Exército israelense sequestra palestino com esquizofrenia e o coloca “à venda” na Internet
Mohammed Shorrab continua desaparecido e "israel" se recusa a investigar o caso e encontrar o refém. "Nós realmente nos tornamos tão sem valor? Nós somos seres humanos", implora a mãe de Mohammed.
Soldado israelense Harel Amsihka publicou foto de Mohammed amarrado, vendado e "à venda" nas redes sociais no final de 2025
Em 20 de agosto de 2024, o inimaginável aconteceu para a família de Mohammed Shorrab, um homem de 41 anos de Gaza, que vivia com uma condição de saúde mental que exigia cuidados sociais e familiares contínuos. Mohammed saiu para as orações da noite, e sua família nunca mais o viu.
A Global Legal Action Network (GLAN), uma organização sem fins lucrativos de defensores dos direitos humanos, tem juntado as peças dos acontecimentos que levaram ao desaparecimento de Shorrab. Ela descobriu que parentes o viram na área de Al-Mawasi naquela mesma noite e o acompanharam até o campus da Universidade Al-Aqsa, em Khan Younis. Depois disso, ele desapareceu.
Após um ano e meio de buscas desesperadas, publicações online, distribuição de panfletos e uma varredura incessante pela internet, a família de Mohammed o reconheceu em uma fotografia que circulava online.
Em 18 de novembro de 2025, um soldado israelense chamado Harel Amsihka publicou um carrossel de nove imagens em sua conta pessoal do Instagram. Na legenda, escrita em hebraico, ele agradeceu à sua unidade, a Companhia Mesaya’ay (Apoio) do Batalhão Shaked, subordinado à Brigada Givati das forças armadas israelenses.
Uma das fotografias daquele carrossel mostrava um homem palestino sentado no chão, encostado em um bloco de cimento. Suas mãos estavam amarradas. Seus pés estavam presos com abraçadeiras plásticas. Ele estava descalço e tinha os olhos vendados com um pano verde. Vestia um macacão plástico branco de proteção química, com a inscrição “B4” escrita à mão no peito com um marcador preto grosso. Sobre a imagem, estava escrito “למכירה”, que significa “à venda” em hebraico.
A mãe de Mohammed, Zahra, reconheceu o cabelo do filho, suas mãos, seus pés — como qualquer mãe faria. Mesmo com os olhos cobertos pela venda, ela soube que era seu filho.
A desumanização sistemática dos palestinos por Israel
Entrevistada pelo jornalista Ali Alasmer sobre o desaparecimento do filho, Zahra Shorrab faz a perturbadora pergunta levantada pela fotografia — as vidas palestinas se tornaram tão baratas que podem ser colocadas à venda, e seu povo já não é mais considerado humano? Publicar a foto de uma pessoa vulnerável, amarrada e vendada — fazendo piada de que ela está “à venda” — encaixa-se em um padrão de desumanização, transformando o sofrimento humano em entretenimento.
“O palestino ficou tão barato assim que estão colocando-o à venda?”, disse Zahra. “Nós apelamos [a vocês]. O que está acontecendo conosco é cruel. Nós pedimos a todos, fora e dentro [do país]. Isto é cruel. É insuportável que estejam nos dispersando assim e que um palestino esteja sendo oferecido à venda. Nós realmente nos tornamos tão sem valor? Os seres humanos já não têm mais valor? Nós somos seres humanos. Somos pessoas, seres humanos. E este [homem] é um ser humano. Como podem reduzi-lo a algo sem valor assim?”
Zahra com a foto de seu filho em mãos. (Crédito: Ali Alasmer)
Fotos sinistras como a de Mohammed não são incomuns nas contas de redes sociais de soldados israelenses. A partir dessas evidências, de declarações de testemunhas e dos próprios relatos dos soldados, a GLAN afirma que as Forças de Defesa de “israel” (FDI) demonstram um desrespeito fundamental e abrangente às Convenções de Genebra.
Este não é apenas um problema isolado a soldados individuais ou à liderança militar, mas uma política militar executada com total impunidade, denunciam os defensores dos direitos humanos. Uma desumanização sistemática dos palestinos que faz com que soldados se sintam livres para compartilhar seus crimes com amigos e familiares nas redes sociais.
