“Os terroristas armados nunca existiram”, confessa operador de drones do exército israelense

“Depois desse incidente, percebi que qualquer pessoa pode matar quem quiser, tanto quanto quiser, e não será responsabilizada por isso.”

15/09/2026

Após uma década de serviço, Nir relata como o “esgotamento ético” levou soldados a tratar mortes como uma partida de futebol e questiona a existência de alvos apresentados como combatentes (Foto: Hadas Parush)

Por Yaniv Kubovich*

Naquela noite, Nir estava sentado em um trailer repleto de telas, em uma base na região da fronteira com Gaza. Nas telas, ele observava ambulâncias trafegando por uma estrada e, em seguida, viu tropas da Brigada Golani emboscá-las.

“Estava claramente identificável que eram veículos de emergência, mesmo quando o fogo terrestre foi aberto contra eles”, relata Nir (pseudônimo). “Sem qualquer motivo aparente, as tropas terrestres avançaram sobre o comboio. Eles atiraram contra o primeiro veículo, os profissionais de saúde saíram, esconderam-se atrás das ambulâncias e imploraram por suas vidas, e os soldados atiraram neles, um após o outro.”

Isso aconteceu na madrugada de 23 de março de 2025, no bairro de Tel al-Sultan, em Rafah, no extremo sudoeste da Faixa de Gaza. O incidente ficou conhecido como “assassinatos dos paramédicos de Gaza”, ou “massacre dos paramédicos de Rafah”. As Forças de Defesa de Israel alegaram que se tratou de um erro de identificação, um erro profissional. Após uma investigação militar, contudo, o procurador-geral militar ordenou recentemente que a Divisão de Investigação Criminal da Polícia Militar investigasse as circunstâncias.

Nir, major da reserva e operador de drones, lembra-se da operação em detalhes. Além disso, o que aconteceu naquele dia o assombra incessantemente. “Depois desse incidente, percebi que qualquer um pode matar quem quiser, o quanto quiser, e não será responsabilizado por isso.”

Segundo Nir, o que o abalou não foi apenas o tiroteio, mas a conduta das tropas depois e aquilo que descobriu posteriormente. “O dedo no gatilho estava muito leve. As pessoas perderam a humanidade”, disse Nir. Ele também descreveu o que aconteceu pelo rádio: “Eles não informaram que eram veículos de emergência, embora as sirenes estivessem ligadas. No início, falaram em 15 agentes do Hamas, depois 12 e, no fim, falaram apenas em três suspeitos.”

Segundo ele, os corpos foram enterrados no local, e as ambulâncias foram atropeladas por uma escavadeira blindada Caterpillar D9 e cobertas com terra. “Para mim, algo se rompeu ali. Senti que não estava apenas testemunhando um acontecimento operacional difícil, mas todo um sistema capaz de absorvê-lo e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.”

Passaria mais de um ano após o incidente até que Nir percebesse que não conseguia mais lidar com os sintomas de sua lesão moral e tirasse o uniforme pela última vez.

“Foi um processo gradual”, disse ele em uma conversa com o Haaretz. No início, acreditava que a distância física entre ele e os alvos que atingia e matava lhe dava uma espécie de proteção. Mas, com o tempo, essa distância apenas agravou a dificuldade e os sentimentos de culpa. “A pessoa sentada na cadeira não é Deus”, disse ele, “mas é ela quem decidirá se deve atacar ou não.”

Essa constatação corroía cada vez mais sua alma. Ele entendeu que precisava lidar com aquilo, mas não sabia como. Começou a usar drogas, teve ataques de ansiedade e psicose e também feriu sua companheira enquanto dormia. Somente nos últimos meses reuniu coragem para admitir que sofre de TEPT e lesão moral, e que carrega ambos há muitos anos. “Você está literalmente sentado e assistindo ao filme mais difícil que pode ver”, diz Nir. “Você vê o rosto de todos. Vê as crianças, os pais, as famílias, as mulheres que vêm, chorando, implorando por ajuda.”

As experiências que alimentaram seu TEPT começaram muito antes da última guerra. Elas se acumularam ao longo de uma longa lista de operações, assassinatos e aquilo que mais tarde se revelaria como erros fatais — mesmo que nem todos os tenham visto dessa maneira.

