“De volta dos mortos”: a contínua agonia pelos 9.500 desaparecidos de Gaza

O retorno inesperado de um palestino dado como morto, após sua família realizar seu funeral, evidencia o sofrimento daqueles que ainda aguardam respostas.

23/07/2026

Shaimaa Jundiya e seus filhos estão presos a uma incerteza angustiante, sem saber se seu marido e pai, Nafez Abed, foi morto ou se está detido por “israel”. [Captura de tela/Al Jazeera]

Por Shadi Shamia e Ibrahim Al Khalili*

Com milhares de famílias em Gaza ainda sem conseguir lidar com o desaparecimento de seus entes queridos, o retorno de Hamada al-Banna com vida chocou o enclave palestino.

Acreditando que ele havia sido morto na guerra genocida de “israel”, iniciada em 2023, a família de al-Banna realizou uma cerimônia fúnebre para ele há quase um ano.

Sua história evidencia o sofrimento de milhares de famílias que ainda aguardam o retorno de seus entes queridos — ou qualquer informação sobre eles.

O Ministério da Saúde de Gaza afirma ter recebido quase 3.500 registros de pessoas desaparecidas, enquanto organizações de direitos humanos, incluindo a Al-Dameer, sediada em Gaza, estimam o número de desaparecidos em 9.500.

Busca desesperada e uma explosão

O pesadelo de al-Banna começou durante uma viagem desesperada em busca de ajuda humanitária para sua família, perto da passagem de Zikim, no norte de Gaza, onde ele se separou de seu irmão, Adham Yasser al-Banna, em meio à enorme multidão. Adham acabou sendo mortalmente baleado pelo exército israelense.

“Eu estava voltando para casa carregando um saco de farinha. Estava segurando-o, levando-o de volta, feliz por ter conseguido obtê-lo”, contou. “Então, de repente, alguém me chamou e disse: ‘Seu irmão foi morto’.”

Al-Banna havia perdido outro irmão, Amjad, apenas um mês antes. Ele se recusou a acreditar que havia sofrido mais uma perda. Mas, depois que a pessoa ao telefone jurou que era verdade, ele largou o saco de farinha e correu para procurar o irmão.

“De repente, houve outra explosão enorme”, disse. “Fiquei ferido nas pernas, nas mãos, no peito e no abdômen. Meu corpo inteiro ficou ferido.”

Al-Banna perdeu a consciência e acordou dois meses depois de um coma no Centro Médico Soroka, em Beersheba, em “israel”. Passou seis meses ali recebendo tratamento antes de ser transferido para uma prisão israelense, onde permaneceu em confinamento solitário por quatro meses.

“Claro que vi tortura e sofrimento. Por mais que eu conte, não conseguirei descrever o que vivi”, disse. “Para mim, a morte parecia melhor do que continuar sob a tortura e o sofrimento que eu estava testemunhando.”

‘Você está zombando de mim?’

Após um ano em cativeiro israelense, al-Banna foi finalmente libertado há cerca de duas semanas. Durante sua ausência, sua noiva, Reem Jadallah, nunca deixou de procurá-lo, mantendo viva a possibilidade de que ele estivesse vivo, apesar de todos os indícios apontarem para sua morte. Ela vendeu suas joias de ouro para contratar um advogado que acompanhasse seu caso, depois de não conseguir obter informações oficiais sobre seu paradeiro.

Após seis meses de buscas, o advogado informou à família que al-Banna havia sido morto. Mergulhada no luto, a família realizou uma cerimônia de condolências de três dias cerca de dois meses antes de sua libertação.

Depois de ser libertado, al-Banna fez sua primeira ligação telefônica para o pai.

“Eu disse: ‘Pai, é o Hamada.’ Ele respondeu: ‘Quem é Hamada? Meu filho foi morto. Fizemos uma cerimônia de luto de três dias para ele’”, contou al-Banna à Al Jazeera.

“Comecei a chorar e continuei dizendo: ‘É o Hamada.’ Ele respondeu: ‘Você está me dizendo que está vivo? Meu filho foi morto. Você está zombando de mim?’”

Al-Banna ligou novamente, desta vez instruindo o pai a enviar um carro ao porto porque ele estava chegando acompanhado da Cruz Vermelha.

Quando finalmente atravessou a porta da casa da família, sua mãe desmaiou em seus braços.

“Atualmente, todos os dias, ela olha para mim e diz que não consegue acreditar que estou aqui. Ela me diz: ‘Meu filho, nós fizemos uma cerimônia de luto para você. Havíamos perdido a esperança de vê-lo novamente, assim como seus irmãos que foram mortos’”, relatou.

Enquanto tenta retomar sua vida em casa, o trauma das prisões israelenses continua a persegui-lo.

“Quando durmo, sonho que ainda estou na prisão. Todos os dias retiro estilhaços do meu corpo. Minha perna dói, assim como meus testículos, meu coração, tudo”, disse.

“Sim, estou livre agora, mas não sou mais a pessoa que eu era.”

‘Eles sentem falta dele’

Al-Banna pode ter voltado para casa, mas milhares de outras famílias palestinas continuam presas entre a esperança de que seus entes desaparecidos estejam vivos e o medo de que estejam mortos.

Entre elas está a família de Nafez Abed.

“Esperar pelo destino de um prisioneiro é mais cruel do que receber a notícia do martírio”, afirmou a mãe de Abed, Aziza Abed, explicando que a família permanece suspensa entre possibilidades, sem qualquer informação tranquilizadora que ponha fim à dúvida incessante.

Para sua esposa, Shaimaa Jundiya, e seus quatro filhos, a ausência de Abed deixou um vazio que, segundo ela, é impossível preencher. Ela disse que sentem falta dele nos menores detalhes da vida cotidiana e acrescentou que a filha do casal reza constantemente por seu retorno em segurança, observando com tristeza cada pai que carrega seu filho pelas ruas.

Enquanto isso, nas praças públicas de Gaza, as famílias dos desaparecidos organizam vigílias e manifestações, segurando fotos de seus entes queridos e exigindo uma divulgação oficial sobre seus destinos.

Abdullah Qandil, diretor da Associação Waed para Prisioneiros e Ex-Prisioneiros, afirmou que milhares de famílias recorreram a organizações internacionais para pressionar “israel” a fornecer informações sobre os desaparecidos de Gaza.

Qandil disse que a falta de informações “agrava o sofrimento psicológico e humanitário” das famílias obrigadas a viver entre a esperança e o medo.

* Reportaram diretamente de Gaza para a Al Jazeera em 23/07/2026.

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