Pedido de esclarecimento feito às forças armadas israelenses
Após Mohammed ter sido identificado na fotografia, a GLAN coordenou esforços com a HaMoked — o Centro para a Defesa do Indivíduo, uma organização israelense de direitos humanos que possui legitimidade jurídica para fazer consultas sobre palestinos detidos pelo regime sionista. Em 26 de fevereiro de 2026, a HaMoked apresentou uma solicitação formal por escrito ao Serviço Prisional de “israel” em nome da família, buscando informações sobre o paradeiro de Mohammed.
O Serviço Prisional respondeu que, após revisar seus registros, não encontrou qualquer indicação de que Mohammed Shorrab estivesse detido ou mantido em qualquer de suas instalações. Ele não estava registrado. E, ainda assim, a fotografia existe. O soldado que a tirou foi identificado. A unidade foi identificada. Foi confirmado que a brigada operava na área no período relevante.
Em 8 de março de 2026, a GLAN apresentou um pedido detalhado de informações à unidade de porta-voz das FDI, exigindo uma explicação para as evidências de que Mohammed havia sido abusado e sequestrado por soldados. A Unidade do Porta-Voz informou que não responderia à consulta da GLAN sobre Mohammed nem a quaisquer pedidos subsequentes de informação, porque não dialoga com advogados, apenas com jornalistas.
Então o jornalista Ryan Grim, repórter do Drop Site News, questionou as FDI, que reafirmaram que Mohammed não consta nos registros de quaisquer instalações prisionais. O exército de ocupação ainda manteve sua demonstração de desprezo pelo caso ao dizer que não é possível identificar quem é o indivíduo da foto e os responsáveis pela postagem já terminaram seu serviço militar, portanto não há mais nada a fazer.
E Mohammed Shorrab segue desaparecido. Talvez já tenha sido traficado…
Sobre Mohammed Shorrab
Mohammed Rabee Saed Shorrab nasceu em Khan Younis e está atualmente com 41 anos. Foi diagnosticado com esquizofrenia pelo Centro de Saúde Mental de sua cidade natal quanto tinha 21 anos, como foi exposto à imprensa por seus familiares. Os médicos destacaram à época que sua condição requeria “contínuo cuidado familiar e social”.
O cartão médico psiquiátrico de Mohammed. (Acervo da família)
Documentos médicos que comprovam a condição de saúde mental de Mohammed. (Acervo da família)
Antes do início do genocídio, Mohammed tinha uma vida simples com sua família em Khan Younis, ajudando nos afazeres domésticos e visitando a mesquita todas as noites. Porém, em 20 de agosto de 2024, por volta do horário da oração do pôr-do-sol, ele saiu de casa e não voltou para a oração seguinte, no final da noite. Por volta das 22h, alguns parentes informaram à família que o haviam visto na área de al-Mawasi e o haviam conduzido até a área da Universidade de al-Aqsa, quando desapareceu.
Seus irmãos o procuraram durante toda a madrugada, mas quando, pela manhã, não haviam sinais de Mohammed, decidiram imprimir e distribuir cartazes com sua foto e informações pelos bairros de Khan Younis. Pouco depois, sem receber nenhuma pista, a família contatou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, as autoridades palestinas e israelenses, organizações internacionais, e ninguém pôde ajudá-los.
Cartaz impresso pela família em Khan Younis
Em fevereiro de 2026, sua mãe viu a foto publicada nas redes sociais do soldado israelense. Ela identificou o seu filho, amarrado, vendado e “à venda”. O exército israelense se recusa a colaborar, mesmo tendo recebido os documentos que comprovam o estado de saúde mental de Mohammed.
“Embora a fotografia levante mais perguntas do que respostas, algumas coisas são certas”, escreveu o jornalista palestino Younis Tirawi. “O membro da Companhia Mesaya’at do Batalhão 424 Shaked, Harel Amshika, é um daqueles que pode responder como Mohammed acabou detido e o que aconteceu com ele depois. Amshika e os seus colegas de pelotão e companhia detêm as respostas para o porquê de zombar de um homem com deficiência mental algemado e vendado, brincando que ele está à venda, ser um comportamento normalizado dentro das FDI, a ponto de exibir isso nas redes sociais ser aceitável.”
* Fepal, com informações da GLAN e de Younis Tirawi.
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