Vítimas de “israel”, amputados de Gaza lutam por mobilidade em meio à destruição

Sobreviventes de ataques israelenses enfrentam uma grave falta de próteses e reabilitação enquanto o sistema de saúde de Gaza luta para funcionar sob o cerco

03/07/2026

Dezenas de milhares de pessoas em Gaza, incluindo Abdelsalam al-Bardawil, sofreram ferimentos que mudaram suas vidas em ataques israelenses e agora enfrentam dificuldades para obter próteses e acesso à reabilitação (Foto: Mohammed al-Hajjar/MEE).

Por Nada Nabil*

Rozan Kheira acordou ao som de explosões, gritos e pânico. Às 22h, um ataque aéreo israelense atingiu a casa de sua família na Cidade de Gaza enquanto todos dormiam.

Seu primeiro instinto foi sair da cama. Mas, quando tentou ficar de pé, caiu. Tentou novamente e caiu mais uma vez.

Só então olhou para baixo e viu sangue se acumulando ao redor de sua perna. Seu pé havia sido arrancado, permanecendo ligado ao corpo apenas por um pequeno pedaço de pele.

“Eu tinha acabado de acordar e não conseguia compreender o que estava acontecendo”, disse Kheira ao Middle East Eye. “Naquele momento, eu até esqueci que estávamos em guerra.”

A palestina de 24 anos permaneceu imóvel, em estado de choque, até que seu irmão a carregou para o andar de baixo.

Aquela noite, 19 de novembro de 2023, mudou sua vida para sempre.

À medida que Israel destruía hospitais, matava profissionais de saúde e impedia a entrada de combustível e medicamentos em Gaza, ferimentos que poderiam ser tratados transformaram-se em deficiências permanentes — e, em alguns casos, em mortes.

Kheira foi levada às pressas para o Hospital Indonésio após o ataque.

“Depois de horas sangrando, passei por uma cirurgia, e meu pé foi completamente amputado”, recordou.

Ela passou os dois anos seguintes em uma cadeira de rodas, sendo deslocada repetidamente e lutando para conseguir até mesmo cuidados médicos básicos.

“Eu sentia dores excruciantes, e não havia analgésicos disponíveis no norte de Gaza por causa do cerco israelense”, disse.

Apesar do cessar-fogo anunciado em outubro, que muitos esperavam que aliviasse as condições dos feridos, pouca coisa mudou para pessoas como Kheira.

Uma busca frágil por mobilidade

Posteriormente, Kheira iniciou uma busca por uma prótese na esperança de recuperar parte de sua independência.

Em junho passado, sua família foi obrigada a fugir para Khan Younis, no sul de Gaza, onde ela recebeu sua primeira prótese. Mas rapidamente ficou claro que ela não era adequada.

“A perna protética era extremamente pesada, pesando cinco quilos. Não se ajustava ao meu corpo e agravava meu sofrimento em vez de aliviá-lo”, disse.

Após retornar à Cidade de Gaza depois do cessar-fogo, ela recebeu outra prótese do Centro de Membros Artificiais e Poliomielite. Ela também se mostrou pesada demais.

Ainda determinada, viajou novamente — desta vez para o Hospital Hamad de Reabilitação e Próteses, na área de Sudaniya, no norte de Gaza.

“Caminhei com uma perna só de Tel al-Hawa até Sudaniya — mais de seis quilômetros — porque não havia transporte”, contou.

“Depois de várias avaliações, finalmente recebi uma terceira prótese.”

Mas suas dificuldades persistem. A prótese atende apenas cerca de 30% de suas necessidades, mas continua sendo sua única opção diante da grave escassez de equipamentos médicos na Faixa.

Os médicos a aconselharam a não caminhar com ela, mas ela tem poucas alternativas.

A luta continua além da adaptação inicial, envolvendo reabilitação e manutenção constantes.

“Preciso de manutenção semanal no Hospital Hamad, o que significa longas caminhadas com uma perna só apenas para chegar lá”, disse. “Não há veículos, nem mesmo carroças puxadas por burros. O transporte é escasso e extremamente caro.”

As restrições israelenses contínuas ao combustível, que violam os termos do cessar-fogo, juntamente com a destruição de cerca de 70% dos veículos de transporte de Gaza, deixaram o enclave diante de uma grave crise de mobilidade, limitando enormemente a circulação dos civis.

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O cessar-fogo apoiado pelos Estados Unidos, anunciado em outubro, tinha como objetivo interromper o genocídio e o cerco israelenses a Gaza, permitindo a entrada de ajuda humanitária, medicamentos e suprimentos para reabilitação.

No entanto, Israel manteve amplamente o bloqueio, permitindo apenas uma quantidade limitada de ajuda ao território, enquanto combustível, alimentos e suprimentos médicos continuam criticamente escassos.

