de caráter punitivo, contra o povo palestino e as organizações que tentam ajudá-lo.
Seja por meio da violência direta, da destruição do sistema de saúde, da obstrução da assistência humanitária, da indução à fome, da utilização da água como arma, do aumento dos índices de prematuridade e mortalidade infantil e dos elevados níveis de aborto espontâneo, ou da negação de atendimento médico, Israel está destruindo a saúde palestina. De onde estou, isso é claro: o principal problema de saúde na Palestina é a ocupação israelense.
Os métodos de Israel tornaram-se aceitos. Os líderes mundiais normalizaram a conduta israelense. Por meio de apoio político, ajuda militar ou silêncio, eles permitiram a continuidade dessas políticas.
A situação é intolerável. Em Gaza, o genocídio continua, e na Cisjordânia, a limpeza étnica se acelera.
Uma mudança drástica de política é urgentemente necessária, uma que priorize a dignidade dos palestinos, a proteção dos civis, garanta acesso humanitário sem impedimentos e responsabilize todos os governos. Sem essa mudança, os próximos 1.000 dias trarão a continuidade da devastadora realidade atual, que custará ainda mais vidas palestinas.
* Dr. Javid Abdelmoneim é presidente internacional dos Médicos Sem Fronteiras (MSF). Trabalhou como médico de emergência em Gaza em 2024, principalmente no Hospital Nasser. Artigo publicado na Al Jazeera em 19/07/2026.
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