“Marcar um gol”

Na manhã de 7 de outubro, quando começaram a chegar os relatos da fronteira com Gaza, “tudo foi apagado”, lembrou Nir. “Tudo o que pesava sobre mim, todo o TEPT, tudo desapareceu diante da realidade insana que havia ali, ou pelo menos foi o que pensei.” Algumas horas após o início da guerra, ele foi até o quartel-general da Força Aérea, em Tel Aviv, e se ofereceu para ajudar. Logo, estava novamente diante de telas e tomando decisões em frações de segundo. “Nos primeiros dias, não há regras”, diz ele. “O princípio estava claro para todos: temos que proteger as tropas, fornecer fogo de apoio, permitir que o exército retome o controle das comunidades [da fronteira] e salvar o maior número possível de civis.”

Sua profunda experiência operacional permitiu que ele trocasse o uniforme azul por um verde — passou a servir como comandante em uma célula de ataque, acompanhando as brigadas de manobra que avançavam profundamente em Gaza. E foi ali, segundo ele, que testemunhou em primeira mão o esgotamento das tropas e a falta de disciplina que veio com ele. O resultado foi um perigo mortal, e não apenas para os civis. Nir relatou diversos quase-acidentes e incidentes de fogo amigo das FDI. Em um deles, dois paraquedistas foram mortos. Em outro, oito soldados que se deslocavam pela área sem a coordenação adequada foram identificados como suspeitos e quase foram alvejados, algo que foi evitado no último segundo. “O inimigo não era apenas o Hamas — às vezes, o inimigo também era o esgotamento.”

Quando esses erros envolviam soldados das FDI, eram imediatamente reconhecidos como erros ou falhas. Mas, quando as vítimas eram palestinas, os erros eram recebidos com tolerância, e até aprovação. Foi o que aconteceu quando Nir percebeu que a Linha Amarela — a linha de controle das FDI em Gaza — começava a se deslocar para o oeste, sem autorização das autoridades políticas ou dos altos comandantes militares, e sem que os civis que viviam nas proximidades percebessem.

“A Linha Amarela é basicamente composta por barreiras de concreto no chão”, explicou. “O comandante da divisão [um general de brigada] decidiu, por conta própria, empurrá-las para o oeste, às vezes por centenas de metros, criando uma nova fronteira.” Os palestinos não faziam ideia de que ela existia, e a Força Aérea também nem sempre era informada.

“Do ponto de vista de um agricultor que entra em sua terra — ele não entende de forma alguma que está entrando em uma área que as FDI, de repente, decidiram que é uma zona de fogo”, disse Nir, relatando que não demorou para surgirem casos de civis desarmados entrando na área e sendo marcados como alvos para serem mortos.

“Cancelei ataques às dezenas”, relatou. “Disse que só atacaria se houvesse uma ameaça direta e imediata. Então começaram a surgir todo tipo de justificativas posteriormente: ‘Ele veio para uma negociação de armas’; ‘Ele tocou o chão, talvez esteja plantando um artefato explosivo’. Na minha opinião, tentavam incriminar pessoas sem inteligência e sem provas, posteriormente, apenas para criar uma justificativa para um ataque.”

Segundo Nir, ele não era o único a se opor. “Meus colegas e meus amigos também não queriam aprovar todos os ataques. Todos entendiam que havia um problema ali. Especialmente nas áreas agrícolas, recusávamos aceitar ‘a linha do comandante da divisão’ e, na medida do possível, seguíamos a Linha Amarela original que aparecia nos mapas.”

Ele disse que esse era um dos lados do esgotamento que os soldados estavam experimentando — o esgotamento ético. “A sensação era de que algo havia se quebrado, todos haviam se tornado cínicos em relação à morte — não dá para entender isso de fora”, relatou Nir. “Não é apenas cansaço, é um esgotamento da moralidade, da responsabilidade, da sensação de que alguém ainda está no controle da situação.”

À medida que a guerra avançava, a palavra “terrorista” tornou-se muito flexível. Em um caso, as FDI atacaram um edifício de vários andares com base na avaliação de que uma pessoa procurada havia entrado nele. “A ordem era que o terrorista estava dentro do prédio, e qualquer pessoa que saísse dele deveria ser morta.” Quinze pessoas foram mortas nesse incidente, mas não a pessoa procurada.

“De modo geral”, disse Nir, “muito rapidamente, toda essa história de ‘danos colaterais’ desapareceu das considerações. Eles atiram em qualquer um que veem.” A linguagem nas células de ataque também mudou completamente. “A atmosfera começou a ser como nas arquibancadas de um estádio de futebol. Assim como gritam para um jogador: ‘Vamos, marque um gol’, gritam para um soldado: ‘Mate-o, ataque-o’.”

Durante seu serviço na reserva em maio deste ano, Nir foi exposto a outro aspecto: a vigilância aérea das FDI sobre milícias palestinas que se opunham ao Hamas. “Você diz ‘ok’ uma vez, também uma segunda vez, e então isso vira rotina. Eles queimam fileiras de casas, e nós os observamos de cima. Incêndios criminosos, saques, tiros.”

