Sim, sionismo é racismo
Trata-se de uma convicção baseada em reivindicações bíblicas sobre uma terra e em uma compreensão a-histórica da história. Fundamentalmente, sua concretização exige a usurpação e o despojamento da população palestina nativa.
Um soldado israelense vigia um homem palestino detido durante a demolição de uma casa palestina em Hebron, na Cisjordânia ocupada por israel em 25 de outubro de 2022 [Arquivo: Mussa Qawasma/Reuters].
Por Yara Hawari*
No domingo, durante sua conferência anual em Brighton, o Partido Verde britânico votou pelo reconhecimento do sionismo como racismo. A moção, que descreve o sionismo como “um projeto político etnonacionalista”, foi aprovada por 1.022 votos a 813, apesar da oposição de vários parlamentares do partido, bem como da ex-líder do partido Caroline Lucas.
A votação provocou uma onda de indignação nos principais meios de comunicação britânicos, com muitos comentaristas recorrendo às transmissões de rádio e televisão e às redes sociais para condená-la, acusar o partido de antissemitismo e até mesmo alegar que ele está colocando os judeus em perigo.
No entanto, a resolução do Partido Verde não declara nada de radical ou extraordinário. O sionismo foi e continua sendo uma ideologia colonialista de povoamento, e o colonialismo de povoamento é fundamentalmente racista. O sionismo está centrado na crença de que os judeus de qualquer lugar do mundo têm direito a uma pátria na Palestina histórica — um direito que se sobrepõe ao de qualquer outro povo.
Trata-se de uma convicção baseada em reivindicações bíblicas sobre uma terra e em uma compreensão a-histórica da história. Fundamentalmente, sua concretização exige a usurpação e o despojamento da população palestina nativa.
Não deveria ser particularmente controverso definir o sionismo como uma ideologia colonialista de povoamento, especialmente porque os próprios pais fundadores do sionismo o descreveram orgulhosamente dessa maneira. Vladimir Jabotinsky, um dos principais pensadores do sionismo revisionista no início do século XX, escreveu que “a colonização sionista […] deve ser realizada em desafio à vontade da população nativa”.
Theodor Herzl, frequentemente citado como o pai fundador do sionismo político, esperava estabelecer contato com Cecil Rhodes, o imperialista que liderou a colonização britânica no Zimbábue.
Em um infame rascunho de carta, que Herzl nunca enviou, ele convidou Rhodes a “ajudar a fazer história”. “Isso não envolve a África, mas um pedaço da Ásia Menor […] Como, então, acontece de eu recorrer a você, já que este é um assunto fora do seu campo de atuação? […] Porque se trata de algo colonial”, escreveu.
As primeiras instituições sionistas também refletiam essa mesma autodefinição colonial por meio de seus nomes: o Fundo Colonial Judaico, a Associação Judaica de Colonização da Palestina e o Departamento de Colonização da Agência Judaica.
O sionismo tampouco é particularmente excepcional como ideologia. Ele segue o caminho de outras ideologias, frequentemente enraizadas na ideia de destino manifesto, que moldaram entidades coloniais de povoamento e os crimes genocidas cometidos por elas contra as populações nativas para assegurar a continuidade de seus projetos coloniais.
De fato, o que está se desenrolando na Palestina não é um acontecimento isolado, mas parte de uma história global de táticas violentas de expropriação, destinadas a eliminar povos nativos e consolidar o controle colonialista de povoamento sobre as terras.
O Partido Verde não foi o primeiro a definir o sionismo como racismo em uma posição oficial. Em 1975, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Resolução 3379, declarando o sionismo uma forma de racismo e discriminação racial. A resolução foi aprovada por 72 votos a 35, com 32 abstenções, e baseou-se em declarações da Organização da Unidade Africana e do Movimento dos Países Não Alinhados, feitas no início daquele ano.
Não é surpreendente que a resolução tenha sido defendida por países do Sul Global, que conheciam muito bem o funcionamento das ideologias coloniais. Muitos traçaram, com razão, paralelos entre o regime sionista e o regime de apartheid da África do Sul.
A resolução acabou sendo revogada em 1991, sob pressão dos Estados Unidos e com a aprovação da União Soviética. O regime israelense havia estabelecido sua revogação como condição para participar das negociações de paz de Madri, patrocinadas conjuntamente por Washington e Moscou. A revogação da resolução refletiu uma mudança no equilíbrio do poder geopolítico, tendo como pano de fundo a dissolução da União Soviética e o colapso do bloco oriental, e não uma reconsideração da compreensão global do sionismo.
O fato de um partido tradicional da política britânica ter retomado algo apresentado no cenário mundial por países do Sul Global cinco décadas antes é significativo. No contexto político e histórico britânico, trata-se de um pequeno, mas importante passo para confrontar o sombrio legado do país de facilitar a criação de um Estado sionista em terras palestinas e contribuir para a Nakba, a limpeza étnica da Palestina em 1948.
Ainda não se sabe se o Partido Verde conseguirá manter sua posição diante da enorme pressão que certamente enfrentará e evitar fazer concessões para apaziguar aqueles que o atacam.
Enquanto isso, à medida que tudo isso se desenrola na mídia ocidental, o genocídio na Palestina continua, e o que se perdeu em meio ao ruído é a realidade material do sionismo para os palestinos que vivem no território. Há mais de um século, essa ideologia provoca uma devastação e uma destruição incalculáveis para o povo palestino. A moção do Partido Verde não inventou essa história — apenas lhe deu um nome.
* Yara Hawari é codiretora da Al-Shabaka, a Rede Palestina de Políticas Públicas. Anteriormente, atuou como pesquisadora responsável pela política para a Palestina e analista sênior. Yara concluiu seu doutorado em Política do Oriente Médio na Universidade de Exeter, onde lecionou diversas disciplinas de graduação e continua atuando como pesquisadora honorária. Artigo publicado na Al Jazeera em 07/10/2026.
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