Ratos, esgoto a céu aberto, doenças de pele: o cerco de “israel” está devastando os deslocados de Gaza

À medida que "israel" continua restringindo a ajuda, o sistema de saúde destruído de Gaza luta para tratar e conter doenças que se espalham pelos campos de tendas superlotados.

01/07/2026

Criança palestina que sofre de infecções de pele e desnutrição grave recebe tratamento no Hospital Al-Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 12 de maio de 2026. (Doaa Albaz/Activestills)

Por Ahmed Dremly e Ibtisam Mahdi*

Eman Abu Jame considerava sua família uma das sortudas. Israel bombardeou sua casa no sul da Faixa de Gaza no início da guerra, obrigando-os a se deslocarem de um abrigo para outro. Mas, durante os dois primeiros anos do genocídio, nem ela, nem o marido, nem os filhos sofreram problemas graves de saúde.

Tudo mudou em outubro de 2025, quando buscaram refúgio em um campo de tendas superlotado em Khan Younis.

Quando chegaram, a falta de higiene, a proliferação de insetos e a superlotação extrema já haviam transformado o campo em um ambiente propício para doenças. Dois meses depois, o filho de 8 anos de Abu Jame, Mousa, e seu marido de 47 anos, Abdul Majeed, começaram a apresentar sintomas: seus corpos começaram a inchar, acompanhados de diarreia severa e febres altas.

Devido às difíceis condições econômicas e aos preços exorbitantes da carne, do peixe e de outros alimentos ricos em proteínas, seus níveis de proteína caíram rapidamente, agravando a incapacidade de seus organismos de reter líquidos.

“Estávamos completamente incapazes de comprar comida e água”, contou Abu Jame à +972 Magazine. “Tudo era muito caro naquela época, e simplesmente não tínhamos dinheiro. Meu marido não conseguia comprar nada — até mesmo pão era inacessível.”

Bebê palestino de seis meses recebe medicamento no Hospital Al-Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 12 de maio de 2026. (Doaa Albaz/Activestills)

Os médicos tiveram dificuldades para diagnosticar pai e filho. Inicialmente, suspeitaram de alergia ao glúten, mas os exames descartaram essa hipótese. Viajar para o exterior em busca de tratamento também era impossível devido ao fechamento das passagens de fronteira. O único tratamento eficaz era a albumina medicinal, uma solução proteica que ajudava a estabilizar sua condição.

“Quando [Mousa] tomava o medicamento, melhorava”, explicou Abu Jame. “Mas sempre que deixava de tomá-lo, seu corpo voltava a inchar.”

No entanto, o tratamento era extremamente difícil de obter. Desde 7 de outubro de 2023, Israel restringe severamente a entrada de medicamentos e impede que ONGs internacionais entreguem suprimentos médicos à Faixa de Gaza. Mesmo após o anúncio de um cessar-fogo em outubro passado, Israel continuou bloqueando a ajuda; neste mês, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, 47% dos medicamentos essenciais, 59% dos suprimentos médicos e 87% dos materiais para exames laboratoriais estão esgotados.

À medida que o medicamento desapareceu, o corpo de Mousa acumulou ainda mais líquido, e ele morreu em janeiro. Três meses depois, Abdul Majeed também sucumbiu à mesma doença misteriosa que os médicos não conseguiram diagnosticar.

Embora a enfermidade permanecesse sem identificação, estava claramente ligada às condições do campo — possivelmente transmitida por mordida de roedor ou infestação ectoparasitária. Apenas nos primeiros quatro meses de 2026, segundo a ONU, houve mais de 70 mil casos de infestações semelhantes em Gaza, nas quais parasitas vivem sobre ou sob a pele e se tornam vetores de doenças. Mais de 80% dos locais de deslocamento relatam a presença visível de pragas, juntamente com infecções de pele generalizadas, como sarna, piolhos e percevejos, enquanto a organização Save the Children observou recentemente que duas em cada três crianças em Gaza vivem em locais de deslocamento afetados por esses riscos.

O Dr. Ayman Abu Rahma, diretor do Departamento de Medicina Preventiva do Ministério da Saúde, disse à +972 que resíduos sólidos — incluindo lixo hospitalar —, esgoto e cadáveres soterrados sob os escombros estão contribuindo para a proliferação de roedores e doenças.

“A situação ambiental, infelizmente, está em grave deterioração desde o início da guerra e continua piorando”, explicou. “A crise agora atingiu seu auge: embora o problema já existisse em 2024 e 2025, a escala da infestação neste verão é sem precedentes. As altas temperaturas aceleraram a reprodução de insetos e roedores, enquanto centenas de milhares de toneladas de lixo não recolhido se acumularam ao redor das tendas devido à destruição de equipamentos e à escassez de combustível.”