Nir descreveu outra situação ocorrida durante a guerra: o Hamas começou a enviar mulheres e pessoas com deficiências mentais para postos avançados das FDI “para observar a área, ou por suspeita de que [determinadas pessoas] fossem colaboradores [e, portanto, autorizadas a entrar nas áreas das FDI]. E então [as FDI] lançam um drone ‘Zik’, e você entende que não tem escolha, porque elas estão caminhando em direção aos soldados. E não há dúvida ali, é preciso agir.”

“Não os contamine”

Nir foi convocado para as FDI em 2008. Abandonou a escola de pilotos depois de um ano e foi transferido para a unidade de drones, onde concluiu seu treinamento com honras e foi certificado para operar drones Zik. Serviu no exército de carreira, trabalhando como instrutor na escola de operadores de drones e integrando uma equipe de operações especiais. Em 2016, deixou o serviço com a patente de capitão, mas continuou servindo na reserva até julho de 2026, quando decidiu encerrar seu serviço. Levou consigo uma longa lista de conquistas e uma lista igualmente longa de rostos que não consegue esquecer.

Nir se lembra bem da primeira vez que matou pessoas. Foi em agosto de 2012; terroristas que haviam se infiltrado a partir do Sinai tomaram um veículo blindado de transporte de pessoal e tentaram romper a fronteira israelense com ele. Nir avistou o blindado e disparou dois mísseis que o destruíram. Recebeu um certificado de excelência por seu desempenho. Esse é o único episódio de seus anos de serviço sobre o qual fala hoje com quase nenhuma reserva moral; havia indivíduos armados, um perigo claro e uma missão definida. Depois disso, as coisas se tornaram muito mais complicadas.

Durante a guerra de Gaza de 2014, na qual Nir afirma ter passado mais de 500 horas voando sobre Gaza, esteve diretamente envolvido na morte de 19 pessoas. Esse número aumentaria, chegando a 54 até 7 de outubro de 2023, incluindo terroristas e, admite ele, pessoas que não estavam envolvidas. “De repente, descobri que, em todos os cômodos em que eu estava, eu havia matado o maior número de pessoas.”

Durante anos, conseguiu viver ao lado desse número e de seu peso psicológico. Começou a estudar empreendedorismo e ciência da computação e se formou com honras, trabalhou brevemente no departamento de drones da gigante de tecnologia de defesa Elbit e viajou à Índia em busca de respostas para suas perguntas, que não havia encontrado em Israel. Na superfície, era uma trajetória de vida completamente comum, até mesmo bem-sucedida.

Em 2019, as FDI e a Jihad Islâmica Palestina entraram em confronto durante dois dias. Nir lembra-se de ter perguntado ao seu comandante como deveria agir caso uma criança aparecesse no enquadramento da câmera. A resposta que recebeu se resumiu a duas palavras: “É cinzento”, o que significava que não havia uma orientação absoluta vinda de cima. “Ou seja, sou eu quem decide se mato ou não.”

Naquela época, segundo ele, as ordens operacionais e o quadro de regras estabeleciam uma proibição explícita de ferir mulheres e crianças, mas descobriu-se que a proibição não era absoluta. Alguns meses depois, percebeu que não conseguia mais continuar e procurou seus comandantes, pedindo para não participar mais de ataques, passando a realizar apenas missões de decolagem e pouso. Eles concordaram, com uma única condição: que ele não discutisse seus sentimentos com os outros membros de sua equipe. “Não comece a contar histórias para os pilotos aqui e seus amigos, para não os contaminar”, citou um de seus comandantes, “para não envenená-los”. Isso ficou com ele até hoje. “Veneno?”, perguntou, dolorosamente. “Eu sou o veneno?”

Ele ainda não havia recebido um diagnóstico oficial naquela época, mas sabia que algo dentro dele não estava funcionando direito. Acontecimentos passados que conseguira reprimir durante anos começaram a ressurgir; ansiedade, sentimentos de culpa e ódio de si mesmo começaram a aparecer.

Enquanto participava de uma cerimônia psicodélica com ayahuasca, lembrou-se de um caso de 2014, quando um erro de inserção de dados levou à morte de um agricultor de Gaza (“ele estava apenas trabalhando em seu jardim”). “Eu me vi como se fosse a bomba”, descreve ele suas experiências durante a cerimônia. “Vejo todas as pessoas ali, de pé, e sinto que estou explodindo sobre elas.” Ele não viu apenas os mortos diante de si. “A percepção mais importante foi que não era difícil para mim apenas por causa do homem que matei, que estava apenas trabalhando em seu jardim, mas também por causa das pessoas próximas a ele que vieram chorar por ele.”

