Como um simples isqueiro se tornou a espinha dorsal da vida em Gaza

“Toda a nossa vida diária depende do fogo. Mas acender um fogo começa com um isqueiro, e esse pequeno objeto se tornou uma das coisas mais difíceis de encontrar em Gaza.”

17/08/2026

Hasnaa Mansour afirma que, em algumas ocasiões, passou dois ou três dias sem acender fogo porque não conseguiu encontrar um isqueiro [Abdelhakim Abu Riash/Al Jazeera]

Por Maram Humaid*

Rabab Deifallah está sentada dentro de sua tenda, segurando um pequeno isqueiro gasto pelo uso. Ela o aciona uma vez, depois outra, tentando produzir uma faísca forte o suficiente para acender uma pilha de lenha dentro de um fogão.

A mãe de cinco filhos cuidou cuidadosamente do isqueiro. Seu filho o consertou várias vezes desde que se tornou difícil comprar um novo após o início da guerra genocida de “israel” contra Gaza, em outubro de 2023.

A lenha tornou-se essencial para Rabab, de 46 anos. Ela a utiliza para assar pão, aquecer água para seus filhos, preparar comida e fazer chá em meio à escassez de gás de cozinha e aos preços exorbitantes dos combustíveis.

“Toda a nossa vida diária depende do fogo”, disse Rabab à Al Jazeera. “Mas acender um fogo começa com um isqueiro, e esse pequeno objeto se tornou uma das coisas mais difíceis de encontrar em Gaza.”

Antes da guerra, os isqueiros eram tão baratos e abundantes que ela se lembra de comprar três por um shekel (US$ 0,33). Hoje, um isqueiro novo pode custar entre US$ 27 e US$ 33, e Rabab gastou recentemente US$ 12 para consertar o antigo.

“Devo gastar essa quantia em um isqueiro ou comprar um saco de farinha?”, questionou.

Rabab Deifallah com seu precioso isqueiro, do qual depende para cozinhar, assar pão e aquecer água para seus cinco filhos [Abdelhakim Abu Riash/Al Jazeera]

Os palestinos em Gaza preferem gastar o pouco dinheiro que possuem em comida, por isso um único isqueiro costuma ser compartilhado entre famílias que vivem em várias tendas.

Em alguns dias, Rabab não consegue encontrar nenhum isqueiro, e sua família é obrigada a passar dias comendo comida fria ou esperando até que um vizinho tenha um fogo aceso para conseguir uma chama emprestada.

Ela frequentemente envia um pedaço de papelão a um vizinho para pegar fogo da fogueira dele e levá-lo para casa. Em outras ocasiões, se um vizinho está assando pão, ela pode pedir para usar o forno dele para preparar comida para sua família.

O isqueiro agora é algo que ela guarda com extremo cuidado, pois representa, para ela, o ponto de partida do fogo, da comida, do pão e da água quente.

Uma segunda luta

Nas proximidades, Hasnaa Mansour, de 43 anos, enfrenta o mesmo problema, mas por outro ângulo.

Deslocada do campo de refugiados de Jabalia, Hasnaa está sentada ao lado de um forno de barro que passou a valorizar ainda mais desde que a situação financeira de sua família se deteriorou durante a guerra.

Seu marido trabalhava anteriormente como alfaiate, e a família vivia com relativo conforto. Mas, devido à falta de trabalho, Hasnaa agora assa e vende alimentos para ajudar a sustentar seus seis filhos.

Hasnaa também consertou repetidamente seu isqueiro porque comprar um novo está fora de suas possibilidades financeiras.

Mas a escassez de gás de cozinha tornou o problema ainda pior.

“Com gás, tudo o que você precisa é de uma pequena faísca para acendê-lo. Mas, com o forno, eu preciso de um fogo de verdade”, disse ela.

“Estou sentada aqui desde a manhã e, às dez horas, ainda não tinha conseguido acender o forno. Enviei minha filha pequena com um pedaço de papelão para procurar alguém que tivesse um fogo aceso, mas ela não encontrou ninguém.”