A destruição da infraestrutura de esgoto por Israel, acrescentou Abu Rahma, agravou ainda mais a situação, e o cerco israelense em curso deixou o mercado local sem os materiais necessários para combater infestações de roedores.

“Os sistemas de esgoto danificados criaram poças de águas residuais estagnadas que servem como criadouros de pragas, e os escombros espalhados tornaram-se um habitat natural para ratos. As restrições à entrada de pesticidas e iscas envenenadas tornaram o controle eficaz praticamente impossível.”

Já houve um aumento significativo nas reclamações sobre ratos por parte dos moradores de Gaza que vivem em tendas, observou Abu Rahma.

“Os roedores têm roído os membros de crianças adormecidas e danificado pertences e roupas. Também há relatos de espécies de roedores nunca antes vistas e não nativas da Faixa de Gaza, e alguns especulam que o exército israelense as trouxe durante a guerra.”

No campo de deslocados em Khan Younis, Yasser, filho de 6 anos de Abu Jame, sofre da mesma doença e dos mesmos sintomas que atingiram seu pai e seu irmão. Para piorar a situação, quando procuraram tratamento no Hospital Nasser, o sistema imunológico de Yasser já estava tão comprometido pela doença que ele contraiu uma infecção adicional de pele.

“Não há limpeza alguma, e as infecções se espalham facilmente das pessoas ao nosso redor”, disse a mãe enlutada de 32 anos. “Até os hospitais estão abandonados, os quartos são minúsculos e os pacientes ficam amontoados uns ao lado dos outros.”

Felizmente, a saúde de Yasser apresenta atualmente pequenos, mas constantes, sinais de melhora. Abu Jame agora espera conseguir um encaminhamento médico para tratá-lo no exterior, rezando para que ele não tenha o mesmo destino do pai e do irmão.

Doentes dentro dos campos de tendas de Gaza

Em maio de 2024, durante uma ofensiva israelense de várias semanas contra Jabalia, no norte de Gaza, Rital Halawa, de 5 anos, brincava do lado de fora de sua casa bombardeada no centro da cidade quando um drone quadricóptero israelense apareceu sobre ela — e lançou uma granada.

“A menina foi envolvida pelas chamas. Eu a vi gritando”, recordou sua mãe, Samar, de 27 anos.

Duas crianças palestinas recebem tratamento para ferimentos graves após uma explosão causada por munição não detonada deixada para trás por forças israelenses; Hospital Al-Shifa, Cidade de Gaza, 23 de outubro de 2025. (Yousef Zaanoun/Activestills)

Rital sofreu queimaduras graves de segundo e terceiro graus no rosto, peito, abdômen e pernas. Desde que sua casa em Jabalia foi bombardeada em novembro de 2023, a família vive em uma tenda em meio ao aumento das temperaturas, esgoto e enxames de insetos que picam — condições que pioraram severamente sua recuperação.

A falta de eletricidade e ventilação deixa Rital sem “nenhuma forma de respirar”, disse Samar, enquanto seu corpo transpira intensamente sob as apertadas roupas de compressão usadas no tratamento das queimaduras.

O calor provoca uma coceira intensa, criando um ciclo perigoso de novas lesões.

“Ela continua se coçando sem parar, o que irrita o tecido, rasga a pele e a faz sangrar”, explicou Samar.

O tecido exposto volta então a ficar vulnerável a infecções perigosas que agravam ainda mais a irritação.

O Dr. Ibrahim Haboub, especialista em dermatologia do Hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza, descreveu à +972 o crescente surto de doenças de pele entre os deslocados de Gaza. As picadas de insetos tornaram-se o problema mais disseminado, especialmente na região de Al-Mawasi, em Khan Younis, e Haboub alertou que as crianças são particularmente vulneráveis, já que o ato constante de coçar frequentemente leva a infecções bacterianas secundárias e complicações mais graves.

Haboub também relatou infestações generalizadas de piolhos e um forte aumento nos casos de sarna, impulsionados pela extrema superlotação em abrigos, campos e escolas. Outras doenças de pele, incluindo infecções fúngicas, também se tornaram mais comuns em toda Gaza — especialmente entre palestinos que foram detidos em prisões israelenses, alguns dos quais necessitam de tratamento prolongado e intensivo devido a infecções graves e resistência a medicamentos.

Criança palestina que sofre de infecções de pele e desnutrição grave recebe tratamento no Hospital Al-Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 12 de maio de 2026. (Doaa Albaz/Activestills)

Essa crise, observou Haboub, foi agravada por uma grave escassez de suprimentos médicos.