Por volta do final de 2022, Nir foi à biblioteca do arquivo da Força Aérea e pediu para assistir às gravações dos ataques que havia realizado durante seu serviço. Ficou imediatamente chocado. “Eu me ouço durante as operações, falando como um caçador que quer caçar pessoas”, disse. “Não conseguia acreditar que estava me ouvindo.” Segundo ele, sua equipe usava abertamente a expressão “missões de caça”. “Você percebe que é um caçador. A parte mais difícil para mim foi ouvir o quanto eu estava ansioso para atacar e matar.”

Em um dos vídeos, assistiu a três pessoas que, durante anos, havia lembrado como membros de uma célula terrorista. Ao assistir às imagens antigas, ficou claro para ele que “essa história de terroristas armados nunca existiu. É uma história que provavelmente inventei para conseguir conviver comigo mesmo”.

Chegar ao tratamento aconteceu quase por acaso. Seu pai contou-lhe sobre Kfar Izzun, uma estrutura terapêutica para tratamento de TEPT e reabilitação de dependentes. A princípio, ele entrou apenas para fazer trabalho voluntário e cozinhar, mas a equipe percebeu sua condição e o incentivou a tornar-se paciente. Passou quatro meses em um programa de tratamento. “Ali comecei a entender que não podia continuar fugindo e que eu mesmo precisava de ajuda.” Ele recebeu ajuda, e sua condição começou a melhorar. Então, aconteceu o 7 de outubro.

Torre de David

Na guerra mais recente, os problemas de Nir não apareceram imediatamente. Foi preciso tempo para que eles se instalassem, para que as dúvidas se acumulassem e começassem a pesar em sua consciência.

Um incidente que ele já não conseguia ignorar ocorreu em outubro de 2024, cerca de um ano após o massacre cometido pelo Hamas. Naquele período, Nir foi enviado ao corredor de Netzarim, uma faixa de terra que atravessa a Faixa de Gaza e era ocupada pelas FDI, para instruir soldados na operação de drones. Foi a primeira vez que sentiu uma sensação concreta de perigo mortal e que seus companheiros não seriam capazes de protegê-lo. Pegou uma arma e granadas e subiu sozinho ao terceiro andar de um dos edifícios da área.

“Disse a mim mesmo: vou ficar de guarda. Sentei-me ali no escuro, sozinho, e comecei a imaginar figuras a 20 metros de distância de mim. No canto de uma sala escura, com um fuzil e granadas nas mãos, esperei a noite toda pela chegada do Hamas. Em retrospecto, percebo que já estava no meio de um grave ataque de ansiedade ali.” Pela manhã, foi levado de volta a Israel. “Fui direto para casa e senti como se não tivesse saído daquele quarto. Eu ouvia e via as mesmas figuras, ouvia os tanques, como se realmente ainda estivesse em Gaza.”

A princípio, tentou lidar com aquilo sozinho, mas não deu certo. “Nos Dias de Memória, eu entrava em ataques, chorava sem parar, via as pessoas que matei me xingando na minha imaginação”, disse. “Eu me trancava no quarto para que meus pais não me vissem e quebrava coisas.” Então, recorreu às drogas. Primeiro, cannabis “para encontrar um pouco de calma”, e depois MDMA e cetamina — “qualquer coisa que pudesse me fazer escapar”.

Segundo Nir, o uso de substâncias psicoativas entre reservistas não é um fenômeno marginal, mas um mecanismo silencioso de enfrentamento. “Muitas pessoas usam. Ninguém quer saber e ninguém quer ouvir. Não era uma experiência de celebração — era uma maneira de acalmar o inferno lá dentro.”

Quão comum é isso? Segundo Nir, o oficial de saúde mental de sua divisão lhe disse que “há soldados que dizem que orgias e drogas pesadas são uma excelente maneira de voltar à rotina. Nós rimos, mas então ele disse que também estava ativamente deprimido”. Durante todo esse período, continuou servindo de uniforme. Embora diga que nunca compareceu ao serviço sob efeito de drogas, durante suas horas como civil, elas eram seu alívio.

Purim de 2026 foi um ponto de ruptura, mais um ponto de ruptura. Em uma festa na Torre de David, em Jerusalém, “tudo explodiu”, conta ele. “Entrei em um estado verdadeiramente psicótico. Não me lembrava dos nomes dos meus amigos. Olhei para a Torre de David e, de repente, ela parecia uma mesquita em Gaza para mim. Senti que estava perdendo a sanidade.”