Hasnaa Mansour e o forno de barro que utiliza para assar alimentos para vender — mas que é difícil de acender devido à escassez de isqueiros [Abdelhakim Abu Riash/Al Jazeera]

Restrições e escassez

A escassez de isqueiros ocorre em meio ao contínuo cerco imposto por “israel” a Gaza.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) afirma que as restrições à circulação de mercadorias e o fechamento das passagens contribuíram para a escassez e o aumento dos preços de itens essenciais. O OCHA também informa que produtos classificados pelas autoridades israelenses como de “uso duplo” enfrentam dificuldades adicionais para obter autorização de entrada em Gaza.

A Câmara de Comércio e Indústria de Gaza declarou em junho que as restrições nas passagens e os mecanismos para a entrada de remessas comerciais em Gaza continuavam limitando o fluxo de mercadorias.

Segundo a entidade, mais de 30 mil caminhões entraram em Gaza durante os primeiros cinco meses de 2026, uma média de não mais que 191 caminhões por dia — ainda muito abaixo das necessidades diárias do território antes da guerra.

Em uma publicação anterior, a Câmara de Comércio documentou o surgimento do trabalho de conserto de isqueiros durante a guerra, afirmando que os isqueiros estavam entre os itens impedidos de entrar em Gaza.

É por isso que os isqueiros se tornaram tão valiosos e que as famílias gastam quantias relativamente altas para consertá-los em vez de comprar um novo.

Compartilhando um único isqueiro

Para Shadi Abu Shamlah, um pai deslocado que vive com sua família na Escola Al-Karmel, a oeste da Cidade de Gaza, a escassez significa compartilhar um isqueiro entre várias tendas.

“Na escola inteira aqui… você não encontraria mais do que quatro isqueiros”, disse.

Os poucos isqueiros disponíveis passam de uma tenda para outra enquanto as famílias tentam cozinhar, aquecer água ou preparar bebidas quentes.

“O isqueiro hoje é a espinha dorsal da vida. Se você tem um isqueiro na sua tenda, está tudo bem. Se não tem, fica paralisado”, afirmou.

“As coisas mais simples exigem fogo. Você quer uma xícara de chá, quer cozinhar, quer preparar leite para uma criança… você precisa de fogo.”

Abu Shamlah diz que sua família às vezes vai dormir sem jantar porque não consegue acender uma fogueira.

Consertar isqueiros também se tornou difícil. Segundo ele, uma pedra de isqueiro pode custar entre 25 e 30 shekels (US$ 8 a US$ 10), enquanto algumas pessoas passaram a usar gás de cilindros maiores para recarregar isqueiros, o que às vezes provoca queimaduras.

Tamer Al-Shawish conserta isqueiros em uma pequena banca — um ofício que surgiu durante a guerra [Abdelhakim Abu Riash/Al Jazeera]

Tamer Al-Shawish, que trabalhava como motorista antes da guerra, passou a consertar isqueiros para ajudar a sustentar sua família.

Em uma pequena banca próxima ao acampamento da Escola Al-Karmel, o pai de dois filhos, de 24 anos, afirma que sua nova profissão era algo impensável anteriormente.

“A guerra nos obrigou a assumir empregos e trabalhos que nunca conhecemos antes. Comecei a consertar isqueiros para poder suprir as necessidades da minha família”, disse à Al Jazeera.

Uma nova profissão

“Antes da guerra, ninguém precisava consertar um isqueiro. Eles eram baratos e estavam disponíveis em toda parte. Quando o gás acabava, nós o jogávamos fora e comprávamos outro.”

“As pessoas vêm consertar o isqueiro porque isso é mais barato do que comprar um novo, especialmente com os preços elevados e a escassez de produtos básicos”, explicou Tamer.

Ele reaproveita peças de isqueiros danificados para consertar outros.

“Até mesmo um isqueiro velho tem valor agora. Pegamos peças de isqueiros danificados e as usamos para consertar outros isqueiros, para que durem mais tempo.”

* Maram Humaid é correspondente digital da Al Jazeera English em Gaza. Reportagem publicada a partir da cidade de Gaza em 16/08/2026 na Al Jazeera.

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