Os jornalistas palestinos mantidos nos “cemitérios para os vivos” em “israel”

Mantidos sem acusação formal nas masmorras israelenses, repórteres da Cisjordânia descrevem espancamentos, fome, isolamento e ameaças destinadas a forçá-los ao silêncio.

22/07/2026

O jornalista Samir Amin-Khuwaira, de Nablus, antes e depois de passar nove meses em detenção administrativa após ser preso durante uma incursão noturna em sua casa, em abril de 2025. (Cortesia da família)

Por Basel Adra*

Ali Al-Samoudi passou quatro décadas documentando as realidades cotidianas da vida sob ocupação no norte da Cisjordânia. Jornalista palestino veterano de 60 anos, natural de Jenin, trabalhou como correspondente do jornal Al-Quds e como cinegrafista da Al Jazeera e de outros veículos internacionais de comunicação.

Mas talvez seja mais conhecido por ter sido colega de Shireen Abu Akleh, morta a tiros por forças israelenses durante uma incursão ao campo de refugiados de Jenin em maio de 2022. Ao lado de Abu Akleh, Al-Samoudi também foi baleado naquele dia nas costas; a bala atravessou seu ombro.

Em 29 de abril de 2025, forças israelenses invadiram a casa de Al-Samoudi em Jenin ao amanhecer e o prenderam. Ele foi mantido sem acusação formal nem julgamento, sendo libertado quase exatamente um ano depois, em 30 de abril de 2026.

Durante o período em que permaneceu em detenção administrativa, Al-Samoudi afirma que foi submetido à fome, espancamentos e privação de medicamentos. Também foi transferido entre várias instalações, incluindo a Prisão de Megiddo e a notória Prisão de Ofer. Agora enfrenta uma longa recuperação, sofrendo de graves deficiências vitamínicas e problemas auditivos, permanecendo sob supervisão médica contínua.

Al-Samoudi acredita que sua prisão esteve diretamente ligada ao seu trabalho jornalístico — especialmente à cobertura da ofensiva israelense em curso contra o campo de refugiados de Jenin, onde o exército destruiu casas, forçou dezenas de milhares de moradores a fugir e proibiu quase todos de retornar. Nos meses anteriores à sua prisão, ele vinha trabalhando em reportagens escritas e filmadas sobre famílias deslocadas que tentavam voltar ao campo.

A revista +972 Magazine conversou com Al-Samoudi pouco depois de sua libertação sobre sua prisão, as condições de sua detenção e a campanha israelense para silenciar jornalistas palestinos.

Você pode descrever sua prisão?

Eles vieram à minha casa nas primeiras horas da manhã. Quando entraram, minha filha e minha nora estavam chorando. O oficial militar israelense me instruiu: “Diga a elas que só quero você para uma viagem de três ou quatro horas e depois você voltará para casa.” Eu não fazia ideia de que essa viagem duraria um ano.

Os soldados me levaram para o campo de refugiados, onde me mantiveram vendado e algemado por 80 horas. Jogaram-me em frente a quartéis militares que, na verdade, eram casas palestinas dentro do campo. Sempre que soldados entravam ou saíam, eles me espancavam por todo o corpo.

Não me permitiram comida nem água durante todo esse período. Durante as noites, sofri dores intensas por causa do frio. Eu lhes disse que precisava dos meus medicamentos porque tenho diabetes e pressão alta, mas me ignoraram e não trouxeram nenhum dos meus remédios.

Durante o interrogatório, disseram que havia três suspeitas contra mim — nem sequer acusações formais. As duas primeiras pareciam relacionadas ao meu trabalho jornalístico e à cobertura de campo. Eles consideravam a cobertura dos acontecimentos no terreno como um serviço ao que chamavam de “organizações subversivas”. Outra suspeita baseava-se na alegação de que um detento palestino teria dito que eu o fotografei enquanto ele atirava contra um assentamento israelense.

Durante minha detenção, recebi ameaças diretas por telefone de um agente do Shin Bet. O agente me disse: “Você nos esgotou. Quero mandá-lo para a prisão por dois ou três anos. Vou acabar com você.”

Após 7 de outubro, muitas fotos e vídeos começaram a circular nas redes sociais e nos canais de notícias mostrando a condição dos prisioneiros palestinos após sua libertação das prisões israelenses. Muitas imagens de antes e depois mostravam perda drástica de peso devido à fome. Você pode descrever as condições dentro das prisões?

