“israel” admite ter disparado contra o carro onde estava a menina Hind Rajab, metralhada em Gaza

Símbolo das vítimas do genocídio, a menina palestina de cinco anos foi morta a tiros após ficar presa em um carro com os corpos de seis familiares

19/08/2026

Hind Rajab em uma fotografia sem data. Sociedade do Crescente Vermelho Palestino/Família (via Reuters).

Por Antonio Pitta*

O exército israelense anunciou nesta quarta-feira que abrirá investigações criminais internas sobre as mortes, em Gaza, da menina palestina Hind Rajab — metralhada a tiros enquanto implorava por ajuda ao lado dos cadáveres de seus familiares, em janeiro de 2024 — e de 15 trabalhadores humanitários e de emergência, um ano depois, cujas mortes os soldados tentaram ocultar enterrando os veículos nos quais haviam chegado para socorrer feridos.

Trata-se de um tipo de investigação interna que raramente resulta em condenações, mas sua abertura demonstra a importância que esses casos passaram a ter, sobretudo o de Rajab, transformado em símbolo pela brutalidade do episódio, pelo filme A Voz de Hind — vencedor do Leão de Prata no último Festival de Veneza — e pelo ativismo de sua mãe, Wisam Hamada, que pede justiça para as crianças de Gaza.

Rajab morreu aos cinco anos de idade por disparos do Exército israelense enquanto pedia ajuda por telefone, durante três horas, ao Crescente Vermelho Palestino e à sua mãe, cercada pelos cadáveres de seis familiares. A família seguia uma das ordens (então frequentes) de deslocamento forçado e entrou às pressas no veículo para abandonar a área que acabava de ser declarada zona de combate.

Em sua decisão, o exército alega que o veículo seguia “em direção contrária à rota de evacuação” que havia publicado nas redes sociais, embora admita “supostas falhas na coordenação do deslocamento da ambulância do Crescente Vermelho”, cujos socorristas foram mortos a tiros quando finalmente receberam autorização para tentar resgatar a menina. “Foi decidido determinar uma investigação mais aprofundada do incidente por parte da Polícia Militar”, afirma o texto.

O exército israelense, por outro lado, encerra outros dois casos controversos.

De um lado, o assassinato de sete trabalhadores humanitários da World Central Kitchen, a organização beneficente do chef José Andrés, quando trafegavam por uma estrada de Gaza em veículos identificados com as siglas da ONG, por uma rota previamente comunicada, em abril de 2024. O exército considera que não há suspeita razoável de conduta criminosa que justificasse a abertura de uma investigação penal.

Também não terão continuidade as mortes de quatro funcionários da Médicos Sem Fronteiras, uma ONG que Israel impede de atuar em Gaza e contra a qual vem conduzindo uma campanha de desmoralização. As mortes ocorreram em dois ataques: um contra um edifício utilizado pela MSF em Khan Younis, no sul de Gaza, e outro contra um comboio na capital da Faixa, em novembro de 2023.

Essas são as decisões relativas a cinco incidentes ligados à morte de palestinos, após análise do seu Mecanismo de Investigação e Avaliação.

“Durante mais de mil dias, as Forças Armadas de Israel travaram intensos combates em numerosas frentes, realizando uma ampla gama de missões militares em uma realidade operacional excepcionalmente complexa”, justificaram as Forças Armadas em comunicado.

* Correspondente em Jerusalém do El País. Reportagem publicada no jornal espanhol em 19/08/2026.

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