Ataques aéreos e bombardeios também continuaram, com mais de 800 pessoas mortas desde o cessar-fogo. No total, as forças israelenses mataram mais de 72.700 pessoas desde outubro de 2023, enquanto mais de 172.000 ficaram feridas.

Nenhuma prótese para membros superiores

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 43.000 palestinos sofreram ferimentos que mudaram suas vidas durante a guerra, incluindo aproximadamente 10.000 crianças.

Embora alguns, como Kheira, tenham conseguido obter próteses básicas, muitos que sofreram lesões nos membros superiores ficaram sem qualquer opção.

Entre eles está Abdelsalam al-Bardawil, que perdeu a mão esquerda em um ataque israelense contra sua casa na Cidade de Gaza, que matou sua mãe e seu irmão e feriu outros familiares.

“Minha mão poderia ter sido salva, mas, como os hospitais estavam fora de serviço, ela foi amputada”, disse ao MEE. “Não recebi fisioterapia, e não havia analgésicos disponíveis. Lembro-me de pular por causa da intensidade da dor.”

Após ser deslocado para Deir al-Balah, ele viajou até o Hospital de Campanha Jordaniano, em Khan Younis, onde recebeu uma prótese, mas a retirou pouco depois.

Segundo ele, ela era extremamente pesada, rígida e meramente estética.

Posteriormente, procurou o Crescente Vermelho em Deir al-Balah e outras organizações, mas ouviu repetidamente a mesma resposta: não havia próteses para membros superiores disponíveis.

Incapaz de trabalhar ou de se sustentar, ele agora depende de ajuda humanitária.

“O que mais me entristece é minha incapacidade de trabalhar”, disse. “Isso me obriga a depender de assistência.”

Ele também enfrenta dificuldades para acessar reabilitação e tratamento, já que a falta de transporte torna difícil até mesmo receber cuidados médicos básicos.

“O problema não é apenas a terapia”, afirmou. “Não consigo chegar às clínicas para obter medicamentos ou tratamento para depressão.”

A perda da mãe também o deixou lutando para realizar tarefas cotidianas.

“A única pessoa a quem eu podia pedir ajuda sem sentir vergonha era minha mãe”, disse. “Agora me sinto constrangido ao pedir ajuda à minha irmã ou a outros parentes.”

Al-Bardawil possui um encaminhamento para tratamento no exterior, mas, como milhares de outras pessoas, continua preso em uma lista de espera devido aos frequentes fechamentos e às restrições israelenses nas passagens de Gaza.

Segundo o Ministério da Saúde palestino, mais de 20.000 pacientes aguardam atualmente tratamento fora de Gaza, com o acesso sendo repetidamente atrasado ou bloqueado.

Abdelsalam al-Bardawil está entre os milhares de pacientes que aguardam em listas de espera para receber tratamento no exterior (Foto: Mohammed al-Hajjar/MEE).

Produção paralisada sob o bloqueio

Apesar dos esforços de fabricação local realizados por hospitais e centros de reabilitação de Gaza, autoridades afirmam que continuam sobrecarregados pela escala das vítimas.

Hosni Muhanna, responsável de mídia do Centro de Membros Artificiais e Poliomielite da Prefeitura de Gaza, afirmou que o número de amputações registradas chegou a cerca de 6.000 desde o início da guerra, segundo o Ministério da Saúde e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

“Esse número sem precedentes reflete a enorme dimensão da catástrofe humanitária e sanitária”, disse ao MEE.

Ele acrescentou que o centro depende de uma pequena oficina técnica para a produção local, mas a escassez de materiais essenciais limitou severamente sua capacidade.

“A proibição da entrada de suprimentos essenciais desde o início da guerra paralisou a produção, especialmente de próteses para membros superiores, já que as matérias-primas não foram autorizadas a entrar”, afirmou Muhanna.

Segundo ele, o bloqueio criou uma escassez aguda de componentes protéticos e dispositivos auxiliares, gerando longas listas de espera enquanto o número de amputados continua aumentando.

“A adaptação de uma prótese exige avaliação médica, fisioterapia para preparar os músculos e um programa completo de reabilitação para treinar os pacientes e restaurar sua independência”, explicou.

Mas muitos pacientes não conseguem concluir essas etapas devido ao deslocamento forçado, às dificuldades de transporte e à destruição da infraestrutura.

De volta ao campo onde está deslocado, al-Bardawil continua esperando por uma ligação que possa lhe permitir viajar ao exterior para tratamento.

“Sinto como se minha vida estivesse completamente paralisada”, disse. “Eu não perdi apenas minha mão. Sinto que perdi minha vida.”

* Nada Nabil é jornalista e advogada de direitos humanos em Gaza. Ela reportou da Cidade de Gaza para o Middle East Eye. Matéria publicada em 23/05/2026.

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