Como jornalista, trabalhei extensivamente em histórias sobre palestinos dentro das prisões israelenses, mas nunca imaginei que as condições fossem tão catastróficas.

Éramos mantidos em cemitérios para os vivos, privados de todos os direitos. Não tínhamos papel, canetas, livros, televisão nem rádio. Nem sequer tínhamos pente, espelho ou materiais de higiene. Davam-nos apenas uma quantidade minúscula de xampu — apenas uma colher por semana para tomar banho. Deixei crescer esta barba porque não havia instrumentos para fazer a barba. Somente quando queriam que nos barbeássemos traziam os equipamentos e nos obrigavam a raspar a cabeça e a barba.

A comida era dada apenas para que conseguíssemos permanecer de pé durante as contagens diárias e para que eles pudessem continuar suas práticas abusivas contra nós. Pela manhã, recebíamos uma colher de labneh [iogurte coado – NT] e uma colher de geleia. Ao meio-dia, quatro colheres de arroz, dois pedaços minúsculos de pepino, duas fatias de tomate e uma colher de feijão. À noite, duas colheres de homus [pasta de grão-de-bico com tahine – NT], uma colher de tahine [pasta feita de sementes de gergelim moídas – NT], um ovo cozido e dez pequenos pedaços de pão, cada um com metade do tamanho de uma mão.

Entrei na prisão pesando 120 quilos e saí pesando 60.

Cada cela continha 10 prisioneiros e media sete metros por três. Havia apenas seis camas para 10 presos, o que significava que seis dormiam nas camas enquanto quatro dormiam no chão.

Os colchões tinham um cheiro podre e repugnante, e não tínhamos permissão para lavá-los ou limpá-los. Recebíamos apenas 10 minutos para tomar banho, com 20 prisioneiros ao mesmo tempo. Não havia portas nos chuveiros, então precisávamos ficar nus diante uns dos outros, o que representava uma grave violação da privacidade e era profundamente humilhante para os presos.

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Informei às autoridades prisionais que precisava de medicamentos para diabetes, pressão alta e problemas estomacais. Eles me forneceram apenas um comprimido para pressão arterial e um regulador para diabetes. Recusaram-se a me transferir para a clínica até que minha saúde se deteriorasse gravemente.

Desmaiei várias vezes, minhas complicações de saúde pioraram e desenvolvi problemas de visão e audição. Meu advogado apresentou uma contestação antes que finalmente me transferissem para a clínica, mas mesmo assim não recebi o tratamento de que precisava.

Há prisioneiros sofrendo de câncer, doenças cardíacas e outras enfermidades graves que são privados de medicamentos na clínica da prisão. Em uma ocasião, enquanto me transportavam para o tribunal, eles estavam levando um prisioneiro que não conseguia caminhar sozinho. Ameaçaram espancá-lo se não andasse e depois o ergueram para dentro do veículo de transporte da prisão enquanto o golpeavam.

A maioria dos prisioneiros era libertada diretamente para hospitais por causa de doenças, incluindo enfermidades de pele causadas por insetos, cobertores imundos, colchões sujos e falta de saneamento nas celas. As cenas eram dolorosas além das palavras.

Segundo um relatório recente do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, quase 100 jornalistas e trabalhadores da mídia palestinos foram presos desde outubro de 2023, e dezenas continuam detidos. Mais da metade relatou ter sido submetida a tortura, abusos ou outras formas de violência. Na sua opinião, por que Israel tem como alvo jornalistas dessa maneira?

Tudo isso faz parte da guerra contínua de Israel para silenciar vozes, suprimir a liberdade de expressão e impedir que jornalistas palestinos realizem seu trabalho de campo.

Depois que mataram Shireen e me feriram, eu disse que atirar contra nós era uma mensagem de intimidação para todos os jornalistas e profissionais da mídia palestinos. Eles não querem documentação nem testemunhas do que estão fazendo na Cisjordânia. Minha prisão confirmou isso.

Aterrorizando jornalistas e suas famílias

No início de abril de 2026, segundo a organização palestina de defesa dos direitos dos prisioneiros Addameer, as prisões israelenses mantinham mais de 9.600 palestinos, incluindo 84 mulheres e 350 crianças. Destes, 3.532 eram detentos administrativos, mantidos sem julgamento com base em provas secretas às quais eles e seus advogados não podem ter acesso nem contestar.

