Abu Jihad, presente: A despedida de Lejeune Mirhan

24/08/2026
Por: Emir Mourad

Há imagens que condensam uma vida inteira. A charge que o cartunista Aroeira dedicou a Lejeune Mirhan, publicada no Brasil 247, é uma delas. De um lado, o retrato sereno do professor: o chapéu de feltro, o sorriso cansado, mas luminoso, e ao redor do pescoço a keffiyeh, a bandeira palestina que ele carregou como segunda pele. Do outro, a reprodução de um cartão-postal que recebi dele em 27 de dezembro de 1988: um presépio de barro cozido de Tracunhaém, sobre um fundo azul, com uma carta datilografada e assinada com duas identidades que diziam tudo sobre o homem — Lejeune Mato Grosso / Abu Jihad. É essa imagem que guardo agora, no dia em que o Brasil, a esquerda e a causa palestina se despedem dele.

O cartão que atravessou 38 anos

Naquele fim de 1988, Lejeune me escreveu de São Paulo. O texto, datilografado com correções à mão, dizia:

“Querido amigo e camarada Emir: Final de ano é sempre propício para que façamos reflexões e análises do ano que se passou. Quero que você saiba que nessa contabilidade social, você é dos amigos que mais boas lembranças guardo comigo. Não só pela sua simpatia pessoal, pela forma como trata as questões do dia-a-dia da nossa revolução mundial, mas pela sua particular dedicação à maior causa que o mundo conhece hoje, que é a causa do povo palestino. Espero que você nunca desanime e nem se esmoreça, por maiores que sejam as dificuldades pessoais e materiais.”

E encerrava com um desejo que era, ao mesmo tempo, uma promessa e um programa político:

“Desejo a você e aos seus, um 89 cheio de sucessos e de realizações e que nesse ano, possamos hastear a nossa bandeira palestina em território palestino após a construção definitiva e total do nosso Estado.”

Há algo de extraordinário nessas linhas. Lejeune não era palestino, era um brasileiro de Corumbá, descendente de sírios, comunista. E eu também não sou palestino, embora tenha sido adotado pela Palestina, ou tenha adotado a Palestina, para nós, a diferença é nenhuma.

Mas ele escrevia “nossa revolução mundial”, “nossa bandeira”, “nosso Estado”. Não como quem fala de fora, mas como quem se sente parte. Não como quem apoia de longe, mas como quem dedicou a vida inteira àquela causa.

Por que um comunista enviaria um presépio de Natal a um amigo? Porque Lejeune entendia de esperança. Entendia que toda história de libertação começa com um nascimento, de uma ideia, de uma causa, de um povo que se recusa a desaparecer. E que nascimento mais simbólico do que o de Jesus, que veio ao mundo em Belém, na Palestina — o primeiro revolucionário palestino, cuja mensagem de justiça e libertação atravessou os séculos.

Aquele presépio de Tracunhaém era a promessa de que algo novo poderia vir ao mundo. E a carta que o acompanhava nomeava exatamente isso: a bandeira palestina hasteada em território palestino, após a construção definitiva do nosso Estado.

Ele escreveu isso em dezembro de 1988, semanas depois da Declaração de Independência da Palestina, proclamada em Argel em 15 de novembro daquele ano. Para Lejeune, aquele não era um sonho distante: era uma tarefa política concreta, inscrita no calendário da história.

A assinatura do cartão sempre me emocionou: “Lejeune Mato Grosso / Abu Jihad”.

“Abu Jihad” — “Pai da Luta” — era o nome de guerra de Khalil al-Wazir, cofundador do Fatah e principal braço direito de Yasser Arafat, número dois da OLP, o homem que coordenou o braço armado do movimento. Foi morto aos 52 anos, em 16 de abril de 1988, num ataque executado por comandos israelenses em Túnis. Que um intelectual brasileiro adotasse como identidade própria o nome de guerra do grande estrategista da resistência diz mais do que qualquer discurso: dizia que a Palestina não era, para ele, uma causa distante que se apoia de longe. A escolha de “Abu Jihad” revelava a profundidade dessa identificação com a luta. A charge de Aroeira capturou isso com precisão — o professor de keffiyeh, o combatente de todas as horas.

Conheci Lejeune no início dos anos 1980. Foram incontáveis jornadas, reuniões sem fim, papos que não cabiam em uma vida. Ele já era, então, aquele comunista guerreiro que o Brasil inteiro aprendeu a admirar: líder estudantil em Campinas, sociólogo formado pela PUC, militante do PCdoB desde os anos 1970, na resistência à ditadura.

Mas para mim, o que sempre importou foi outra coisa: Lejeune olhava para a Palestina como se ela fosse sua e, em certo sentido, era.

O intelectual e o militante

Ao longo de mais de cinco décadas de militância, Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho — que adotou o sobrenome Mirhan, de seus ancestrais, no final dos anos 2000 — construiu uma trajetória rara, em que o rigor intelectual e a paixão política caminharam sempre juntos.

Em 1982, nos conhecemos nas atividades do Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Palestino, o primeiro comitê de solidariedade ao povo palestino fundado no Brasil. Dali em diante, a luta pela Palestina seria um elo permanente entre nós. Em 1985, ele participou do 1º Congresso da Juventude Palestina SANAUD, realizado no Campus Fazendinha da Unimep, em Piracicaba. Em 1990, participamos ativamente do Comitê pela Paz, contra a guerra, que levantava as bandeiras da paz para que os Estados Unidos não invadissem o Iraque.