Para a família Halawa, que já enfrenta dificuldades financeiras, essas carências tornaram a recuperação de Rital quase impossível. Seu pai está desempregado, e a família agora depende de caridade e cozinhas comunitárias para sobreviver. Alimentos nutritivos são caros, e os ferimentos de Rital pioraram significativamente durante o auge da campanha de fome imposta por Israel no verão passado.

Somente seus cremes médicos essenciais custam US$ 20, além das despesas de transporte para as sessões semanais de fisioterapia em uma clínica dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), obrigando a família a fazer sacrifícios dolorosos.

“Eu deixo de comprar leite para meu bebê para pagar [o transporte para] a fisioterapia dela”, disse Samar.

O impacto psicológico tem sido tão devastador quanto a dor física. Rital sofre frequentemente bullying por causa de seus ferimentos, explicou Samar, o que a deixou profundamente deprimida.

“O rosto da menina ficou desfigurado — eu não consigo esconder isso”, disse Samar. “Ela precisa de cirurgias plásticas especializadas, que não estão disponíveis em Gaza.”

“Uma crise completamente criada pelo homem”

Para Craig Kenzie, coordenador médico de Gaza dos Médicos Sem Fronteiras, a Faixa continua presa a uma “crise humanitária completamente criada e planejada pelo homem”, causada pelo bloqueio israelense, apesar do anúncio de um cessar-fogo há mais de sete meses.

Operando com 1.500 funcionários locais dentro de Gaza, a organização não consegue trazer novo pessoal internacional nem suprimentos médicos desde o início de janeiro devido às restrições israelenses. Como explicou Kenzie, isso deixou “cada aspecto de nossos programas sob sério risco de precisar ser reduzido ou completamente encerrado no próximo período”.

Palestinos recebem atendimento em uma clínica da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), no Complexo Médico Nasser, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 15 de janeiro de 2026. (Abed Rahim Khatib/Flash90)

Mais da metade dos medicamentos para doenças crônicas já está esgotada, afirmou. Os suprimentos essenciais para curativos estão acabando, enquanto pomadas tópicas usadas para tratar doenças de pele continuam sendo bloqueadas por Israel sem explicação.

“Em Deir Al-Balah, realizávamos cirurgias em tendas”, disse Kenzie. “Quando equipamentos cirúrgicos quebram, não há substituição porque não conseguimos obter peças de reposição nem novos equipamentos.”

O bloqueio não apenas provocou graves carências de equipamentos e profissionais de saúde, como também restringiu ainda mais o acesso à água limpa. Segundo os Médicos Sem Fronteiras, um dos maiores distribuidores de água potável em Gaza, Israel destruiu ou danificou 90% da infraestrutura de água e saneamento da Faixa — algo que a organização descreve como uma forma de punição coletiva.

Ao longo da guerra, Israel também impediu a entrada dos materiais necessários para tratar adequadamente a água, obrigando o MSF a construir instalações improvisadas de tratamento por osmose reversa usando peças reaproveitadas. Alimentada por um gerador, a unidade purifica águas subterrâneas contaminadas por sal, sujeira e esgoto, produzindo 5 milhões de litros de água potável por dia.

Ainda assim, operar até mesmo esse sistema básico levanta difíceis questões éticas e operacionais, explicou Kenzie.

“Você continua produzindo água hoje para as pessoas que precisam dela, sabendo que o gerador necessita de manutenção e que, se você o utilizar hoje, ele pode quebrar amanhã e nunca mais ser consertado?”, perguntou. “Ou você o desliga e diz às pessoas: ‘Não, desculpem. Não tenho água limpa para vocês hoje’?”

O que mais aflige Kenzie é saber que ajuda urgentemente necessária está a apenas alguns quilômetros de distância enquanto Israel continua bloqueando sua entrada.

“É simplesmente inaceitável”, afirmou, “que o governo que está cometendo este genocídio seja também aquele capaz de bloquear e restringir a resposta humanitária a ele.”

* Ahmed Dremly é um jornalista de Gaza cujos textos foram publicados por Middle East Eye, Mondoweiss, The Electronic Intifada, The Intercept, Al-Monitor e outros veículos. Atualmente estuda na Itália, após deixar Gaza em maio de 2026. Ibtisam Mahdi é uma jornalista freelancer de Gaza especializada em reportagens sobre questões sociais, especialmente relacionadas a mulheres e crianças. Ela também trabalha com organizações feministas em Gaza nas áreas de comunicação e produção de reportagens. Reportagem publicada na +972 Magazine em 29/05/2026.

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