Nas semanas seguintes, decidiu abandonar a cannabis e viajou com sua companheira para uma viagem de cinco dias à Geórgia. Mas apenas um dia depois de Nir retornar a Israel, no fim de abril, foi convocado para uma patrulha no setor de Gaza. “Cheguei ao posto avançado de Nahal Oz e vi como Gaza havia se transformado em [um filme de comédia pastelão sobre o exército] Halfon Hill. Nem sequer havíamos começado a missão, e todos já estavam falando em matar. Pedi para me encontrar com o oficial de inteligência para inserir alvos no computador, e ele me disse: ‘Você tem dois milhões de alvos em Gaza’. Ele queria dizer que os dois milhões de pessoas que estavam lá eram os alvos.”

Passariam mais dois meses até que ele terminasse seu serviço. Repetidamente, envolveu-se em discussões (“pessoas que antes eram éticas tornaram-se sombras de si mesmas”) e voltou às drogas. Somente quando tudo terminou sentiu que poderia realmente se livrar delas. “Hoje estou limpo de todas as drogas há vários meses”, disse, mas considera difícil ignorar os danos que ainda o acompanham.

A lesão moral de Nir não é apenas a culpa pelas ações das quais participou, mas também a sensação de que traiu uma confiança. “A definição de lesão moral em Israel é traição, é assim que me sinto”, disse. “Pense nisso: eu, que deveria proteger os soldados e matar terroristas, de repente demonstro compaixão pelo inimigo. O que é isso senão traição? Como um oficial da Força Aérea pode sentir compaixão pelas famílias palestinas, especialmente depois de 7 de outubro? Essa é a contradição dentro da qual vivo.”

Os sentimentos de culpa aumentaram. “Comecei a me odiar e tinha medo de que as pessoas me odiassem. Eu realmente me sentia como um nazista, como se tivesse cometido assassinatos. Em uma viagem à Europa, disse a desconhecidos que era um assassino. Legalmente, não é assassinato, eu sei, mas esse era o meu sentimento.”

Há alguns meses, decidiu apresentar uma reivindicação ao Ministério da Defesa para obter reconhecimento por sua lesão psicológica. Então percebeu que estava sozinho de outras maneiras. Sua equipe gradualmente parou de falar com ele; alguns de seus amigos deixaram de atender suas ligações ou responder às suas mensagens no WhatsApp e, depois, descobriu que já não fazia parte dela. “Meus melhores amigos me excluíram”, disse. Agora, lida com seus sentimentos, que, ao contrário de seus amigos, não o abandonam.

“Só porque você mata alguém à distância, não significa que não seja afetado pelas consequências da morte”, enfatizou Nir. “A tecnologia é projetada para manter o combatente afastado do perigo físico, mas não mantém a alma afastada — às vezes, faz exatamente o contrário.”

Em uma declaração em resposta à reportagem, o porta-voz das FDI escreveu: “As FDI são plenamente responsáveis pela saúde mental e física de seus militares, e esse é um componente vital de sua prontidão e da prontidão das FDI para suas missões. Em qualquer caso de sofrimento psicológico manifestado entre soldados, assistência imediata é fornecida por meio dos comandantes e do pessoal médico relevante, incluindo um médico da unidade, um oficial de saúde mental e, se necessário, um psiquiatra. Em todos os esquadrões, são realizados acompanhamentos com frequência suficiente.

“Combatentes e operadores de sistemas de drones recebem pleno apoio no campo da saúde mental. Todos os operadores passaram e continuam passando por processos de acompanhamento e apoio adaptados às suas necessidades. Supondo que isso se refira a um operador ativo no sistema, ele também está incluído nessa estrutura de apoio.”

Sobre Nir, o porta-voz das FDI escreveu: “Antes da publicação, nenhum detalhe identificador foi fornecido sobre o oficial da reserva descrito na reportagem. Se eles forem fornecidos, serão examinados e tratados conforme necessário. As FDI convocam todos os soldados e militares que estejam sofrendo a procurar seus comandantes, compartilhar sua situação e receber a assistência e o apoio necessários.

“As FDI, incluindo a Força Aérea, continuarão trabalhando para preservar a saúde de seus militares e fornecer a eles o apoio profissional, médico e de comando necessário. Em relação à alegação de falta de coordenação entre a Força Aérea e as forças da divisão, a Força Aérea opera em plena coordenação com as forças em terra, como tem feito durante todo o período dos combates.”

* Yaniv Kubovich é um jornalista israelense sênior e correspondente de assuntos militares e de segurança do Haaretz. Reportagem publicada em 10/09/2026.

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