Entre eles estava Samer Amin Khuwaira, jornalista de 45 anos de Nablus, que passou nove meses em detenção administrativa após ser preso durante uma invasão noturna à sua casa em abril de 2025. Sua detenção foi renovada três vezes, sem acusações formais nem julgamento. Em entrevista à +972, Khuwaira recordou que um agente do Shin Bet lhe disse abertamente que ele estava sendo mantido preso por “razões políticas”.

Como outros detentos libertados, Khuwaira descreveu condições severas nas prisões, incluindo superlotação extrema, alta umidade, acesso limitado a banhos e falta de roupas limpas. Durante sua detenção, desenvolveu sarna e dolorosas infecções de pele, além de perder mais de 20 quilos.

“Pedi tratamento em setembro, mas só trouxeram remédios em dezembro, depois que a doença já havia se espalhado por todo o meu corpo”, afirmou.

Khuwaira disse que as autoridades prisionais ignoraram sua condição médica por meses, enquanto a falta de higiene dentro da prisão agravava a situação. Os prisioneiros, segundo ele, podiam tomar banho apenas uma vez a cada seis dias. Após sua libertação, Khuwaira permaneceu em tratamento médico por dois meses e isolou-se de seus três filhos por medo de contaminá-los.

As experiências de Khuwaira e Al-Samoudi não são incomuns: muitos detentos são privados de tratamento, exames e medicamentos necessários, transformando, em alguns casos, a doença em uma lenta sentença de morte. Pelo menos 98 prisioneiros palestinos morreram em consequência de tortura e negligência médica sistemática desde o início da guerra em Gaza, segundo dados do exército israelense e do Serviço Prisional de Israel (IPS).

Desde 7 de outubro, as autoridades israelenses também proibiram as famílias dos prisioneiros palestinos de visitar seus parentes nas prisões. Chamadas telefônicas também são proibidas, assim como visitas do Comitê Internacional da Cruz Vermelha para monitorar as condições dos detentos. Como resultado, as famílias permanecem em grande parte sem informações sobre a situação de seus entes queridos nas prisões israelenses, dependendo de advogados ou dos relatos de outros presos libertados para obter fragmentos de informação.

A revista +972 Magazine conversou com Abdul Majeed Al-Amarneh, do campo de refugiados de Dheisheh, em Belém, cujo filho, Ausayd, jornalista de 41 anos e professor de mídia nas universidades de Hebron e Belém, está em detenção administrativa desde julho de 2025.

“Desde a noite em que o levaram, toda a casa mudou”, disse Al-Amarneh. “Os quatro filhos dele perguntam por ele todos os dias, e a parte mais difícil é não conseguir responder.”

Cerca de um mês atrás, Al-Amarneh encontrou um ex-prisioneiro recentemente libertado da mesma instalação onde Ausayd estava detido, que lhe informou sobre a condição de seu filho na prisão.

“Ele me disse que a comida era muito ruim e que os prisioneiros sofrem todos os dias com fome, maus-tratos e humilhações”, disse Al-Amarneh, acrescentando que Ausayd, apesar disso, estava com bom ânimo e se mantinha ocupado estudando o Alcorão. “Ouvir notícias do meu filho por meio de outro prisioneiro libertado, em vez de ouvi-las diretamente dele, parte meu coração.”

A comunicação com Ausayd permanece extremamente limitada, disponível apenas por meio de advogados. Mas eles podem transmitir apenas informações básicas e geralmente restritas a atualizações jurídicas, como se sua detenção foi prorrogada e em qual prisão ele está sendo mantido. Segundo a família, sua audiência mais recente para renovação da detenção ocorreu sem a presença de seu advogado. Eles não conseguem ouvir sua voz nem tranquilizar-se sobre seu estado.

Mas o sofrimento da família não terminou com a detenção de Ausayd. Sua irmã, Islam, de 31 anos, jornalista freelancer e mãe de uma menina de cinco anos, também foi presa há menos de um mês, após forças israelenses invadirem a casa da família no campo.

Ela agora está sendo interrogada em conexão com seu trabalho jornalístico, acusada de trabalhar para um site de mídia proibido. Enquanto isso, seu marido já passou os últimos três anos na prisão.

“Minha filha tem uma menininha, e hoje essa criança está separada tanto da mãe quanto do pai”, disse Al-Amarneh. “Não sabemos como explicar isso a uma criança de cinco anos.”

O Serviço Prisional de Israel não respondeu ao pedido de comentário da +972.

* Basel Adra é ativista, jornalista e fotógrafo da aldeia de At-Tuwani, nas Colinas do Sul de Hebron. Reportagem publicada em 01/06/2026 na +972 Magazine.

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