Escritores palestinos firmam cooperação com brasileiros e homenageiam Milton Hatoum

Evento foi realizado hoje em São Paulo e contou com pronunciamentos em denúncia ao genocídio em Gaza

10/04/2025

Ricardo Ramos Filho, presidente da UBE, e Murad Al Sudan, secretário-geral da União Geral dos Escritores Palestinos, assinam o acordo. (Foto: Fepal)

A União Brasileira de Escritores (UBE) e a União Geral dos Escritores Palestinos assinaram nesta quinta-feira (10), em São Paulo, um acordo de cooperação cultural com o objetivo de estreitar os laços literários e promover o intercâmbio entre autores dos dois países.

O documento foi assinado por Ricardo Ramos Filho, presidente da UBE, e Murad Al Sudani, secretário-geral da União Geral dos Escritores Palestinos. A cerimônia contou com a presença de escritores e membros das duas entidades.

Segundo o acordo, com validade inicial de quatro anos, as duas associações se comprometem a traduzir e divulgar obras literárias de seus respectivos membros, com foco especial na produção de jovens escritores. A iniciativa visa ampliar o conhecimento mútuo sobre a diversidade literária e cultural do Brasil e da Palestina.

Entre os principais pontos do acordo, estão a troca de delegações para realização de seminários e palestras, a publicação conjunta de livros e artigos, a participação mútua em feiras literárias, a organização de celebrações em datas culturais relevantes e o intercâmbio de periódicos e documentos literários.

O texto também prevê o uso dos sites institucionais de ambas as entidades para divulgação de projetos comuns e publicações digitais, bem como o apoio mútuo aos escritores associados que viajem a convite da outra instituição, mediante apresentação de recomendação formal.

Apesar de não gerar obrigações financeiras automáticas, o acordo deixa em aberto a possibilidade de cooperação financeira em projetos específicos, mediante consenso entre as partes. Além disso, propõe a criação de programas executivos para viabilizar as ações previstas.

Ricardo Ramos Filho fez uma fala altamente simbólica no evento. “Hoje eu estou todo vestido de preto, representando o luto por todo o povo palestino que vem sendo massacrado há tanto tempo”, declarou. “Luto meu e de todos os escritores brasileiros que eu represento pela UBE.”

Em seu discurso, também destacou que, a partir desse convênio, a UBE irá produzir uma coletânea de contos bilíngue, escritos por escritores palestinos. “Essa iniciativa reflete a nossa vontade de ouvir a voz do povo palestino através da literatura”, completou.

A parceria ainda contempla o reconhecimento e a homenagem a escritores de destaque de ambos os países, com o intuito de valorizar nomes representativos da cultura literária brasileira e palestina. Nesse sentido, a entidade de escritores palestinos realizou, durante o evento, uma homenagem a Milton Hatoum, destacado escritor brasileiro, descendente de libaneses e lutador da causa palestina.

“Quando homenageamos Milton Hatoum, estamos homenageando, assim, todos os escritores brasileiros”, afirmou Murad Sudani. Ele aproveitou para denunciar o genocídio realizado por “israel” contra os palestinos de Gaza, uma “guerra de extermínio que não tem precedentes na história”.

“A luta contra isso também passa pela literatura”, disse Hatoum, ao receber a Medalha da Cultura, Artes e Ciências. “A esperança está nas várias formas de resistência, e uma delas (não a menos importante) é a forma literária.” Emocionado, o autor, premiado internacionalmente inúmeras vezes, declarou que a homenagem de hoje foi o “grande prêmio da minha vida”.

O presidente da entidade palestina também revelou que um dos seus dirigentes está desaparecido sob os escombros da destruição causada por “israel”, junto com sua família e outros 20 mil palestinos. Também, 47 escritores e poetas palestinos já foram assassinados pelo terror sionista desde o 7 de outubro de 2023.

“No mundo todo, os escritores escrevem com a tinta fria de suas canetas. Na Palestina, hoje os escritores escrevem com a tinta quente de sangue dos nossos mártires”, disse Sudani. “De fato, já fazem 100 anos que o povo palestino escreve com o sangue dos mártires, defendendo não só a sua liberdade, mas a dos povos do mundo todo.” Ele concluiu: “a Palestina vai vencer todos esses massacres.”

Com a assinatura deste acordo, a UBE e a União Geral dos Escritores Palestinos reforçam o papel da literatura como ferramenta de diálogo e aproximação entre povos, em um gesto simbólico de solidariedade cultural e cooperação internacional.

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