Em janeiro de 2010, teve início o Grupo de Trabalho Árabe (GT Árabe), idealizado por Lejeune e Claude Fahd Hajjar. E em 2012, ele teve papel fundamental no Comitê pelo Estado da Palestina, que tinha como objetivo principal o apoio e a divulgação da estratégia da OLP para tornar a Palestina membro pleno da ONU. Seria impossível enumerar todas as atividades em que ele teve participação — estas são apenas algumas das muitas trincheiras em que lutou lado a lado conosco.

Professor da Universidade Metodista de Piracicaba por 20 anos, presidiu por duas gestões o Sindicato dos Sociólogos de São Paulo, entidade que ajudou a fundar ao lado de Florestan Fernandes — que orientou sua dissertação de mestrado. Foi dirigente sindical, um dos fundadores da CTB, membro do Conselho Nacional do Cebrapaz, colunista do Brasil 247 e apresentador do programa “O Mundo como ele é”, ao lado de José Reinaldo Carvalho.

Sua obra reúne mais de 20 livros e centenas de artigos, entre eles “Atualidade da luta anti-imperialista”, “E se Gaza Cair…” (2012) e “Palestina: história, sionismo e suas perspectivas” (2019). Em toda essa produção, sustentou com rigor científico que o mundo já ingressou numa etapa efetivamente multipolar, defendendo o papel estratégico da China, da Rússia, do Irã e do Sul Global na construção de uma nova ordem.

Mas o que importa é o essencial: poucos não-palestinos, em todo o mundo, dedicaram-se tanto à Palestina quanto Lejeune. Como disse Ualid Rabah, presidente da Fepal: “Nós, os mais jovens que ele, nos acostumamos a vê-lo e ouvi-lo, algo como se fosse da própria paisagem da causa palestina.”

A resposta que ficou guardada

Lejeune, quero te responder agora.

Você me pediu, em 1988, que eu nunca desanimasse e nem me esmorecesse. Houve dias em que foi difícil. O mundo que você analisava com tanta precisão seguiu violento: o genocídio em Gaza, a Nakba que se prolonga por sete décadas e meia, os acordos que se desfizeram, as promessas que a nossa causa aprendeu a desconfiar. A bandeira que você sonhava ver hasteada em território palestino livre ainda não se ergueu.

Mas eu não desanimei, camarada. E sei que você também não desanimou até o último dia. Você continuou erguendo a voz com bravura contra as injustiças e opressões, continuou ensinando, continuou acreditando — mesmo nos momentos mais duros, como notou Jeferson Miola, você mantinha a esperança no horizonte.

Quando recebi da Rosangela, sua companheira, a notícia de que você estava internado na UTI, meu coração gelou. Com muita fé e oração, contava os dias para vê-lo forte e firme em sua produção intelectual, em sua militância aguerrida pela libertação da Palestina. E eu desejava, do fundo do coração, que você saísse logo daquela UTI para marcarmos a próxima live, para ouvirmos as mais recentes análises sobre a geopolítica. E, sobretudo, para vermos juntos, dando boas risadas, a surra que o Irã estava dando no Trump.

Era esse o meu desejo: vê-lo sorrir de novo, sentir vibrar com a resistência, como sempre fez. Foi assim que eu te conheci nos anos 80, e foi assim que você partiu.

Lejeune, presente!

A sua partida, aos 69 anos, em Campinas, deixa um vazio irreparável — na imprensa progressista, nas salas de aula, nas trincheiras da solidariedade internacional. Como definiu Nádia Campeão: “Foi-se um comunista guerreiro, verdadeiramente internacionalista, corajoso e muito inteligente.” Como escreveu José Reinaldo Carvalho, teu companheiro de mais de 40 anos de luta: “O legado de coerência, combatividade e dedicação permanecerá vivo em cada um de nós que continuamos a lutar.”

Como lembrou Leonardo Attuch, fundador do Brasil 247: “Perdemos um amigo, colega e, sobretudo, um grande professor. Aprendi muito com ele todas as manhãs não apenas sobre a geopolítica, mas sobre a importância de acreditar que um mundo melhor é possível. Glória eterna a Lejeune Mirhan.”

O teu legado não se perde: ele vive nos teus livros, nos teus cursos, nos programas de TV, nos milhares de estudantes e militantes que formaste. E vive, Lejeune, na promessa daquela carta de 1988, que eu continuo guardando como relíquia — e na charge de Aroeira, que soube retratar, num só gesto, o intelectual e o combatente.

Um dia, a bandeira irá tremular em território palestino livre. E quando isso acontecer, será também a tua vitória, Abu Jihad. Porque tu foste um dos que a mantiveram de pé, mesmo quando o vento soprava contra.

A luta continua, camarada. Lejeune Mirhan, presente!

Lejeune Mirhan (22/12/1956 – 06/08/2026), nascido Lejeune Mato Grosso Xavier de Carvalho em Corumbá (MS). Sociólogo, professor, escritor, jornalista e analista internacional. Militante do PCdoB por mais de 50 anos. Defensor incansável da causa palestina. Que sua memória seja uma trincheira.

Emir Mourad Secretário-Geral da Confederação Palestina Latino-americana e do Caribe (COPLAC). Estudou Língua, Literatura e Cultura Árabe na Universidade de São Paulo (USP). Editor da newsletter Palestina em Foco, escreve sobre a Palestina e as relações internacionais.